Por
Guilherme César
Na sua estante
Palavras tem o poder de desfazer sorrisos ou
de trazê-los à tona. Conseguem acabar com uma guerra, ou iniciar a mais
sangrenta das batalhas. Podem nos sufocar, mas também nos libertar. Muitas
vezes são mais afiadas que uma faca, outras, mais suaves que a pétala de uma
rosa. No fim, são palavras, prelúdios do que deveriam se tornar atitudes.
Afinal, não importa o que você diga, o que escreva, se não for capaz de agir,
terá sido tudo em vão.
Não pude deixar de me espantar no
instante em que ouvi Crystal dizer que não estava mais noiva. É óbvio que
aquilo me atingiu como um soco. Porém não senti dor, senti na verdade meu
coração enlouquecer, um arrepio percorrer meu corpo e a minha garganta secar.
Uma explosão súbita de esperanças irrompeu em meu peito, levando consigo
qualquer pensamento que tivera nos últimos dias. Eu só consegui pensar que o
Universo finalmente tinha me sorrido e que de alguma forma havia sido agraciado
com um pouco de sorte.
—Daniel? —indagou Crystal depois que
fiquei alguns segundos sem dizer nada, atônito com o que ela dissera. — Você
está aí?
—Oi! —balbuciei despertando de meus
devaneios. —Sim, estou aqui. O que você disse? Não está mais noiva?
—Não estou. —ouvia o som de passos
ao fundo.
Logo em seguida o som da porta do
cinema sendo fechada ecoou pelo local. Ouvi o bip que indicava que a chamada
tinha sido finalizada. Olhei para a porta e lá estava Crystal. A garota da ficção
caminhava lentamente pelos degraus, vindo a minha direção. Usava uma blusa de
algodão branca e de mangas compridas, com o que pareciam ser bordados, saias
jeans que chegavam até um palmo acima de seus joelhos e uma bota preta de cano
longo. Sua bolsa estava como sempre colocada transversalmente ao corpo.
—Me explique isso direito. —pedi me
levantando enquanto ela se aproximava. Seu olhar fixo em mim.
Crystal apenas deu um breve sorriso
malicioso e se jogou nos meus braços. Suas mãos indo direto até os meus
cabelos, me envolvendo e segurando minha nuca. Ela então me beijou de forma
intensa. Seus lábios doces tocando os meus, aquela velha sensação de prazer, de
nostalgia e de adrenalina. Meu corpo ardendo com seu simples toque. Minhas mãos
automaticamente foram até sua cintura, a segurei com firmeza e trazendo-a mais
para perto, intensificando ainda mais o beijo até perdermos o ar. Nossos corpos
colados, olhos fechados aproveitando cada segundo daquele momento.
—Eu estava com saudades da sua boca.
—Crystal sussurrou quando paramos de nos beijar, olhando no fundo dos meus
olhos.
—Eu também, estava a ponto de
enlouquecer. —sorri voltando a beijá-la. Permanecemos ali, de pé no cinema
escuro por alguns instantes, nos beijando sem conseguir parar. Até que a
curiosidade falou mais alto e eu interrompi o beijo. —Me explique o que
aconteceu.
—Você sabe como estragar a alegria
de uma garota. —ela fez um biquinho, seus braços entrelaçados em meu pescoço. —
Eu pedi um tempo, precisava decidir se aquilo era mesmo o que eu queria. Pedi
um tempo para poder ficar contigo. Eu escolhi você, Dan.
—Isso quer dizer que você quer
namorar comigo? —questionei.
—Não, isso quer dizer que teremos um
tempo para nós, até eu ter que me decidir, se irei continuar com essa idiotice
de casamento, ou se serei livre para ficar com quem eu amo. —sua resposta
abalou um pouco as minhas esperanças.
—Por que você simplesmente não dá um
fora nesse cara e fica comigo?
—Não é tão simples, criança.
—Crystal se desvencilhou e subiu dois degraus, ficando de costas para mim. —
Tem muita coisa em jogo. Mas consegui um tempo, até eu ajeitar minha vida e
definir minhas prioridades.
—Isso parece muito abstrato para
mim. —comentei intrigado, já sem esperanças.
—Que eu saiba, não sou nada
abstrata. —com o velho sorriso safado no rosto a garota da ficção se virou, me
olhando e fazendo um gesto com o dedo indicador, me chamando para ir até ela. —
Deixe-me te provar, gatinho.
Eu não precisava ouvir aquele
convite mais de uma vez. Avancei e puxei seu corpo esguio novamente, com um
pouco mais de força. Seu perfume suave se espalhando pelo ar. Nos beijamos e
nos abraçamos, sem nos preocupar em onde estávamos. Minhas mãos descendo até
suas nádegas, as apertei esfregando sua virilha na minha. Estava cego pelo
desejo, cego pelos encantos da garota da ficção. Que se dane o noivado, que se
dane o sofrimento, eu a queria, eu precisava de seu corpo, de seu toque.
—Eu te quero dentro de mim, agora.
—Crystal sussurrou ao meu ouvido.
—Sexo no cinema? —sorri de forma
maliciosa. Aquele era um dos meus fetiches.
—Medo de ser pego em flagrante? —ela
segurou minha mão e me puxou para uma das poltronas.
—Meu único medo é de não enlouquecer
nos seus braços. —respondi. — Eu estaria fora de mim se não me perdesse nesse
olhar.
Ela apenas sorriu e me fez sentar na
primeira cadeira da fila em que estávamos. De forma sensual ela abaixou sua
mão, colocando-a dentro da saia e segurando a calcinha. Lentamente Crystal
retirou sua calcinha, sempre me olhando fixamente. Eu estava queimando de
ansiedade. Louco para penetrar e me deixar consumir pelo prazer. Abaixei minhas
calças revelando meu pênis ereto. Crystal tirou sua bolsa dos ombros e antes de
colocá-la sobre a poltrona ao lado retirou um pacote com uma camisinha.
Mordendo os lábios a garota da ficção se debruçou sobre mim e segurou meu
membro. Suspirei com seu toque enquanto ela colocava a camisinha.
Em seguida Crystal se virou, ficando
de costas para mim e se sentando lentamente em meu colo, suas pernas abertas,
enquanto eu penetrava em sua vagina extremamente úmida. Soltando um gemido a
garota da ficção se apoiou na poltrona da frente e começou a se movimentar,
subindo e descendo, de forma lenta. Coloquei minhas mãos sobre seus seios,
apertando-os enquanto ela continuava se movimentando. Sentia seu corpo quente e
delirava ouvindo seus gemidos.
A cada golpe, a cada vez que ela se
sentava e meu pênis adentrava mais fundo em seu corpo, eu sentia um calafrio
percorrer minha espinha. Uma sensação de enlouquecer qualquer um. O prazer que
se espalhava do meu membro irradiando por todo o meu corpo. Minhas veias
pulsando, meu coração disparado. As primeiras gotas de suor brotando em minha
testa enquanto a velocidade aumentava. O calor também crescia parecendo ser
capaz de a qualquer momento derreter nossos corpos. Os gemidos de Crystal mais
altos. A respiração ficava mais difícil e a excitação maior.
Sempre fui tomado por aqueles
pensamentos pervertidos que me levavam a imaginar uma transa quente dentro de
um cinema. Sem dúvidas os locais perigosos me eriçavam os pelos de todo o
corpo. Dentro de um carro numa rua deserta, de um beco escuro, um banheiro
público, um elevador. Dentre todos o cinema tinha um apelo especial. Eu amava
aquele lugar, me sentia em paz ali. Contudo, nenhuma das vezes que me imaginei
transando dentro de um cinema passou pela minha mente que seria tão prazeroso.
Uma sensação de perigo, adrenalina, prazer. A vontade crescente de gritar, de
arrancar a roupa da garota da ficção e penetrá-la em todas as posições possíveis.
A velocidade dos movimentos já era
incrível, estávamos ambos ofegantes e dominados por aquele ritmo. Senti meu
corpo se preparar para o ápice e uma pressão apertou meu falo. Crystal se
contraiu em um gemido alto, descendo até o fim e gozando. Seu corpo estremeceu
e fui levado junto, gozando sem controle. O auge do prazer, o orgasmo que me fez
perder o ar. Uma sensação única e viciante.
Deitou-se então sobre mim,
encostando sua nuca em meu ombro, meu pênis ainda dentro de seu corpo. Podia
ver claramente seu sorriso satisfeito mesmo com aquela fraca luz do cinema.
Abracei seu corpo e beijei seu pescoço lentamente, saboreando sua pele macia e
sentindo o calor de seu corpo, enquanto recuperávamos o fôlego.
—Você me vicia. —comentei beijando
seu pescoço.
—Eu sou a droga que te leva a
loucura, criança. —ela sorriu. — Te faço queimar em segundos. Vicie em mim e
seja consumido pelas chamas.
—Já fui consumido. —Crystal se virou
tirando meu pênis de dentro dela.
Me encarando ela se aproximou e começou
a me beijar. Continuamos ali trocando caricias até o fim do intervalo. Era
difícil me desvencilhar de seus braços, me afastar de seus lábios com gosto de
morango. Eu queria mais, queria sempre mais. Porém não dava para continuar ali,
logo alguém poderia nos ver.
—Não quer dar uma passada no meu
apartamento hoje? —perguntei enquanto caminhávamos pelo corredor.
—Não posso, criança. —ela sorriu
parando próxima da porta da minha sala. — Tenho que estudar um pouco. Pode não
parecer, mas sou uma garota estudiosa.
—Vai me trocar pelos estudos?
—brinquei me fingindo de ofendido.
—Se eu não estudar serei reprovada.
—Crystal me deu um selinho e se afastou, dando dois passos para trás. — Boas
notas significam longas noites de sexo selvagem para comemorar. Lembre-se
disso.
—Espero que isso seja uma promessa.
—sorri.
—Talvez. —Ela se virou e seguiu para
a saída do prédio. — Kisses, gatinho. Bye bye.
Com um aceno ela cruzou a porta e me
deixou sozinho. Meu corpo parecia mais cansado do que o normal, como se a
garota da ficção tivesse arrancado minha alma quando foi embora. Eu não sabia
se ficava feliz pelo retorno dela, ou se ficava mais confuso. Desde que a
conhecera minha vida se tornou uma montanha russa, repleta de surpresas, prazer
e sofrimento. A cada beijo ela conseguia deixar minha mente mais confusa e me
afastava mais de entender os mistérios escondidos em seu olhar.
A sensação de ser incompleto era
algo que fazia parte de mim há anos. Contudo, Crystal conseguira dar um novo
significado a ela. Nos dias que se seguiram essa sensação se destacou, se
intensificou, me devorando por dentro como um lobo faminto. Dilacerando minha
alma de forma insana. A fera que eu alimentava com doces esperanças de que
minha sorte mudara e que a garota da ficção finalmente havia decidido ficar
comigo. Mas como sempre, havia um novo empecilho nos atrapalhando. Um não,
vários.
...Terça-feira... Crystal passou o
dia todo me enviando sms, me provocando, dizendo que queria me chupar, que
queria ser minha. A noite chegou e quando pedi para vê-la recebi um “não”
seguido de uma desculpa furada. “Trabalho em aula, criança, preciso dos
pontos”...
Quarta-feira... uma ligação no meio
do expediente, me pedindo para ir ao banheiro, quando lá cheguei fui
surpreendido com fotos dela nua, se tocando. Mais provocações, me fazendo
perder o controle. Durante a noite outra desculpa, dessa vez Vic não estava bem
e ela não podia deixar a amiga sozinha. Tudo bem...
E assim os dias seguiram. Breves
sumiços, mais desculpas, provocações cada vez mais raras. Me sentia enrolado,
como se estivesse sendo cozinhado em “banho Maria”. Aquela situação já estava
me enfurecendo. Como ela podia fazer aquilo? Brincar comigo, me manipular, me
provocar e depois sumir? Estava difícil encontrar respostas, mais difícil ainda
encontrar uma lógica para toda a situação. Aos poucos os mistérios iam perdendo
o charme. Aos poucos eu me via como um cachorrinho, correndo atrás da dona que
não tinha tempo para brincar. Meu orgulho ferido, meu coração já nem batia
mais.
Passei o final de semana todo tentando
falar com Crystal, mas a garota “nada doce” havia sumido do mapa. Sem sms, sem
ligações, sem esperanças. E eu? Eu já estava cansado de continuar daquela
forma, decidi não ligar mais, decidi esperar que ela viesse atrás, e quando o
fizesse, que fosse pela última vez. As explicações já não me convenciam, as
desculpas não eram suficientes.
Logo no inicio da aula de quarta-feira
recebi um recado de Jonas. Meu animado amigo e ex-professor queria conversar
com urgência comigo, o que me fez sair da sala alguns minutos antes do
intervalo começar. Fui até a biblioteca e me surpreendi com a cena que vi. Um
grupo de garotas se reunia logo na entrada da do lugar, todas chorando entorno
de alguém. Tive que me aproximar delas para entrar no local e pude identificar
quem era a pessoa que estava no meio da roda de garotas. Ninguém menos que
Jonas, sendo abraçado freneticamente pelas garotas que pareciam se despedir
dele. Me afastei um pouco do grupo de fangirls
do professor e fiquei a sua espera, para saber qual o motivo daquilo e também o
porquê dele ter me chamado ali. Suspeitei que aquelas jovens eram de alguma
sala que não teria mais aulas com Jonas. Embora as reações delas fossem
extremamente exageradas.
—Daniel! –exclamou o professor ainda
abraçado com uma loira lindíssima. — Venha cá, meu amigo.
Todas as garotas me encararam, me
analisando parte por parte. Imaginei que elas queriam conferir se eu merecia o
titulo de “amigo”, dado pelo professor. Apenas sorri sem graça e com medo de me
aproximar e ser espancado pelas fãs.
—Não quero te atrapalhar, Jonas.
—comentei, as garotas ainda me encarando.
—Nada disso, era com você que eu
queria conversar, meu jovem amigo. —Jonas olhou para as garotas que o encaravam
agora com cara de choro. – Não fiquem tristes, garotas. Eu vou voltar. Agora
preciso me despedir do meu grande amigo Daniel, e que a proposito é um ótimo
poeta, romântico e solteiro. Um bom partido para garotas lindas como vocês.
Mais olhares, desta vez de desprezo.
Era óbvio que eu, todo magrelo e tímido não fazia o tipo delas. As meninas
então se despediram e seguiram pelo corredor. Jonas se aproximou sorrindo.
—Pobrezinhas, é de partir o coração.
—ele colocou a mão sobre o meu ombro.
—Você disse a elas que vai voltar?
—indaguei enquanto caminhávamos pela biblioteca, até uma das mesas. — Vai entrar
de férias?
—Não, caro amigo. —Jonas tinha uma expressão
sonhadora, mas era fácil notar uma ponta de tristeza em seu olhar. — Eu estou
de mudanças.
—Assim do nada? —me assustei. Será que
alguma aluna se sentindo iludida teria feito alguma reclamação alegando ter
sido seduzida e ele então fora demitido? Não, eu estava exagerando. Ou não... —
Você não foi demitido, foi?
—Não, o motivo da minha ida não é nada
triste. —Jonas abriu um largo sorriso. — Maria Rosa me convidou para ir para a
Espanha com ela e quem sabe, daqui um tempo, nos casarmos.
—O quê? Isso é... incrível! —realmente
a noticia era fantástica, fiquei feliz por ele, afinal Jonas era tão solitário
quanto eu. — Mas eu achei que a Maria Rosa tinha vindo
para ficar dessa vez.
—E veio, só que um grupo de dança
famoso de Madrid a chamou para voltar, para ganhar um salário bom. Dessa vez
Maria não quis me deixar e me convidou para morar com ela. Irei me estabilizar
lá e futuramente oficializaremos tudo. –Jonas estava feliz, mas eu sabia que
ele amava a Excelsior e estava triste por isso. – E é lógico que mandarei
passagens para você e sua namorada irem ao casamento, meu caro.
—Namorada? Está bem. —não pude conter
o sorriso, mesmo em uma despedida ele ainda queria me arrumar uma namorada.
Senti a tristeza da despedida crescendo em meu peito, mais um amigo estava indo
embora.
Continuamos ali conversando até o
intervalo terminar e ainda conversamos mais. Jonas explicou que aquele era o
ultimo dia dele na Excelsior e que depois teria que resolver seus problemas
antes de viajar, mas deixou claro que queria a minha presença no aeroporto.
Concordei, sentindo que seria um golpe forte ver um grande amigo indo embora.
Nos momentos de crise, de solidão, sempre que precisei conversar eu tinha o
apoio daquele nada comum professor. Durante todo o tempo que nos conhecemos,
Jonas agiu como um pai, me dando conselhos, me ensinando o que sabia e lógico
tentando arrumar uma boa namorada para mim. Eu devia muito a ele e tentei me
concentrar em ficar feliz por ele estar iniciando uma nova e não solitária fase
em sua vida.
—Já repeti isso várias vezes, Dan.
—Jonas colocou a mão novamente em meu ombro, nós estávamos no corredor, prontos
para seguir caminhos opostos. — Você tem talento e um grande coração, não deixe
que essa sua melancolia te consuma. Lute, lute e vença. E não deixe seu coração
puro ser consumido.
—Pode deixar, meu amigo. —sorri, os
olhos marejados.. — Eu vou vencer.
—Se cuida, meu caro. –Jonas me
abraçou, dando tapas nas minhas costas. Depois sorriu e se afastou, caminhando.
— E arrume uma gatinha.
Me virei sorrindo, seguindo o caminho
oposto. Os corredores estavam vazios, as aulas tinham recomeçado e eu já
perdera mais de quinze minutos. Segui para a minha sala e de longe avistei no
pátio um casal parado no escuro. Um rapaz alto e de cabeça raspada, usando
jaqueta de couro e calças jeans permanecia encostado em uma pilastra, enquanto
sua acompanhante estava parada a sua frente, usando jeans e um moletom preto.
Estava frio naquela noite. Estava metros de distância deles, mas pude
identificar a garota singular ali parada, tocando carinhosamente o rosto do
rapaz, nas pontas dos pés, como se estivesse preparada para beijá-lo.
Senti náuseas ao ver ali, sorridente e
matando aula, a garota que vinha me ignorando todos aqueles dias. Crystal, a
nada doce garota da ficção estava quase beijando um idiota qualquer, depois de
dizer que estava apaixonada por mim.
Quando me aproximei mais ambos se
viraram para me olhar. Vi Crystal ficando pálida, como se tivesse se deparado
com uma assombração. O sorriso largo desapareceu de seu rosto. Apenas desviei o
olhar e continuei caminhando, passando por eles e indo para a sala. Entrei e me
sentei, minha cabeça girando, minha visão turva. As náuseas aumentando, a raiva
fazia minha mão tremer. A sensação de ser enganado era aterradora. Minha
respiração ficou difícil. A voz do professor ecoando pela sala só me deixava
mais desnorteado. Peguei meus materiais e me levantei. Caminhei e sai da sala
apressado. Precisava ir embora, precisava de ar.
Ela estava ficando com outro! Era esse
o motivo do sumiço. Não seria esse o motivo de todas as outras vezes que ela
sumiu? Como eu era burro. Um imbecil! Me deixei levar, me apeguei, me
apaixonei. Eu era isca fácil para aquela vadia. Meu coração
parecia estar se esmigalhando novamente. Era realmente possível sofrer tanto
por amor? Crystal me fazia ir do céu ao inferno a todo instante. Era um misto
de crueldade e loucura. Minha visão escureceu e precisei parar, estava entrando
em colapso pelo choque. Talvez eu merecesse sofrer tanto por ser tão ingênuo.
—Dan, você precisa superar, precisa
esquecer essa puta. –comentou Isis, na manhã seguinte.
—É difícil esquecer tão rápido de quem
você gosta, Isis. —balbuciei de cabeça baixa.
—Coloque na sua cabeça que ela mentiu,
simples assim. —Isis estava séria, preocupada.
—Nenhuma mensagem, ligação,
explicação. —murmurei olhando o celular. — Eu só queria entender tudo isso.
Saber qual é a maldita verdade por trás de todas as palavras ditas por ela.
—E descobrir isso só te machucaria
mais. —minha pequena amiga se debruçou do outro lado do balcão, tocando meu
rosto com uma das mãos. — É o mal dos poetas sentir de forma tão intensa?
—É o mal dos poetas sofrer pelo que
não é real. —sorri de forma forçada. — Ser consumido pelos próprios
sentimentos.
—Já não consigo suportar ver você
sofrendo assim. —Isis me encarava, seu olhar repleto de pena e compaixão. —
Queria poder te ajudar.
—Você já me ajuda muito. —sorri, dessa
vez de forma singela e sincera. Segurei a mão de Isis. — Obrigado, pequena.
—Pequena é a sua mãe! —exclamou Isis
me atingindo um soco no ombro.
—Aí! –exclamei colocando a mão no
local e sorrindo. — Você é um monstro.
—E você repetitivo e fracote. — Ela
sorriu. – Agora vai organizar a estante de livros novos e tentar se distrair,
bobão.
—Sim, senhora. —bati continência e
segui até a estante.
Realmente eu precisava me distrair,
precisava esquecer. Enquanto colocava os livros em seus devidos lugares, pude
entender qual era a minha função na vida da garota da ficção. Eu era apenas um
brinquedo torto que ela gostava de brincar nos dias de carência, um brinquedo
que sempre permanecia no topo de sua estante, a disposição de seus caprichos. E
o que me mantinha preso a ela talvez não fosse o amor que eu sentia, mas sim o
desafio, aquela sensação de desafio, que seu olhar carregava. Intrigado por não
saber a verdade, angustiado para obter respostas...

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