Por
Guilherme César
O conto do poeta que escrevia ilusões
Muitos poetas conseguem descrever
bem a dor que surge quando sofremos por amor. Uma dor intensa que é capaz de
partir nossos corações. O coração, nada mais é que uma metáfora que define onde
estão nossos sentimentos. Um local que mais funciona como uma caixa de
segredos, em que os apaixonados lutam para conquistar a de quem amam, e os que
sofrem, lutam para coloca-la inteira novamente.
E eu, novamente sentia meu coração se
tornar migalhas, novamente sentia parte de minha alma ser arrancada a força.
Uma parte que jamais voltaria. No fim, amar é dar o seu coração ao outro, ou
pelo menos parte dele, deixando que aquela parte viva dentro de outra pessoa.
Amar é dar uma parte de sua alma, sem medo que essa parte desapareça. Sem medo
que seu sentimento seja jogado ao vento.
Senti um toque suave e quente em meu
rosto, como o calor de um beijo. Abri meus olhos na esperança de ver Crystal
ali, me acordando com um daqueles beijos encantados que só ela sabia dar.
Contudo, o que senti eram os raios do sol que passavam pela janela e tocavam
meu rosto. Já era manhã, o sol havia nascido...
Me virei rapidamente para ver se
Crystal continuava do meu lado, tudo que vi foi o local vazio na cama, o lençol
bagunçado e um pedaço de papel sobre o travesseiro. Apanhei o papel e vi que
era parte de uma folha que havia sido cortada com destreza. Nele estava escrito
com uma bela caligrafia:
“E que nosso amor fique vivo em nossas
lembranças. Adeus, Daniel.”
Uma boca feita com uma marca de
batom vermelho assinava o bilhete. Crystal havia ido embora. Talvez tenha sido
melhor assim, sem se despedir, sem termos que olhar nos olhos um do outro e
chorar juntos pelo destino querer nos separar. Aproximei o bilhete do nariz e
pude sentir o leve aroma de morangos que o batom exalava. Um arrepio percorreu
meu corpo seguido de uma tristeza profunda. Agora eu tinha me dado conta que
havia deixado a garota que amava partir, sem lutar, sem tentar impedi-la.
Simplesmente aceitei o fato de que não podia mudar o destino.
Uma explosão de emoções tomou conta
do meu peito novamente. Dor, tristeza, saudade, amor, raiva. Aquela velha
nostalgia que trazia consigo as várias lembranças de tudo aquilo que vivi com a
garota da ficção. Um furacão de pensamentos varreu a minha mente. Por um
instante achei que meu peito ia explodir, tamanha era a dor. Desesperado, levantei
e fui até a escrivaninha. Liguei meu computador e me vi de frente para uma tela
com um arquivo em branco. Meus dedos então começaram a se mexer sozinhos.
Frases foram se formando. E aos poucos a dor foi abrandando. Ali, naqueles
versos, eu depositei a minha dor.
Minutos depois eu me deparei com
aquele que sem dúvidas era o mais bonito de todos os poemas que escrevera até
então. Sequei as lágrimas que escorriam pelo meu rosto e respirei fundo.
Tomando fôlego, recitei em voz baixa as linhas que ali havia escrito.
O
conto do poeta que escrevia ilusões
Existia
em uma terra distante
De
emoções, amores e histórias fascinantes.
Um
jovem poeta que não sabia sorrir
Com
medo da dor que estaria por vir
Ferido
pelo o amor de muitas caminhadas
O
jovem poeta acabou por iniciar uma nova jornada
Próximo
dali uma bela princesa estava
Presa
na torre mais fortemente guardada
Cercada
da beleza e da paixão
A
jovem princesa aguardava a salvação
Esperava
o momento para amar sem temer
E
de longe observava um jovem sentado a escrever
De
longe ela gritou: “Ei rapaz, escreves por quem já amou?”
O
jovem poeta sem sorrir concordou
E
calmamente até a torre seguiu
Surpreendendo-se
com a beleza que viu
Da
jovem princesa que brevemente lhe sorriu
“Sim
criança, escrevo sobre amores que se foram!”, o poeta assentiu.
“Criança?
Como pode ter tanta audácia assim?”, a princesa gritou.
O
belo sorriso em seu rosto desapareceu, e a raiva seu rosto dominou.
“Criança,
por que não? Como poderia dizer que és adulta, se esta torre é sua prisão?”
E
a jovem princesa assustada ficou, pois infelizmente o poeta tinha razão.
Contudo
não podia concordar com aquela ofensa
E
tomada pela a raiva a jovem proferiu a sentença
“Venha
até mim, criança. E prove que sou tão inocente assim.”
O
poeta alto gargalhou, “Desafias um guerreiro experiente com tiros de festim?”
E
envoltos pelas provocações os dois seguiram
E
focados um no outro eles não viram
Que
os olhos de um refletiam nos do outro
E
o coração de ambos disparava como um louco
E com provocações e desafios
Os
dois jovens ficaram ali dias a fio
E
quando menos esperavam algo aconteceu
Numa
bela tarde o poeta entendeu
Que
pela princesa um sorriso surgia
E
seu peito ardia com tamanha euforia
“Só
pode ser uma armadilha dos Deuses”, o jovem repetia
“É
amor o que eu sinto por esta guria?”
“Fui
enfeitiçado sem nem mesmo ter notado”
“E
por que por ela eu quero tanto ser amado? “
E
naquele momento uma luz se ascendeu
E
sabendo do amor que sentia o jovem entendeu
Nunca
mais vira da mesma forma a princesa
E
em seu peito voltou a crescer a tristeza
Pois
para ela o jovem queria se abrir
E
contar que ela era a sua razão de sorrir
Foi
então que num belo dia o jovem gritou
“Juro
que se disser que me amas, te salvar eu vou!”
A
jovem princesa de inicio se assustou
Mas
instantes depois o sorriso a seu rosto voltou
Há
tempos ela já sabia
Que
pelo jovem poeta amor ela nutria
“Salve-me
então, doce criança!”
“Devolva-me
um pouco da minha antiga esperança”
Tomado
então pela vontade de tocá-la
A
torre magicamente guardada ele escalou para salvá-la
O
peso do mundo nas costas ele sentiu
Mas
nem pensou em desistir, ainda escalando ele sorriu.
E
um milagre ocorreu...
Mesmo
com o feitiço maligno da torre, o jovem não morreu.
Para
os braços da amada ele correu
E
com ela lindos momentos viveu
Mas
na noite do terceiro dia a jovem lhe confessou
“Existe
algo que você não notou”
O
poeta de olhos arregalados ficou intrigado
“Um
destino triste é o que estamos fadados?”
A
princesa apenas consentiu
E
contou-lhe algo triste, seu sorriso sumiu.
A
outro estava prometida
E
só com aquele homem sairia da torre perdida
E
não importava o poder do amor que sentia
O
feitiço a sua felicidade restringia.
A
dor o coração do poeta tomou
Puxando
o braço da princesa ele gritou:
“Vamos
fugir daqui, criança! Eu disse que salvá-la eu iria”
A
princesa então explicou que se dali saísse sem seu prometido, a vida o feitiço
lhe tiraria
De
joelhos o poeta caiu
E
como o peso do triste destino seu coração se partiu
A
princesa com ele chorou
Dizendo
que o poeta ela sempre amou
E
que no fim daquela noite o tempo deles acabava
Seu
prometido até ela viajava
E
desta vez não havia escapatória
O
bruxo que lançará o feitiço conseguira a sua vitória
Havia
feito a forte princesa sofrer
E
a impedido de com seu grande amor viver
Assim
que o sol surgisse o poeta deveria partir
E
só as doces lembranças iriam existir
O
poeta dizendo mais chorou:
“Ó
criança, o meu coração a ti amou”
E
foi assim que a noite terminou.
E
com o nascer do sol o fim chegou
O
poeta sofrendo teve de se despedir
E
dizendo que o amava a princesa o viu partir
E
uma promessa os dois fizeram
Seriam
felizes novamente, nos dias que mais tarde vieram.
O
poeta ao longe se sentou
E
papel e pena novamente apanhou
Precisava
escrever sobre aquele amor
Que
pelo destino rápido virou dor
E
que ainda assim com boas lembranças lhe presentou
E
em sua mente, o belo sorriso da princesa ficou.
E
o sonho uma ilusão virou
Mas
do amor a esperança brotou
Pois
o poeta sabia que aquele amor viveria
Eterno
nas linhas que ele escrevia
Enquanto
uma lágrima de seus olhos caia
A
luz do sol iluminava um novo dia.
Um poema que agora contava a minha
história, versos que traziam consigo a minha dor. No fim, todo o amor que senti
pela Crystal me levou até
aquele ponto. Agora eu precisava ficar de pé, precisava suportar a dor de não
tê-la em meus braços. Precisava...
Passei todo o sábado agitado,
andando de um lado para o outro. Limpei a casa, organizei meu guarda-roupa,
organizei os arquivos no meu computador, assim como meus poemas. Tudo que
precisava ser limpo, eu limpei. Um surto obsessivo por organização que estava
me consumindo, tentando loucamente preencher aquele vazio. E nos momentos de
pausa eu ficava encarando o celular, na espera de ver ali surgir o nome da Crystal,
junto com a música que tocava quando recebia chamadas. Mas nada aconteceu. A
noite chegou e eu já não tinha o que limpar, o que organizar. Tinha adiantado
vários esboços do livro, juntando todos os meus poemas e formatado por horas.
Me deitei e tentei dormir, mas as horas foram se passando e o sono não vinha.
Comecei a ouvir música, –a velha terapia que me ajudava a dormir- mas foi em
vão.
Deitado na cama eu encarava o local
onde na noite anterior Crystal havia deitado, a saudade parecia ter só aumentado.
Como era possível sofrer tanto por alguém que conhecia tão pouco? Alguém que
tinha passado tão brevemente pela minha vida? E aquilo estava errado, agora ela
poderia estar nos braços de outro, transando depois de oficializar o noivado. Ó
Meu Deus! O que eu estava pensando? Não tinha o direito de julgá-la assim.
Droga! Dane-se! Estava sofrendo muito e a cada segundo aquilo só piorava. Eu
precisava me recuperar, não podia deixar minha vida perder o brilho novamente.
Já estava cansado de viver uma vida sem sentido.
Cochilei o que pareceu ser pouco
mais de uma hora. Quando acordei o sol já invadia o meu quarto, era manhã de
domingo. Estava exausto, olheiras já se destacavam em meu rosto. Tremia de frio...
como estava frio naquela manhã.
Me sentia estranho, sentia um
cansaço tão grande, como se tivesse esgotado todas as minhas forças. Também
sentia uma vontade incontrolável de ligar para a Crystal, de ouvir sua voz, de
pedir para vê-la. Aquilo era bizarro, diferente das outras vezes em que ficamos
afastados. Sentia-me como um viciado em meio a uma crise de abstinência.
Faltava algo, faltava alguém. Deitei no sofá e comecei a refletir sobre aquilo.
Desde quando eu precisava de alguém para ser feliz? Por que raios eu tinha
chegado a esse ponto.
Então me lembrei dos meus momentos
de felicidade e percebi que sempre havia alguém ao meu lado. Camila, Isabelle,
Crystal. A morte da minha irmã abriu um buraco que anos depois tentei preencher
com o amor que sentia pela Isa. Depois da separação aquele buraco só cresceu.
Agora que eu tinha perdido também a presença da garota da ficção, o tal vazio
só tinha crescido. Eu estava refém de alguém que pudesse me amar. Havia
depositado minha felicidade em outra pessoa.
Tal ato era correto? No fundo eu
sabia que não. As pessoas tem suas próprias vidas, seus próprios sentimentos. Não
era, nem nunca foi correto usar outro alguém para servir de base para a nossa
felicidade. Porém, quem era feliz sozinho?
Passei a tarde toda ali, deprimido,
reflexivo, parecendo um zumbi. Me sentia fraco, sozinho, sem falar no frio que
gelava até meus ossos. Minha cabeça doía por causa da vontade extrema de
chorar, mas as lágrimas não saiam. Meu peito queimava e um nome ecoava na minha
cabeça. Crystal. Apanhei o celular e fui até o seu número, olhei para o símbolo
verde que ao clicado iria iniciar a chamada. Respirei fundo e coloquei o
celular sobre a mesa de vidro ao lado do sofá. Não podia mostrar que era tão
fraco ao ponto de ligar choramingando e pedindo que ela voltasse para mim. E
também não tinha o direito de prejudicá-la. Dizem que amar é ter coragem de
abrir mão da sua felicidade pela felicidade de quem amamos. Eu não sabia se
Crystal seria feliz com aquele babaca loiro, mas sabia que ter o amor do pai
era importante para ela. Talvez eu tenha sido apenas um obstáculo na vida da
nada doce garota da ficção.
As horas continuavam passando
enquanto a angústia em meu peito só crescia. A noite chegou e sua escuridão
pareceu apenas intensificar a minha solidão. O silêncio tomava conta do
apartamento, o frio tinha apenas aumentado. Novamente eu estava só. Sozinho e
em crise. Sentia meu coração bater acelerado, lembranças do acidente voltavam
em flashes frenéticos e aterradores.
Luzes, choro, vidro, gritos, cheiro
de borracha queimada. Dor, tristeza, desespero. Solidão, caos, vazio. E
novamente as imagens se repetiam, confusas, desconexas, aceleradas em minha
mente. Isabelle sorrindo, o som de choro ao fundo, Crystal dizendo que me
amava, som de derrapagem, o último sorriso de Camila, o adeus de Isabelle. No
fim, todas as pessoas que eu amava iam embora. Eu carregava a maldição de
afastar quem tanto amei, carregava a maldição de sempre ficar sozinho. E a
minha dor estava na solidão.
Já respirava com dificuldade, meu
coração batia acelerado. O que era aquilo? Tanta dor, tanta tristeza. Eu não
queria ficar sozinho, não queria... Só um abraço, apenas um... O mundo parecia
não ter um lugar para mim. A vida das pessoas me rejeitava. Talvez fosse a
maldição dos poetas sofrerem por escrever sobre o amor. Talvez fosse a maldição
dos poetas... sofrer por amor.
Apanhei o celular sobre a mesa de
vidro da sala. Minhas mãos tremiam, estava desesperado, não conseguiria
suportar aquela solidão de novo. Eu precisava de alguém. Eu precisava da
Crystal. Fui até a lista de contatos, sabia para quem ligar. Sabia quem eu
precisava. Sabia quem podia me ajudar. Apertei o botão para realizar chamadas e
coloquei o aparelho no ouvido. No instante que ele ia começar a tocar eu
cancelei a chamada. Não podia, não devia ligar para ela. Eu era orgulhoso
demais, eu era teimoso demais. Não podia mostrar que tinha sido dominado assim.
Não queria que ela me visse sofrendo. Voltei a encarar a lista de contatos e
iniciei outra chamada. Ouvi o som do bip uma
vez, duas, três...
—Alô.
—uma voz feminina disse ao atender— Dan?
—Eu
preciso de ajuda. —balbuciei com a voz embargada. —Eu não estou bem.
—Dan,
o que aconteceu? —ela indagou desesperada. — Onde você está? Você está chorando?
—Eu
não estou bem, Estou em casa. —respondi, estava arrependido de ligar. Não
queria incomodá-la. —Eu só... eu só... não sabia para quem ligar.
—Calma.
Eu vou aí, calma. E quando eu chegar você vai me explicar que porra é essa! —havia
preocupação em seu tom. —Aquela vadia da
Crystal te fez alguma coisa? Dan, eu vou matar ela!
—Só
venha para cá. —pedi. Não queria ouvi-la falando mal da Crystal. — Eu preciso
de você, Isis.
—Chego
aí em meia hora, acalme-se. —Isis fez uma pausa e voltou a falar antes de
desligar. —E, Dan... Não faça nenhuma
besteira.
—Tudo bem, venha logo. —respondi
antes que ela desligasse.
Quando dizia “não faça nenhuma
besteira”, Isis não se referia a suicídio ou algo que pudesse me causar
qualquer dor física. Ela se referia a não tomar nenhuma atitude idiota a
respeito do problema que me afetava. Normalmente eu sempre fazia besteiras
quando estava em crise. Ligava para alguma ex, puxando papo e sendo ignorado, o
que só piorava a situação. Ou então me afundava na depressão, criando paranoias
e relembrando minuciosamente cenas do que havia causado tal sentimento. Quando
entrava naquele tipo de crise eu ficava extremamente carente e vulnerável,
capaz de ir contra qualquer lógica e até contra o meu orgulho. Muitas vezes me
humilhei por causa daquele vazio, suplicando por ajuda de pessoas que nem se
importavam mais comigo. E eu sempre evitava pedir ajuda, pois não gostava de
incomodar. Só recorria àqueles que confiava muito. E eram estes que
constantemente me viravam as costas. “O pobre Dan, tão inteligente, gentil,
engraçado, mas tão bipolar. Sempre sofrendo com essas crises por causa da morte
da irmã, pobrezinho, tem que superar logo isso”. Perdi várias amizades por
causa disso. As pessoas tem estranhamente a necessidade de julgar e de
criticar, desprezando a dor do outro. Enxergam a depressão como uma desculpa de
quem é fraco. Nunca percebem que quem
sofre com isso precisa de ajuda, precisa de um motivo para sorrir e não outro
para chorar.
Durante os últimos anos eu havia
treinado minha mente e até conseguia sobreviver as crises mais brandas sem
problemas. O grande problema eram as grandes crises, aquelas que me abalavam de
tal forma que eu tinha que recorrer a alguém. E em todas às vezes esse alguém
não se importava.
...Faziam sete meses que eu havia me
mudado para a capital. Naquela época eu tinha feito amizade com os garotos que
se sentavam no fundo da sala, na faculdade. A turma descolada, que adorava
festa e zoação. Eu, o garoto tímido sempre me sentei ao fundo da sala e por
estar perto deles acabei interagindo. Sempre tive um humor sarcástico e logo
eles ficaram interessados. Naquela época eu tinha prometido a mim mesmo que
iria mudar, que iria aproveitar a empolgação do inicio da faculdade e seria
feliz. Faria amigos, seria um jovem comum. Eu devia isso a minha irmã.
No inicio deu muito certo. Eles eram
divertidos, descolados, criativos. Viviam rodeados de garotas lindas, sempre
tinham alguma festa para ir. Contudo, em uma daquelas típicas festas de
faculdade, regrada a álcool, drogas e sexo, eu me peguei alheio a todo o
ambiente, isolado enquanto todos se divertiam. Eu sempre ficava assim em
festas, não me sentia bem perto de bebida. E da mesma forma que os amigos dos
tempos de escola fizeram, os novos amigos da faculdade decidiram fazer.
Depois de uma tentativa frustrada de
me fazer beber, acabei discutindo com um deles. Fui chamado de arrogante,
estúpido, careta. Segundo eles eu não sabia me divertir e estragava a festa dos
outros. Eu era um peso para eles, um estorvo.
Sai da festa sem olhar para trás. Nos
dias que vieram eu fui completamente excluído das conversas em sala de aula.
Fui ignorado, desprezado e sempre ouvia comentários do tipo “nossa, ele é
desprezível, chato, estranho”. As lindas garotas agora me olhavam torto, mesmo
que antes elas não me dessem bola, afinal um cara que não bebia e que não
“sabia se divertir”, não as agradava. E esse foi o inicio da minha primeira
grande crise na capital.
A promessa de mudar foi por água a
baixo. A promessa de ser feliz se desfez em minhas mãos. Eu tentei ser feliz me
misturando com pessoas que nunca foram parecidas comigo, tentei fazer parte do
mundo deles e fui rejeitado. A faculdade que tinha exercido um encanto sobre
mim agora me dava náuseas. Conviver com pessoas que te ignoram, que te
consideram invisível, aquilo doía muito. Ser rejeitado é cruel.
Em uma sexta-feira, após a aula eu
decidi caminhar. Triste e solitário fui seguindo pelas ruas da cidade,
refletindo sobre a nova situação. Novamente eu não em encaixa, não achava o meu
lugar no mundo. Envolto nos pensamentos, em todas as lembranças dos momentos
fúteis que passei ao lado daqueles que agora me ignorava, eu caminhei. Caminhei
e quando me dei conta estava no meio de uma ponte que ligava a parte sul da
cidade ao centro. Uma lufada de vento atingiu
meu corpo, me fazendo arrepiar de frio. Olhei a minha volta e vi que estava
sozinho, no meio da extensa ponte. Tomado por uma curiosidade incontrolável
caminhei até a beira e olhei para baixo. Uma fria onda de medo congelou minha
espinha me fazendo dar dois passos para trás. Ali embaixo, a mais de dez
metros, corria o rio que cortava a cidade.
Respirei fundo e me aproximei
novamente da grade de proteção na lateral da ponte. Três dos meus maiores medos
em um só local. Pontes, altura e grandes concentrações de água. Eu tinha pavor
de pontes por serem instáveis e por sempre achar que elas desabariam. Medo de
altura sempre fora um medo
incondicional que não conseguia explicar. Já o medo de água se devia ao fato de
ser um péssimo nadador.
Olhei novamente para o rio e tentei
enfrentar meu medo. Odiava sentir medo. Fiquei ali então, observando o
movimento das águas escuras enquanto aquela tristeza que me levara até ali
tomava conta do meu peito novamente. E se eu pulasse? E se findasse com aquela
dor finalmente? Não, eu não era capaz de me matar. Não era capaz de fazer as
pessoas que me amavam sofrer da mesma forma que eu sofria. Para mim o suicídio
era um ato de coragem e de covardia. Coragem por ter aquele instante de loucura
capaz de tirar a própria vida. Covardia, por abreviar a dor e não tentar
enfrentá-la. Além do mais, morrer afogado era a pior maneira de se morrer.
—Eu não sou fraco a esse ponto. –sorri
de forma singela, convicto da minha capacidade e ciente que se era capaz de
continuar de pé, também era capaz de superar aquela crise.
Outra lufada forte de vento atingiu
meu corpo me fazendo me desequilibrar e me debruçar sobre a grade. Por alguns
instantes congelei de medo, temendo cair dali.
—Ohhhh merda! —exclamei com os olhos arregalados
me segurando na grade e me colocando ereto novamente. —Eu preciso sair daqui antes
que eu morra.
—Eu jurava que você ia se matar. —ouvi
uma voz feminina com tom de deboche vinda do meu lado. —Mas você parece ser
medroso demais para isso.
—Eu odeio pontes. –me virei encarando
a pequena criatura ao meu lado. Baixinha e com uma voz irritante. Isis, a
garota que trabalhava na mesma livraria que eu. Fazia apenas uma semana que eu
tinha começado a trabalhar lá. — Que coincidência lhe encontrar aqui, senhorita
“Eu sou corajosa”.
—Estava de passagem. —sorriu Isis. —E
eu não sou tão corajosa assim, apesar de estar andando a noite sozinha.
—Mas tem coragem para caçoar de um
cara que mal conhece em uma ponte deserta. —balbuciei a encarando.
—Você trabalha no mesmo lugar que eu,
e embora você seja tímido e antissocial, parece ser uma boa pessoa. —ela me
olhou, esperando que eu dissesse alguma coisa sobre não ser tímido.
—Você tem razão. —aquela era de fato a
primeira vez que conversamos. —Está indo para casa?
—Sim, moro do outro lado da ponte.
—ela apontou para o centro da cidade. — Mas eu estudo um pouco longe.
Mais tarde fui saber que Isis cursava
Jornalismo em uma faculdade privada ao sul da cidade. Mais barata que a grande
Excelsior.
—Quer que eu lhe acompanhe até em
casa? —indaguei sendo gentil. Estava tarde para uma garota daquele tamanho
ficar andando na rua. E de certa forma eu preferia acompanhá-la do que ficar
ali na ponte, e acabar caindo de tão desastrado que sou.
—Ei, rapaz, não tente me ganhar com
esse tipo de atitude. Sou uma menina difícil. — ela retrucou cruzando os
braços.
—Opa! –exclamei — Eu não estou
flertando com você, só não quero ficar parado nessa ponte. E está tarde para
uma tampinha como você ficar andando pelas ruas.
—Tampinha é o seu cú. —ela gritou me
dando um soco na barriga.
Me curvei com as mãos na barriga,
soltando um alto gemido. Fiquei sem ar por alguns minutos.
—Ai meu Deus! –gritou Isis segurando
meu braço. —Eu matei ele. Calma! Respira! Desculpa, desculpa.
—Você bate forte. —disse com um
sorriso sem graça. — Acho que está segura sozinha.
Começamos então a rir e eu percebi que
aquela nevoa negra que cobria meus pensamentos estava se dissipando. Isis se
desculpou e eu a acompanhei até sua casa. Rimos durante o caminho e daquele dia
em diante nos tornamos grandes amigos. A baixinha corajosa passou a me ajudar
sempre que eu tinha crises e eu retribuía ajudando-a sempre que precisava.
Minha leal amiga, sempre me amparando quando mais precisava...
A campainha tocou e fui desperto de meus
pensamentos. Caminhei até a porta e a abri. Isis entrou apressada. Usava calças
jeans, tênis e um moletom preto. Seus cabelos presos em um rabo de cavalo. Ela
parecia preocupada e me encarou com um olhar aflito.
—Conte-me agora o que está
acontecendo.
Me sentei no sofá e comecei a explicar
tudo que tinha ocorrido. A cada revelação Isis ficava mais perplexa e eu mais
abalado. Relembrar só me fez piorar. Contei todos os detalhes, desviando o meu
olhar quando terminei.
Isis se levantou e me abraçou.
—Não fique assim. —disse acariciando o
meu cabelo. Pude sentir seu perfume e o calor de seu corpo. Me sentia acolhido
em seu abraço. — Eu te disse que tinha algo de errado com aquela vadia.
—Não a chame assim. —pedi, ainda preso
em seu abraço.
—Tudo bem, só fica calmo, tá? —O tom
de voz de Isis estava suave. — Eu vou ficar aqui até você melhorar. Não se
preocupe.
Sorrindo Isis se sentou ao meu lado no
sofá e me fez deitar em seu colo. Começou a me fazer cafuné e a dizer coisas
sobre todas as crises que tive, todas as vezes que superei. Que eu era forte,
mais forte que qualquer um que ela conhecia e que eu conseguiria superar. Riu
dizendo que me achava um viadinho por estar deprimido por causa de uma vadia.
Isso rendeu alguns minutos de briga. Ela terminou dizendo que eu era muito
sentimental, mas que admirava meu jeito de ser. Que eu era sensível ao ponto de
notar a tristeza nos olhos das pessoas e que sempre me preocupei com todos,
menos comigo mesmo. Que eu sofria tanto por ser justamente daquela forma, intenso
demais em tudo que se referia ao sentimentos.
Ficamos ali, por horas. Isis conseguiu
me acalmar e me ajudou a superar mais uma crise. Acabei dormindo em seu colo e
sendo acordado horas depois por ela me mandando ir dormir na cama. Já era de
madrugada e não a deixei ir embora. Deixei que ela dormisse em minha cama e
dormi na sala, no sofá.
Na manhã seguinte ela acordou cedo,
para correr até sua casa e se trocar antes do trabalho. Passei o dia a
agradecendo por ter me feito companhia e me dado apoio naquele momento de
crise. Por ter me dado o carinho que tanto sentia falta. Acabei ouvindo um
“Cala a boca, seu medroso, você tem que virar homem e superar essas crises”, e
fui obrigado a rir. Ela conseguia ser gentil e ao mesmo tempo extremamente
assustadora.
A ajuda da minha pequena amiga me fez
muito bem. Consegui afastar um pouco a tristeza. Já a noite fui para a
faculdade sem pensar em nada, a não ser que precisava estudar. Fazia tempo que
não me concentrava nas aulas e se continuasse daquela forma acabaria afundando
nas provas. Tentei afastar qualquer lembranças da Crystal, por mais que elas
viessem aos montes.
Estava anotando alguns comentários do
meu professor, logo com vinte minutos de aula, quando alguém chamou a porta.
Meu professor caminhou até ela e logo depois se virou, olhando para o fundo da
sala.
—Daniel, é para você. —ele sorriu me
chamando.
Todos da sala se viraram e me
encararam. Eu caminhei silenciosamente até a porta e passei por ela, fechando-a
em seguida e ouvindo meu professor continuar a explicação. Logo ao terminar de
fechar a porta vi quem tinha me chamado. Parada a minha frente estava Crystal,
um sorriso tímido tomava conta de seu rosto.
—Oi, criança. —ela me encarou com seus
grandes olhos castanhos. —Senti a sua falta.

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