segunda-feira, 1 de setembro de 2014

[+18] ILUSION: Capitulo 12

Por Guilherme César

O conto do poeta que escrevia ilusões



            Muitos poetas conseguem descrever bem a dor que surge quando sofremos por amor. Uma dor intensa que é capaz de partir nossos corações. O coração, nada mais é que uma metáfora que define onde estão nossos sentimentos. Um local que mais funciona como uma caixa de segredos, em que os apaixonados lutam para conquistar a de quem amam, e os que sofrem, lutam para coloca-la inteira novamente.

E eu, novamente sentia meu coração se tornar migalhas, novamente sentia parte de minha alma ser arrancada a força. Uma parte que jamais voltaria. No fim, amar é dar o seu coração ao outro, ou pelo menos parte dele, deixando que aquela parte viva dentro de outra pessoa. Amar é dar uma parte de sua alma, sem medo que essa parte desapareça. Sem medo que seu sentimento seja jogado ao vento.
            Senti um toque suave e quente em meu rosto, como o calor de um beijo. Abri meus olhos na esperança de ver Crystal ali, me acordando com um daqueles beijos encantados que só ela sabia dar. Contudo, o que senti eram os raios do sol que passavam pela janela e tocavam meu rosto. Já era manhã, o sol havia nascido...
            Me virei rapidamente para ver se Crystal continuava do meu lado, tudo que vi foi o local vazio na cama, o lençol bagunçado e um pedaço de papel sobre o travesseiro. Apanhei o papel e vi que era parte de uma folha que havia sido cortada com destreza. Nele estava escrito com uma bela caligrafia: 
 
         “E que nosso amor fique vivo em nossas lembranças. Adeus, Daniel.”

            Uma boca feita com uma marca de batom vermelho assinava o bilhete. Crystal havia ido embora. Talvez tenha sido melhor assim, sem se despedir, sem termos que olhar nos olhos um do outro e chorar juntos pelo destino querer nos separar. Aproximei o bilhete do nariz e pude sentir o leve aroma de morangos que o batom exalava. Um arrepio percorreu meu corpo seguido de uma tristeza profunda. Agora eu tinha me dado conta que havia deixado a garota que amava partir, sem lutar, sem tentar impedi-la. Simplesmente aceitei o fato de que não podia mudar o destino.
            Uma explosão de emoções tomou conta do meu peito novamente. Dor, tristeza, saudade, amor, raiva. Aquela velha nostalgia que trazia consigo as várias lembranças de tudo aquilo que vivi com a garota da ficção. Um furacão de pensamentos varreu a minha mente. Por um instante achei que meu peito ia explodir, tamanha era a dor. Desesperado, levantei e fui até a escrivaninha. Liguei meu computador e me vi de frente para uma tela com um arquivo em branco. Meus dedos então começaram a se mexer sozinhos. Frases foram se formando. E aos poucos a dor foi abrandando. Ali, naqueles versos, eu depositei a minha dor.
            Minutos depois eu me deparei com aquele que sem dúvidas era o mais bonito de todos os poemas que escrevera até então. Sequei as lágrimas que escorriam pelo meu rosto e respirei fundo. Tomando fôlego, recitei em voz baixa as linhas que ali havia escrito.

O conto do poeta que escrevia ilusões

Existia em uma terra distante
De emoções, amores e histórias fascinantes.
Um jovem poeta que não sabia sorrir
Com medo da dor que estaria por vir
Ferido pelo o amor de muitas caminhadas
O jovem poeta acabou por iniciar uma nova jornada

Próximo dali uma bela princesa estava
Presa na torre mais fortemente guardada
Cercada da beleza e da paixão
A jovem princesa aguardava a salvação
Esperava o momento para amar sem temer
E de longe observava um jovem sentado a escrever

De longe ela gritou: “Ei rapaz, escreves por quem já amou?”
O jovem poeta sem sorrir concordou
E calmamente até a torre seguiu
Surpreendendo-se com a beleza que viu
Da jovem princesa que brevemente lhe sorriu
“Sim criança, escrevo sobre amores que se foram!”, o poeta assentiu.

“Criança? Como pode ter tanta audácia assim?”, a princesa gritou.
O belo sorriso em seu rosto desapareceu, e a raiva seu rosto dominou.
“Criança, por que não? Como poderia dizer que és adulta, se esta torre é sua prisão?”
E a jovem princesa assustada ficou, pois infelizmente o poeta tinha razão.
Contudo não podia concordar com aquela ofensa
E tomada pela a raiva a jovem proferiu a sentença

“Venha até mim, criança. E prove que sou tão inocente assim.”
O poeta alto gargalhou, “Desafias um guerreiro experiente com tiros de festim?”
E envoltos pelas provocações os dois seguiram
E focados um no outro eles não viram
Que os olhos de um refletiam nos do outro
E o coração de ambos disparava como um louco

E com provocações e desafios
Os dois jovens ficaram ali dias a fio
E quando menos esperavam algo aconteceu
Numa bela tarde o poeta entendeu
Que pela princesa um sorriso surgia
E seu peito ardia com tamanha euforia

“Só pode ser uma armadilha dos Deuses”, o jovem repetia
“É amor o que eu sinto por esta guria?”
“Fui enfeitiçado sem nem mesmo ter notado”
“E por que por ela eu quero tanto ser amado? “
E naquele momento uma luz se ascendeu
E sabendo do amor que sentia o jovem entendeu

Nunca mais vira da mesma forma a princesa
E em seu peito voltou a crescer a tristeza
Pois para ela o jovem queria se abrir
E contar que ela era a sua razão de sorrir
Foi então que num belo dia o jovem gritou
“Juro que se disser que me amas, te salvar eu vou!”

A jovem princesa de inicio se assustou
Mas instantes depois o sorriso a seu rosto voltou
Há tempos ela já sabia
Que pelo jovem poeta amor ela nutria
“Salve-me então, doce criança!”
“Devolva-me um pouco da minha antiga esperança”

Tomado então pela vontade de tocá-la
A torre magicamente guardada ele escalou para salvá-la
O peso do mundo nas costas ele sentiu
Mas nem pensou em desistir, ainda escalando ele sorriu.
E um milagre ocorreu...
Mesmo com o feitiço maligno da torre, o jovem não morreu.

Para os braços da amada ele correu
E com ela lindos momentos viveu
Mas na noite do terceiro dia a jovem lhe confessou
“Existe algo que você não notou”
O poeta de olhos arregalados ficou intrigado
“Um destino triste é o que estamos fadados?”

A princesa apenas consentiu
E contou-lhe algo triste, seu sorriso sumiu.
A outro estava prometida
E só com aquele homem sairia da torre perdida
E não importava o poder do amor que sentia
O feitiço a sua felicidade restringia.

A dor o coração do poeta tomou
Puxando o braço da princesa ele gritou:
“Vamos fugir daqui, criança! Eu disse que salvá-la eu iria”
A princesa então explicou que se dali saísse sem seu prometido, a vida o feitiço lhe tiraria
De joelhos o poeta caiu
E como o peso do triste destino seu coração se partiu

A princesa com ele chorou
Dizendo que o poeta ela sempre amou
E que no fim daquela noite o tempo deles acabava
Seu prometido até ela viajava
E desta vez não havia escapatória
O bruxo que lançará o feitiço conseguira a sua vitória

Havia feito a forte princesa sofrer
E a impedido de com seu grande amor viver
Assim que o sol surgisse o poeta deveria partir
E só as doces lembranças iriam existir
O poeta dizendo mais chorou:
“Ó criança, o meu coração a ti amou”

E foi assim que a noite terminou.
E com o nascer do sol o fim chegou
O poeta sofrendo teve de se despedir
E dizendo que o amava a princesa o viu partir
E uma promessa os dois fizeram
Seriam felizes novamente, nos dias que mais tarde vieram.

O poeta ao longe se sentou
E papel e pena novamente apanhou
Precisava escrever sobre aquele amor
Que pelo destino rápido virou dor
E que ainda assim com boas lembranças lhe presentou
E em sua mente, o belo sorriso da princesa ficou.

E o sonho uma ilusão virou
Mas do amor a esperança brotou
Pois o poeta sabia que aquele amor viveria
Eterno nas linhas que ele escrevia
Enquanto uma lágrima de seus olhos caia
A luz do sol iluminava um novo dia.

            Um poema que agora contava a minha história, versos que traziam consigo a minha dor. No fim, todo o amor que senti pela Crystal me levou até aquele ponto. Agora eu precisava ficar de pé, precisava suportar a dor de não tê-la em meus braços. Precisava...

            Passei todo o sábado agitado, andando de um lado para o outro. Limpei a casa, organizei meu guarda-roupa, organizei os arquivos no meu computador, assim como meus poemas. Tudo que precisava ser limpo, eu limpei. Um surto obsessivo por organização que estava me consumindo, tentando loucamente preencher aquele vazio. E nos momentos de pausa eu ficava encarando o celular, na espera de ver ali surgir o nome da Crystal, junto com a música que tocava quando recebia chamadas. Mas nada aconteceu. A noite chegou e eu já não tinha o que limpar, o que organizar. Tinha adiantado vários esboços do livro, juntando todos os meus poemas e formatado por horas. Me deitei e tentei dormir, mas as horas foram se passando e o sono não vinha. Comecei a ouvir música, –a velha terapia que me ajudava a dormir- mas foi em vão.
            Deitado na cama eu encarava o local onde na noite anterior Crystal havia deitado, a saudade parecia ter só aumentado. Como era possível sofrer tanto por alguém que conhecia tão pouco? Alguém que tinha passado tão brevemente pela minha vida? E aquilo estava errado, agora ela poderia estar nos braços de outro, transando depois de oficializar o noivado. Ó Meu Deus! O que eu estava pensando? Não tinha o direito de julgá-la assim. Droga! Dane-se! Estava sofrendo muito e a cada segundo aquilo só piorava. Eu precisava me recuperar, não podia deixar minha vida perder o brilho novamente. Já estava cansado de viver uma vida sem sentido.
            Cochilei o que pareceu ser pouco mais de uma hora. Quando acordei o sol já invadia o meu quarto, era manhã de domingo. Estava exausto, olheiras já se destacavam em meu rosto. Tremia de frio... como estava frio naquela manhã.
            Me sentia estranho, sentia um cansaço tão grande, como se tivesse esgotado todas as minhas forças. Também sentia uma vontade incontrolável de ligar para a Crystal, de ouvir sua voz, de pedir para vê-la. Aquilo era bizarro, diferente das outras vezes em que ficamos afastados. Sentia-me como um viciado em meio a uma crise de abstinência. Faltava algo, faltava alguém. Deitei no sofá e comecei a refletir sobre aquilo. Desde quando eu precisava de alguém para ser feliz? Por que raios eu tinha chegado a esse ponto.
            Então me lembrei dos meus momentos de felicidade e percebi que sempre havia alguém ao meu lado. Camila, Isabelle, Crystal. A morte da minha irmã abriu um buraco que anos depois tentei preencher com o amor que sentia pela Isa. Depois da separação aquele buraco só cresceu. Agora que eu tinha perdido também a presença da garota da ficção, o tal vazio só tinha crescido. Eu estava refém de alguém que pudesse me amar. Havia depositado minha felicidade em outra pessoa.
            Tal ato era correto? No fundo eu sabia que não. As pessoas tem suas próprias vidas, seus próprios sentimentos. Não era, nem nunca foi correto usar outro alguém para servir de base para a nossa felicidade. Porém, quem era feliz sozinho?
            Passei a tarde toda ali, deprimido, reflexivo, parecendo um zumbi. Me sentia fraco, sozinho, sem falar no frio que gelava até meus ossos. Minha cabeça doía por causa da vontade extrema de chorar, mas as lágrimas não saiam. Meu peito queimava e um nome ecoava na minha cabeça. Crystal. Apanhei o celular e fui até o seu número, olhei para o símbolo verde que ao clicado iria iniciar a chamada. Respirei fundo e coloquei o celular sobre a mesa de vidro ao lado do sofá. Não podia mostrar que era tão fraco ao ponto de ligar choramingando e pedindo que ela voltasse para mim. E também não tinha o direito de prejudicá-la. Dizem que amar é ter coragem de abrir mão da sua felicidade pela felicidade de quem amamos. Eu não sabia se Crystal seria feliz com aquele babaca loiro, mas sabia que ter o amor do pai era importante para ela. Talvez eu tenha sido apenas um obstáculo na vida da nada doce garota da ficção.
            As horas continuavam passando enquanto a angústia em meu peito só crescia. A noite chegou e sua escuridão pareceu apenas intensificar a minha solidão. O silêncio tomava conta do apartamento, o frio tinha apenas aumentado. Novamente eu estava só. Sozinho e em crise. Sentia meu coração bater acelerado, lembranças do acidente voltavam em flashes frenéticos e aterradores.
            Luzes, choro, vidro, gritos, cheiro de borracha queimada. Dor, tristeza, desespero. Solidão, caos, vazio. E novamente as imagens se repetiam, confusas, desconexas, aceleradas em minha mente. Isabelle sorrindo, o som de choro ao fundo, Crystal dizendo que me amava, som de derrapagem, o último sorriso de Camila, o adeus de Isabelle. No fim, todas as pessoas que eu amava iam embora. Eu carregava a maldição de afastar quem tanto amei, carregava a maldição de sempre ficar sozinho. E a minha dor estava na solidão.
            Já respirava com dificuldade, meu coração batia acelerado. O que era aquilo? Tanta dor, tanta tristeza. Eu não queria ficar sozinho, não queria... Só um abraço, apenas um... O mundo parecia não ter um lugar para mim. A vida das pessoas me rejeitava. Talvez fosse a maldição dos poetas sofrerem por escrever sobre o amor. Talvez fosse a maldição dos poetas... sofrer por amor.
            Apanhei o celular sobre a mesa de vidro da sala. Minhas mãos tremiam, estava desesperado, não conseguiria suportar aquela solidão de novo. Eu precisava de alguém. Eu precisava da Crystal. Fui até a lista de contatos, sabia para quem ligar. Sabia quem eu precisava. Sabia quem podia me ajudar. Apertei o botão para realizar chamadas e coloquei o aparelho no ouvido. No instante que ele ia começar a tocar eu cancelei a chamada. Não podia, não devia ligar para ela. Eu era orgulhoso demais, eu era teimoso demais. Não podia mostrar que tinha sido dominado assim. Não queria que ela me visse sofrendo. Voltei a encarar a lista de contatos e iniciei outra chamada. Ouvi o som do bip uma vez, duas, três...
            —Alô. —uma voz feminina disse ao atender— Dan?
            —Eu preciso de ajuda. —balbuciei com a voz embargada. —Eu não estou bem.
            —Dan, o que aconteceu? —ela indagou desesperada. — Onde você está? Você está chorando?
            —Eu não estou bem, Estou em casa. —respondi, estava arrependido de ligar. Não queria incomodá-la. —Eu só... eu só... não sabia para quem ligar.
            —Calma. Eu vou aí, calma. E quando eu chegar você vai me explicar que porra é essa! —havia preocupação em seu tom. —Aquela vadia da Crystal te fez alguma coisa? Dan, eu vou matar ela!
            —Só venha para cá. —pedi. Não queria ouvi-la falando mal da Crystal. — Eu preciso de você, Isis.
            —Chego aí em meia hora, acalme-se. —Isis fez uma pausa e voltou a falar antes de desligar. —E, Dan... Não faça nenhuma besteira.
            —Tudo bem, venha logo. —respondi antes que ela desligasse.
            Quando dizia “não faça nenhuma besteira”, Isis não se referia a suicídio ou algo que pudesse me causar qualquer dor física. Ela se referia a não tomar nenhuma atitude idiota a respeito do problema que me afetava. Normalmente eu sempre fazia besteiras quando estava em crise. Ligava para alguma ex, puxando papo e sendo ignorado, o que só piorava a situação. Ou então me afundava na depressão, criando paranoias e relembrando minuciosamente cenas do que havia causado tal sentimento. Quando entrava naquele tipo de crise eu ficava extremamente carente e vulnerável, capaz de ir contra qualquer lógica e até contra o meu orgulho. Muitas vezes me humilhei por causa daquele vazio, suplicando por ajuda de pessoas que nem se importavam mais comigo. E eu sempre evitava pedir ajuda, pois não gostava de incomodar. Só recorria àqueles que confiava muito. E eram estes que constantemente me viravam as costas. “O pobre Dan, tão inteligente, gentil, engraçado, mas tão bipolar. Sempre sofrendo com essas crises por causa da morte da irmã, pobrezinho, tem que superar logo isso”. Perdi várias amizades por causa disso. As pessoas tem estranhamente a necessidade de julgar e de criticar, desprezando a dor do outro. Enxergam a depressão como uma desculpa de quem é fraco.  Nunca percebem que quem sofre com isso precisa de ajuda, precisa de um motivo para sorrir e não outro para chorar.
            Durante os últimos anos eu havia treinado minha mente e até conseguia sobreviver as crises mais brandas sem problemas. O grande problema eram as grandes crises, aquelas que me abalavam de tal forma que eu tinha que recorrer a alguém. E em todas às vezes esse alguém não se importava.
           
...Faziam sete meses que eu havia me mudado para a capital. Naquela época eu tinha feito amizade com os garotos que se sentavam no fundo da sala, na faculdade. A turma descolada, que adorava festa e zoação. Eu, o garoto tímido sempre me sentei ao fundo da sala e por estar perto deles acabei interagindo. Sempre tive um humor sarcástico e logo eles ficaram interessados. Naquela época eu tinha prometido a mim mesmo que iria mudar, que iria aproveitar a empolgação do inicio da faculdade e seria feliz. Faria amigos, seria um jovem comum. Eu devia isso a minha irmã.
No inicio deu muito certo. Eles eram divertidos, descolados, criativos. Viviam rodeados de garotas lindas, sempre tinham alguma festa para ir. Contudo, em uma daquelas típicas festas de faculdade, regrada a álcool, drogas e sexo, eu me peguei alheio a todo o ambiente, isolado enquanto todos se divertiam. Eu sempre ficava assim em festas, não me sentia bem perto de bebida. E da mesma forma que os amigos dos tempos de escola fizeram, os novos amigos da faculdade decidiram fazer.
Depois de uma tentativa frustrada de me fazer beber, acabei discutindo com um deles. Fui chamado de arrogante, estúpido, careta. Segundo eles eu não sabia me divertir e estragava a festa dos outros. Eu era um peso para eles, um estorvo.
Sai da festa sem olhar para trás. Nos dias que vieram eu fui completamente excluído das conversas em sala de aula. Fui ignorado, desprezado e sempre ouvia comentários do tipo “nossa, ele é desprezível, chato, estranho”. As lindas garotas agora me olhavam torto, mesmo que antes elas não me dessem bola, afinal um cara que não bebia e que não “sabia se divertir”, não as agradava. E esse foi o inicio da minha primeira grande crise na capital.
A promessa de mudar foi por água a baixo. A promessa de ser feliz se desfez em minhas mãos. Eu tentei ser feliz me misturando com pessoas que nunca foram parecidas comigo, tentei fazer parte do mundo deles e fui rejeitado. A faculdade que tinha exercido um encanto sobre mim agora me dava náuseas. Conviver com pessoas que te ignoram, que te consideram invisível, aquilo doía muito. Ser rejeitado é cruel.
Em uma sexta-feira, após a aula eu decidi caminhar. Triste e solitário fui seguindo pelas ruas da cidade, refletindo sobre a nova situação. Novamente eu não em encaixa, não achava o meu lugar no mundo. Envolto nos pensamentos, em todas as lembranças dos momentos fúteis que passei ao lado daqueles que agora me ignorava, eu caminhei. Caminhei e quando me dei conta estava no meio de uma ponte que ligava a parte sul da cidade ao centro. Uma lufada de vento atingiu meu corpo, me fazendo arrepiar de frio. Olhei a minha volta e vi que estava sozinho, no meio da extensa ponte. Tomado por uma curiosidade incontrolável caminhei até a beira e olhei para baixo. Uma fria onda de medo congelou minha espinha me fazendo dar dois passos para trás. Ali embaixo, a mais de dez metros, corria o rio que cortava a cidade.
Respirei fundo e me aproximei novamente da grade de proteção na lateral da ponte. Três dos meus maiores medos em um só local. Pontes, altura e grandes concentrações de água. Eu tinha pavor de pontes por serem instáveis e por sempre achar que elas desabariam. Medo de altura sempre fora um medo incondicional que não conseguia explicar. Já o medo de água se devia ao fato de ser um péssimo nadador.
Olhei novamente para o rio e tentei enfrentar meu medo. Odiava sentir medo. Fiquei ali então, observando o movimento das águas escuras enquanto aquela tristeza que me levara até ali tomava conta do meu peito novamente. E se eu pulasse? E se findasse com aquela dor finalmente? Não, eu não era capaz de me matar. Não era capaz de fazer as pessoas que me amavam sofrer da mesma forma que eu sofria. Para mim o suicídio era um ato de coragem e de covardia. Coragem por ter aquele instante de loucura capaz de tirar a própria vida. Covardia, por abreviar a dor e não tentar enfrentá-la. Além do mais, morrer afogado era a pior maneira de se morrer.
—Eu não sou fraco a esse ponto. –sorri de forma singela, convicto da minha capacidade e ciente que se era capaz de continuar de pé, também era capaz de superar aquela crise.
Outra lufada forte de vento atingiu meu corpo me fazendo me desequilibrar e me debruçar sobre a grade. Por alguns instantes congelei de medo, temendo cair dali.
—Ohhhh merda! —exclamei com os olhos arregalados me segurando na grade e me colocando ereto novamente. —Eu preciso sair daqui antes que eu morra.
—Eu jurava que você ia se matar. —ouvi uma voz feminina com tom de deboche vinda do meu lado. —Mas você parece ser medroso demais para isso.
—Eu odeio pontes. –me virei encarando a pequena criatura ao meu lado. Baixinha e com uma voz irritante. Isis, a garota que trabalhava na mesma livraria que eu. Fazia apenas uma semana que eu tinha começado a trabalhar lá. — Que coincidência lhe encontrar aqui, senhorita “Eu sou corajosa”.
—Estava de passagem. —sorriu Isis. —E eu não sou tão corajosa assim, apesar de estar andando a noite sozinha.
—Mas tem coragem para caçoar de um cara que mal conhece em uma ponte deserta. —balbuciei a encarando.
—Você trabalha no mesmo lugar que eu, e embora você seja tímido e antissocial, parece ser uma boa pessoa. —ela me olhou, esperando que eu dissesse alguma coisa sobre não ser tímido.
—Você tem razão. —aquela era de fato a primeira vez que conversamos. —Está indo para casa?
—Sim, moro do outro lado da ponte. —ela apontou para o centro da cidade. — Mas eu estudo um pouco longe.
Mais tarde fui saber que Isis cursava Jornalismo em uma faculdade privada ao sul da cidade. Mais barata que a grande Excelsior.
—Quer que eu lhe acompanhe até em casa? —indaguei sendo gentil. Estava tarde para uma garota daquele tamanho ficar andando na rua. E de certa forma eu preferia acompanhá-la do que ficar ali na ponte, e acabar caindo de tão desastrado que sou.
—Ei, rapaz, não tente me ganhar com esse tipo de atitude. Sou uma menina difícil. — ela retrucou cruzando os braços.
—Opa! –exclamei — Eu não estou flertando com você, só não quero ficar parado nessa ponte. E está tarde para uma tampinha como você ficar andando pelas ruas.
—Tampinha é o seu cú. —ela gritou me dando um soco na barriga.
Me curvei com as mãos na barriga, soltando um alto gemido. Fiquei sem ar por alguns minutos.
—Ai meu Deus! –gritou Isis segurando meu braço. —Eu matei ele. Calma! Respira! Desculpa, desculpa.
—Você bate forte. —disse com um sorriso sem graça. — Acho que está segura sozinha.
Começamos então a rir e eu percebi que aquela nevoa negra que cobria meus pensamentos estava se dissipando. Isis se desculpou e eu a acompanhei até sua casa. Rimos durante o caminho e daquele dia em diante nos tornamos grandes amigos. A baixinha corajosa passou a me ajudar sempre que eu tinha crises e eu retribuía ajudando-a sempre que precisava. Minha leal amiga, sempre me amparando quando mais precisava...       

A campainha tocou e fui desperto de meus pensamentos. Caminhei até a porta e a abri. Isis entrou apressada. Usava calças jeans, tênis e um moletom preto. Seus cabelos presos em um rabo de cavalo. Ela parecia preocupada e me encarou com um olhar aflito.
—Conte-me agora o que está acontecendo.
Me sentei no sofá e comecei a explicar tudo que tinha ocorrido. A cada revelação Isis ficava mais perplexa e eu mais abalado. Relembrar só me fez piorar. Contei todos os detalhes, desviando o meu olhar quando terminei.
Isis se levantou e me abraçou.
—Não fique assim. —disse acariciando o meu cabelo. Pude sentir seu perfume e o calor de seu corpo. Me sentia acolhido em seu abraço. — Eu te disse que tinha algo de errado com aquela vadia.
—Não a chame assim. —pedi, ainda preso em seu abraço.
—Tudo bem, só fica calmo, tá? —O tom de voz de Isis estava suave. — Eu vou ficar aqui até você melhorar. Não se preocupe.
Sorrindo Isis se sentou ao meu lado no sofá e me fez deitar em seu colo. Começou a me fazer cafuné e a dizer coisas sobre todas as crises que tive, todas as vezes que superei. Que eu era forte, mais forte que qualquer um que ela conhecia e que eu conseguiria superar. Riu dizendo que me achava um viadinho por estar deprimido por causa de uma vadia. Isso rendeu alguns minutos de briga. Ela terminou dizendo que eu era muito sentimental, mas que admirava meu jeito de ser. Que eu era sensível ao ponto de notar a tristeza nos olhos das pessoas e que sempre me preocupei com todos, menos comigo mesmo. Que eu sofria tanto por ser justamente daquela forma, intenso demais em tudo que se referia ao sentimentos.
Ficamos ali, por horas. Isis conseguiu me acalmar e me ajudou a superar mais uma crise. Acabei dormindo em seu colo e sendo acordado horas depois por ela me mandando ir dormir na cama. Já era de madrugada e não a deixei ir embora. Deixei que ela dormisse em minha cama e dormi na sala, no sofá.
Na manhã seguinte ela acordou cedo, para correr até sua casa e se trocar antes do trabalho. Passei o dia a agradecendo por ter me feito companhia e me dado apoio naquele momento de crise. Por ter me dado o carinho que tanto sentia falta. Acabei ouvindo um “Cala a boca, seu medroso, você tem que virar homem e superar essas crises”, e fui obrigado a rir. Ela conseguia ser gentil e ao mesmo tempo extremamente assustadora.
A ajuda da minha pequena amiga me fez muito bem. Consegui afastar um pouco a tristeza. Já a noite fui para a faculdade sem pensar em nada, a não ser que precisava estudar. Fazia tempo que não me concentrava nas aulas e se continuasse daquela forma acabaria afundando nas provas. Tentei afastar qualquer lembranças da Crystal, por mais que elas viessem aos montes.
Estava anotando alguns comentários do meu professor, logo com vinte minutos de aula, quando alguém chamou a porta. Meu professor caminhou até ela e logo depois se virou, olhando para o fundo da sala.
—Daniel, é para você. —ele sorriu me chamando.
Todos da sala se viraram e me encararam. Eu caminhei silenciosamente até a porta e passei por ela, fechando-a em seguida e ouvindo meu professor continuar a explicação. Logo ao terminar de fechar a porta vi quem tinha me chamado. Parada a minha frente estava Crystal, um sorriso tímido tomava conta de seu rosto.

—Oi, criança. —ela me encarou com seus grandes olhos castanhos. —Senti a sua falta. 

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