segunda-feira, 1 de setembro de 2014

[+18] ILUSION: Capitulo 11

Por Guilherme César


Quando o sol nascer


O frio fazia com que pudéssemos enxergar o ar quente saindo de nossas bocas. O rapaz de aparentemente vinte e cinco anos estava bufando, seus olhos arregalados olhando para mim e depois para Crystal. Era visível seu descontrole. A rua onde estávamos continuava deserta, apenas nós três ali. O vento soprava forte e a única luz presente era a dos postes. Estávamos próximos de um deles, perto de um beco.

            —Que merda é essa, Crystal? —gritou o homem, sua voz soando com um trovão. A garota da ficção estava encolhida, seu rosto tomado por uma expressão de terror. — Eles me contaram, eles me contaram.
            O rapaz gritava e gesticulava, agitando as mãos e os dedos. Ele parecia estar em crise. Talvez drogado. Alucinando. Ele havia nos seguido? Quem afinal tinha contado onde estaríamos? Quem diabos era aquele cara?
            —Bernardo, você precisa se acalmar.  —pediu Crystal olhando o homem nos olhos. — Você precisa relaxar e respirar.
            —Me acalmar? –gritou dando um passo na direção de Crystal, ela deu dois passos para trás, suas costas encontraram a parede de um prédio, ela não tinha para onde correr. Eu observava a tudo, precisava intervir. — Eles me disseram, me disseram. Me mandaram vir aqui.
            —Vá para casa, depois conversamos. —Crystal estava muito assustada, mas tentava contornar a situação. Ela não parava de olhar para o homem, como se o simples fato de manter o contato visual fosse o suficiente para acalmá-lo. — Você está fora de controle, precisa ir para casa.
            —E deixar você aqui com esse magrelo? —Gritou novamente. Sua voz ecoando pela rua. Seus olhos se voltaram para mim e depois para Crystal. Um cachorro que estava ali na vizinhança começou a latir com a gritaria. — Eu não vou te entregar para ele.
            —Ele é meu amigo. —disse Crystal colocando a mão sobre o ombro do rapaz. — Por favor, Berna...
            —Amigos! —gritou agarrando o punho da garota com força e a interrompendo. Ele começou a apertar seu braço enquanto gritava e a sacudia. Crystal ficou sem reação. — E agora me chama de Bernardo? Eu não sou mais o seu Be? Não mais?
            Eu não conseguia mais ver aquela cena. Meu sangue ferveu e eu avancei, sem pensar duas vezes. Não ia deixa-lo machucar a Crystal. Não ia deixar que ele machucasse a garota que eu amava. Seja lá quem ele fosse.
            —Tire as suas mãos dela. —gritei investindo contra o tal Bernardo e o empurrando para trás. Ele soltou o punho da Crystal que ficou estática. — Não ouse tocar nela de novo.
            -—CALA A SUA BOCA, MAGRELO! –urrou Bernardo avançando furiosamente contra mim. Sua boca parecia espumar de raiva. Ele já estava começando a babar, espalhando saliva quando gritava. Seus olhos mostravam seu descontrole. As veias de sua testa e pescoço estavam inchadas, mostrando sua pulsação acelerada.
            Tomado pela fúria e totalmente descontrolado, Bernardo saltou na minha direção e desferiu um chute com sua perna esquerda. Tentei me esquivar, mas ele acabou me atingindo com a sola de seu pé. O chute acertou pouco abaixo do quadril, já no inicio da minha perna direita. O impacto foi muito forte e a força do golpe me fez desequilibrar, me empurrado para trás. Minhas costas se chocaram contra o poste e a dor se espalhou pelo meu corpo. Tanto minha perna, quanto minhas costas doíam muito.
            Meu olhos se fecharam momentaneamente por causa da dor e quando eu os reabri avistei Bernardo vindo igual a um touro enlouquecido. Ele estava a três passou de mim e seu punho direito estava erguido, se preparando para avançar e me acertar. Meu coração pulsava acelerado e a dor embaralhava meus pensamentos. Contudo, a adrenalina me concedeu aqueles pequenos instantes em que conseguimos enxergar como se tudo a nossa volta se movesse mais devagar. Bernardo vinha em câmera lenta, seu punho cortando o ar, rumo ao meu nariz. Se ele me acertar estarei perdido. Seu chute potente já tinha causado um estrago grande, um soco no rosto no mínimo me desmaiaria. Nunca tinha me envolvido em nenhuma briga séria. Sempre brinquei com meus amigos e quando mais novo, algumas discussões chegaram naquela fase de empurrões, mas nunca uma briga de fato. Eu precisava fazer algo, mas o que? Senti então minhas costas esfriarem consideravelmente. Era o frio da superfície onde estava encostado passando para minha pele, através do fino tecido da minha blusa. O poste!
            Bernardo já estava muito próximo quando iniciei meu movimento, abaixando o mais rápido que conseguia. Pude sentir a lufada do vento frio deslocado pelo movimento do punho do loiro atingir o topo da minha cabeça. Por sorte fui rápido o bastante e me esquivei do golpe. Depois de me abaixar joguei o peso do corpo para a esquerda, saltando para a rua. Pude ouvir um baque abafado, no instante em que o punho do meu agressor acertou a superfície dura do poste. No mesmo instante pude ouvir um estralo, provavelmente vindo de sua mão.
            Um urro de dor irrompeu pelo quarteirão. Me coloquei de pé olhei para o lado. Bernardo gritava e se contorcia segurando a mão direita que sangrava muito com uma fratura exposta. Não pude conter o singelo sorriso de satisfação pela minha estratégia improvisada ter dado certo. O loiro descontrolado agora estava aos prantos, com a mão quebrada.
            —Eu vou te matar, magrelo! —gritou Bernardo, sua voz já rouca. Ele me olhava com os olhos faiscando. O sangue gotejando no chão. — Eu vou te matar!
            —Quero ver você tentar. –provoquei com um sorriso sarcástico, me colocando em posição para brigar. Agora eu estava com a vantagem e não iria recuar.
            —Chega! —gritou Crystal quando Bernardo se preparava para vir na minha direção. — Ninguém vai brigar.
            —Mas, amor... —balbuciou Bernardo que parecia mais confuso agora.
            —Você precisa ir ao médico! Vamos, eu vou com você. —interrompeu Crystal olhando para o loiro. Ela então tirou a minha jaqueta e veio na minha direção. Bernardo ameaçou falar mais alguma coisa, mas Crystal o interrompeu. —Fique calado, você está fora de controle, vamos embora.
            —Não vou deixar você ir com esse cara. —murmurei quando ela se aproximou de mim, estendendo o braço e me entregando a jaqueta.
            —Não faça isso, Dan. —ela me olhou com um olhar triste. — Ele precisa da minha ajuda.
            —Quem é esse cara? —indaguei pegando a jaqueta. — Por que você precisa ir com ele?
            —É uma longa história eu te explico tudo depois, tá? —Crystal sussurrava. Ela então se virou e caminhou até o loiro que murmurava coisas desconexas quase inaudíveis, como se conversasse com alguém invisível. Ele mantinha a cabeça baixa e segurava a mão machucada com a outra mão.
            Eu queria impedi-la, mas sabia que tinha mais coisa no meio de toda aquela história. Ela se importava com o loiro e ele a havia chamado de “amor”. Era inevitável não pensar que podiam ter sido namorados. Meu sangue fervia e eu apertava forte a jaqueta em minhas mãos. A garota que eu amava estava indo embora com outro.
            —Me desculpe, criança. —disse Crystal se virando e me olhando, antes de prosseguir. Ela então segurou no braço do loiro e o puxou. Ele ainda balbuciando algo que eu não conseguia ouvir. Ambos seguiram pela rua e viraram na esquina a frente.
            Caminhei até a calçada. Minha cabeça girava, estava nauseado. Encostei minhas costas na parede do prédio e deixei meu corpo escorregar até o chão frio. Me sentei, ainda segurando a jaqueta com força. Uma explosão de pensamentos veio a tona. Estava confuso. Quem era o tal Bernardo? O que tinha acontecido ali? Meu coração ainda palpitava, mas a adrenalina tinha passado. Eu acabara de sair vitorioso de uma briga. Havia brigado com ninguém menos que o misterioso loiro da fotografia que Crystal inutilmente tentou esconder. Agora ele possuía um nome, seu nome era Bernardo. Um rapaz bastante descontrolado e que tinha chamado a garota da ficção de “amor”. Seria um ex que não superou o término? Talvez outro que havia sido seduzido. Era obvio que tinham um passado juntos, mas qual era a verdade?
            Meus pensamentos tentavam se organizar, minha mente voltou até o momento em que eu me preparava para contar a Crystal a verdade. Estava prestes a contar sobre o acontecimento que mais machucou. Prestes a contar...

            Seis anos antes, no dia do meu aniversário de quinze anos, eu e minha irmã decidimos sair para comemorar. Camila tinha acabado de tirar sua carteira de motorista e meu pai deixou que ela pegasse seu velho carro emprestado. Um lindo sábado de sol. Passamos o dia todo fora. Sempre adorei sair com a minha irmã, talvez o fato de que ela fizesse tudo para me agradar.
            Baixinha, pele branca e longos cabelos castanhos, um tom bem claro de castanho. Seus cabelos caiam em ondas até pouco depois dos ombros. Sem falar na franja que cobria sua testa. Por ser magra e pequena, todos achavam que ela era a irmã mais nova. Eu me divertia implicando com o seu tamanho, os quase vinte centímetros a menos que eu. Sempre que eu a implicava tinha que correr, pois ela saia em disparada e pulava em mim, me dando tapas. Ainda assim nunca conseguia me machucar. Super protetora, gentil, doce, Camila parecia um anjo.
            Naquele sábado fomos ao shopping, ao cinema e depois em uma lanchonete. Rimos, brincamos e Camila me deu de presente um caderno de capa preta. Eu achei estranho aquele presente, mas assim que me entregou ela fez questão de explicar. “Esse caderno é para você escrever o seu primeiro roteiro”, disse com sua voz suave. Minha irmã era apaixonada por cinema e sempre me ensinava tudo sobre filmes. Ela também me incentivava a escrever e dizia que um dia eu seria um excelente roteirista. Brincava que ela seria a protagonista do meu primeiro filme e ganharia um Oscar por tal feito.
Riamos bastante enquanto Camila brincava sobre os roteiros que eu ia escrever, fazendo diálogos sempre dramáticos, cheios de caras e bocas. Enquanto riamos e voltávamos para casa, um carro avançou o sinal vermelho em alta velocidade e se chocou contra o nosso carro. Atingiu em cheio a porta do lado do motorista. Pude ouvir apenas o barulho da derrapagem e logo em seguida veio o choque. Os vidros espatifaram e o carro foi jogado para longe. Bati minha cabeça e minha visão ficou embaralhada. Lembro-me de ser tirado do carro, ouvia alguém chorando ao fundo. Fui colocado em uma maca, luzes e depois escuridão.
Acordei no hospital com apenas um ferimento na testa. Ao meu lado estava meu pai que me explicou tudo que havia acontecido. Um jovem de dezoitos anos tinha pegado o carro dos pais para ir a uma festa com os amigos, antes eles pararam para beber. Estavam em quatro no carro, todos sem cinto. Um dos jovens morreu na hora, depois de ser atirado pela janela com o impacto. O choro que ouvi era provavelmente da garota que estava no carro. O adolescente que dirigia foi preso na hora por estar bêbado. Por ironia do destino ele não sofreu ferimento algum. Já minha irmã foi retirada do carro sem vida.
A dor de perder alguém que amamos é sem dúvida a maior de todas. Até então eu não tinha perdido ninguém próximo. A morte de Camila foi um choque para mim. Senti como se o meu coração tivesse sido arrancado do meu peito de uma só vez. Fiquei meses sem conseguir sair de casa, sempre trancado no quarto, sem conversar com ninguém. Minha única distração eram os desenhos que eu fazia e os poemas, que comecei a escrever depois do acidente. Mantive um diário durante esse tempo, nele eu escrevia todos os dias uma carta para a minha irmã. Escrevia na ilusão de que ela pudesse ler. Demorei muito para aceitar a sua morte e nunca esqueci aquele trauma.
Perdi a vontade de aprender a dirigir, perdi a vontade de comemorar o meu aniversário. Passei a odiar e desenvolvi uma repulsa por bebidas alcoólicas o que me tornou um típico antissocial. Eu evitava bares e festas, meus amigos se sentiam desconfortáveis de beber perto de mim. Parei de receber convites para sair, meu circulo de amizade diminuiu bastante.
Foi um sonho que conseguiu me devolver um pouco da minha alegria. Nele vi minha irmã e ela me fez prometer que eu iria superar a sua morte, que iria fazer a faculdade de cinema e me tornar um grande roteirista. Ela me confessou que me observava escrever todos os dias e que eu sempre deveria procurar na escrita, o alivio para a minha dor. Depois do sonho eu me dediquei e persegui aquele futuro que minha irmã tanto almejava para mim. Contudo, o fatídico 27 de maio nunca sumiu da minha mente. Não importava o que eu fizesse, eu sempre me sentia sozinho naquele dia.

...Junto de Crystal, naquela noite, a solidão havia sumido, assim como os fantasmas do acidente. Porém o final confuso da noite havia trazido a tona todas as lembranças e a dor. Talvez a confusão em minha mente tenha sido o estopim para aquela enxurrada de lembranças. A dor corria meu peito. Uma dor que carregava consigo a saudade. Talvez eu estivesse sentindo aquilo por estar confuso em relação a garota que amo, por precisar de alguém para desabafar, alguém para cuidar de mim. Eu precisava da minha irmã.
Já estava tremendo de frio quando despertei dos meus delírios e lembranças. Me levantei, coloquei a jaqueta e comecei a caminhar. Minhas costas já não doíam, mas minha perna incomodava quando eu caminhava. Estava mancando. Conseguia sentir o perfume doce de Crystal em minha jaqueta. Aquele perfume foi o meu conforto até chegar em casa. Cansado, dolorido e confuso, cheguei em casa e cai na cama. Sem nem mesmo me trocar. Dormi com a jaqueta que carregava o perfume da garota da ficção, de alguma forma aquele perfume conseguiu me acalmar.

—Você ligou para ela? —questionou Isis na manhã seguinte. Ela estava preocupa, afinal eu ainda mancava um pouco. Tinha lhe contato tudo que acontecera, desde a minha ida ao apartamento da Crystal.
—Liguei, mas seu celular está desligado. —respondi cabisbaixo. — Talvez eu passe no apartamento dela depois. Não sei se devo.
—Dan, acorda! –exclamou Isis. —O que mais você precisa que aconteça para entender que essa menina é problema?
—Eu não consigo simplesmente esquecer isso tudo. —retruquei. — Não dá para não pensar nela e nem para deixar para lá a mulher que amo. Não vou desistir da Crys assim.
—Você é um tolo. –disse Isis. Ela fez uma pausa, pensativa e depois voltou a falar. —Onde mesmo a tal Vic trabalha?
—L.F. Escritório de Defesa. —respondi. — Mas não me pergunte onde é.
—É no Edifício Dr. Sancal, nono andar. —disse Yara chegando perto do balcão. — Quem vocês conhecem que trabalha lá?
—Você conhece o lugar? —perguntei espantado.
—Sim, meu namorado faz estágio lá. —sorriu Yara toda alegre. Ela deu ênfase na palavra namorado. Eu tive que me controlar para não rir. —É o escritório do Dr. Lorenzo Ferraz, um brilhante advogado.
—Não me diga? Namorado? —falou Isis colocando a mão sobre a boca e dando a volta no balcão. Ela então agarrou o braço de Yara e saiu perguntando mais sobre o tal namorado.
Enquanto as duas se afastavam, uma pequena garota se aproximou. Ela aparentava ter pouco mais de quinze anos, possuía pele parda e olhos castanhos e rosto arredondado. Seus cabelos também eram castanhos e lisos, com ondas nas pontas, chegavam até o meio das costas. Ela vestia um vestido preto de algodão com mangas longas e um laço branco, que chegava um palmo acima do joelho. Carregava também uma bolsa branca. Baixinha e com quadris largos, ela parecia tímida e trazia nas mãos um livro que acabara de escolher.
—Olá. —disse sorrindo quando ela se aproximou do balcão e colocou o livro sobre ele. Ela estava vermelha e não consiga olhar para mim.
—Aqui está. —ela disse entregando o dinheiro para o livro, sua voz não era uma voz de menininha e sim de mulher. Me surpreendi quando ela falou. Ainda assim continuava tímida.
—Um livro erótico, você tem idade para ler isso, mocinha? —brinquei para quebrar o clima. Porém a brincadeira não surtiu o efeito desejado e a jovem de vestido preto ficou ainda mais tímida.
—Eu... eu... eu;.. —ela gaguejou extremamente envergonhada. —Tenho 17.
—Ei, calma. —sorri lhe entregando o troco. —Está tudo bem, será o nosso segredinho, certo?
—Certo. —ela sorriu discretamente, seus olhos fixos no livros.
—Quer que eu embrulhe para presente? —perguntei antes de colocar o livro na sacola com a logo do Palavras Livres.
—Não, obrigada. —agradeceu. Coloquei então o livro na sacola e a entreguei. Ela voltou a abaixar a cabeça e murmurou. — Tenha um bom dia.
Antes que eu respondesse ela saiu apressada da loja. Eu ainda fiquei rindo por alguns minutos. Pobre garotinha, tentei deixa-la confortável e só piorei a situação. Provavelmente ela nunca mais voltaria na loja.
           
            O dia passou e tentei inúmeras vezes falar com Crystal, porém seu telefone parecia estar desligado. Mandei duas sms perguntando se ela estava bem, mas não obtive respostas. Pensei em ir até o apartamento dela, mas fiquei com receio de estar indo longe demais. Cogitei a hipótese de ir até a sala dela na faculdade, mas isso também seria forçar a barra. Contrariado e confuso eu tentei esperar.
            Durante o intervalo Jonas foi até a minha sala, para me dar os parabéns atrasado. Ficamos então conversando e ele comentou sobre seu grande amor do passado ter ressurgido.
            —A Maria Rosa voltou? —indaguei surpreso.
Maria Rosa era uma fogosa dançarina de tango pela qual Jonas tinha sido perdidamente apaixonado. Dona de seios fartos e um rebolado de tirar o fôlego, ela havia sido noiva de Jonas, até que o destino lhes separou. A dançarina precisou voltar para a Espanha e não mandou mais noticiais.
—Sim e me procurou. —Jonas estava eufórico. —Tivemos uma noite daquelas.
—Noite? —balbuciei intrigado, eu jurava que ele estava namorando com a Suzane. —Mas você não estava namorando com a Suzane?
—Tivemos um caso, ela se apaixonou por mim. —comentou desviando o olhar. — Mas faltava algo, sabe? Um tempero. Suzane... —ele fez uma pausa e abaixou o tom de voz — Parecia uma boneca inflável na cama. Sempre a mesma posição. Sem criatividade!
Não, não, não!!!!! Ele não está me fazendo imaginar essa cena! Socorro, eu não posso imaginar isso. Era nojento imaginar aquela cena. Nojento e estranho. Meu Deus! Como vou conseguir apagar isso? Como vou conseguir olhar para a Suzane? Jonas deve ter esquecido que eu trabalho para ela agora. E o término dos dois deve ser a razão pela qual ela estava chorando no outro dia.
—Suzane só compensava pelos seios fartos. Mas a Maria, valha-me Deus. —Jonas gargalhou fechando os olhos e se afogando em lembranças. — Aquela mulher é um furacão, eu chego ao orgasmo só de ver ela rebolar. E na cama você não imagina o quanto ela rebola.
Droga! Mais uma imagem nada agradável fixada na minha mente. Aquele assunto era no mínimo desconfortável. Não fazia questão de saber das transas do meu ex-professor. Aquilo era muito estranho!
—Professor Jonas! —chamou uma garota se aproximando e para a minha alegria, interrompendo o assunto.
A garota tinha aproximadamente um metro e sessenta e dois de altura. Seus cabelos eram lisos e castanhos, chegando a altura dos ombros. Pele clara e olhos também castanhos. Magra, usava leggings pretas e um vestido solto e floridos, com vários tons de roxo, além de All Stars pretos. Uma faixa lilás prendia o seu cabelo. Ela carregava em uma das mãos algumas folhas e na outra um copo de plástico com um liquido escuro dentro.
—Oi Melina. —sorriu Jonas enquanto ela se aproximava.
—Aqui está o meu trabalho, espero não perder pontos pelo atraso. —a garota entregou as folhas ao Jonas e me encarou, sorrindo. Pude sentir o cheiro de café vindo do copo que ela segurava. —Olá.
—Olá. — retribui com um singelo sorriso.
—Tudo bem, você já tem pontos extras na minha matéria. —comentou Jonas. — Daniel, essa é Melina, ela também escreve belos textos. É estudante de letras.
—Nossa, que legal, você escreve sobre o que? —perguntei educadamente.
—Escrevo de tudo um pouco, até fanfics. —respondeu Melina com um sorriso. — E você, também escreve?
—Escrevo, poemas e crônicas. —respondi.
—Daniel é um excelente escritor. —disse Jonas. —Vocês deveriam ficar amigos e trocar textos, isso ajuda muito.
—Claro. —disse sorrindo. Maldito Jonas, já estava querendo jogar a aluna dele para cima de mim.
—Melina! –chamou uma garota já próxima das escadas. — Vamos!
Melina apenas acenou e se virou para nós.
—Bom, vou indo, prazer te conhecer, Daniel.
—O prazer é meu, escritora. —acenei.
Ela então se despediu e foi de encontro a amiga. Me preparei para falar com Jonas que ele deveria parar de me jogar para cima de suas alunas, mas antes disso ele me interrompeu, olhando no relógio.
—Olha a hora, tenho que ir para a sala. Depois eu volto aqui para lhe contar mais sobre a fogosa Maria! —ele gargalhou —Boa noite, Dan. E parabéns, novamente.
Eu apenas acenei e me despedi. Torcia para que Jonas não resolvesse me contar detalhes sobre suas transas novamente. Voltei então para a sala. Conferi o celular novamente e não havia nenhuma mensagem da garota da ficção. Restava ter paciência.

Me pergunto como é possível o tempo se arrastar tanto quando estamos preocupados, confusos e esperando algo acontecer. Os dias que se seguiram foram torturantes. Tentei não ligar, tentei não procurar a garota da ficção, mas não consegui. Deixei vários recados em sua caixa-postal, mandei sms e até a procurei em sua sala. Descobri que ela não havia ido à aula durante a semana e não consegui encontrar a Victória nas vezes que fui até a sua sala. Desencontros que me impediram de saber o que estava acontecendo com a garota que eu amava.

A aula de sexta-feira acabou e com ela a minha esperança de ver a Crystal na faculdade. Caminhei para casa completamente desolado. Seja qual for à causa do sumiço dela, só evidenciava mais que a nossa história não teria futuro. Eu havia aberto o meu coração e me iludido novamente. Durante o caminho eu comecei a relembrar todos os encontros que tivemos, desde os primeiros olhares, até aquele ultimo olhar, na madruga de terça, quando nos despedimos. Coincidentemente eu estava usando naquele momento a mesma jaqueta que tinha usado naquela noite. A jaqueta que carregava o perfume já quase impossível de se sentir, a jaqueta que tinha coberto o corpo esguio da garota que tinha me enfeitiçado.
Quando adentrei ao corredor do andar onde morava pude avistar alguém encostada na parede ao lado da minha porta. Usava botas, calças jeans pretas justas ao corpo e um casaco de couro acinzentado. Seus cabelos castanhos estavam soltos e me chamaram a atenção. Seu cabelo estava mais curto, antes chegava um palmo abaixo dos ombros e agora estavam acima do ombro, repicados. As mexas vermelhas que eram a sua marca registrada tinham sumido. 
—Precisamos conversar, criança. —disse Crystal com um olhar sério quando eu me aproximei.
—Boa noite, Crys. —disse com sarcasmo. —Eu estou bem sim, embora tenha ficado preocupado contigo. Ah... você quer entrar? Claro, seria um prazer, vamos, conversar.
Crystal desviou o olhar e depois voltou a me encarar. Ela estava diferente, mais sóbria, mais fria.
—Desculpe, Dan. —se aproximou então e me deu um beijo no rosto. — Não queria preocupa-lo. Podemos entrar para conversar?
—Agora sim. —sorri tentando disfarçar o nervosismo. Estava com um péssimo pressentimento. Abri a porta e ambos entramos.
—Eu recebi suas mensagens. —murmurou Crystal depois que eu fechei a porta, ela caminhou e se sentou no sofá de três lugares. — Não pude te ligar de volta, desculpe.
—Crystal, o que aconteceu? —indaguei me sentando no sofá menor, o clima começava a pesar. —Quem era aquele cara? Ele é o seu namorado?
—Não. —respondeu Crystal desviando o olhar. — Não é.
—Crystal, eu... —me preparei para dizer que havia visto a foto dos dois, mas fui interrompido antes de continuar. A frase que ouvi me fez entrar e choque.
—Dan, eu estou noiva. —ela disse rapidamente. Fiquei sem fala por alguns segundos.
—O quê? —indaguei perplexo. — Desde quando?
—Na verdade eu ainda não aceitei, mas vou aceitar. —ela completou, seu olhar vazio.
—Você vai ficar noiva daquele louco? —perguntei, minha voz saindo quase como um sussurro.
—Sim. —Crystal abaixou o olhar, não conseguia me encarar.
—Crystal.. —balbuciei me levantando e ajoelhando a frente dela, segurei seu queixo e a fiz olhar para mim. — Diga não e fique comigo.
—Eu não posso, Dan. —seus olhos estavam marejados. — Não posso.
—Eu te amo. —me declarei olhando diretamente em seus olhos. — Eu não posso te perder.
—Eu também te amo, Daniel. —confessou Crystal, as lagrimas escorrendo pelo seu rosto. Aquela era a primeira vez que a via chorar. A primeira vez que ela demonstrava fraqueza. — Mas não podemos ficar juntos.
Meu coração bateu mais forte quando a ouvi dizer que me amava. Fiquei feliz e ao mesmo tempo triste. Não conseguiria aceitar o fato de não podermos ficar juntos agora que eu sabia que ela me amava. Não iria desistir, não iria mesmo.
—Se você me ama então não deve aceitar. —disse ainda a olhando nos olhos. — É mais um motivo para ficarmos juntos.
—É complicado demais, Dan. —Crystal segurou as minhas mãos.
—Complicado? —indaguei. — Esse louco vem e te pede em casamento e você não pode negar?
 —Ele é filho de um amigo da família. —começou a explicar, tentando conter as lágrimas. — Futuro herdeiro de uma grande empresa. Meu pai quer que nos casemos. Essa é a primeira vez que meu pai me pede algo. O Bernardo não é louco, só estava um pouco alterado naquele dia. Me desculpe por ele ter tentado te bater. A culpa foi minha.
—Você vai se casar com ele por causa do seu pai? —perguntei me levantando.  — Quando foi que ele te pediu em casamento? A quanto tempo vocês estão juntos?
—Faz algumas semanas que ele me pediu em namoro, mas eu pedi um tempo para pensar, afinal eu sabia que ele pretendia se casar comigo. —Crystal também se levantou, eu me afastei, caminhando pela sala enquanto a ouvi dizer. Cada palavra parecia me atingir como um tiro. — Nós somos amigos faz um tempo e ele sempre foi apaixonado por mim. Nosso casamento é muito vantajoso para o meu pai. Desde a semana passada meu pai tem entrado em contato comigo, ele soube que o Bernardo estava interessado em mim e começou a me pressionar a casar.
—Você vai aceitar por causa disso? —eu não conseguia acreditar naquilo. — Seu pai sempre te desprezou e agora você vai largar a pessoa que ama para viver com um riquinho mimado e desequilibrado.
—Você não sabe o que é ser desprezada pelo seu próprio pai! —Crystal gritou. — Essa é a chance dele finalmente me aceitar como filha.
—Eu não acredito que em pleno século XXI você vai aceitar um casamento arranjado. —comentei revoltado.
—Não é bem assim, o Bernardo precisa de mim. —Crystal balbuciou virando o rosto e abaixando o tom de voz. — Eu não posso dizer não.
—E eu não posso desistir de você sem lutar. —murmurei de cabeça baixa. — Eu também preciso de você.
—Eu queria lutar por esse amor, mas não posso. –ela fez uma pausa. — Eu não fui criada como uma princesa. Não me ensinaram a acreditar em contos de fadas e finais felizes. E eu nunca pensei em ficar com o príncipe no final.
—Então você veio aqui só para acabar com a nossa “amizade colorida” e ir para os braços do seu noivo? —perguntei levantando o rosto e a encarando .Tentava conter as lágrimas, não queria chorar na frente dela.
—Eu vim te pedir desculpas por envolvê-lo no meu mundo. Nesse meu mundo confuso. —respondeu se aproximando. Sua voz agora soava suave. – Eu nunca quis te machucar, te iludir. Nunca quis partir o seu coração. Eu me apaixonei por você, Dan. Mas você não merece ser puxado para o caos que é a minha vida.
—Então simplesmente acabou? —a vontade de chorar era grande demais. Continuei firme. Meu coração se partia em milhares de pedaços. — E eu idiota torcendo para conseguir te conquistar. Para que você quisesse ficar comigo. Ser a minha namorada.
—Eu iria adorar ser a sua namorada, criança. —Crystal sorriu deslizando a mão pelo meu rosto. — Talvez em uma outra vida, ou em uma dimensão paralela, nós dois possamos ficar juntos. Né?
—Talvez. —tentei sorrir com a piada, mas não conseguia. — Eu sonhei tanto com o momento em que você se declarava para mim. E agora que ele chegou eu percebi que dói mais do que deveria.
—Eu não queria te fazer sofrer. —ela me abraçou. — Essa é a nossa última noite juntos.
—Última? –sussurrei
—Sim. —Crystal se afastou um pouco para me olhar nos olhos. – Eu não poderia ir sem me despedir, não é? Mas quando o sol nascer, só vão restar lembranças.
—Eu espero que o sol não apareça amanhã. —brinquei com um sorriso singelo.
Crystal retribuiu o sorriso e me beijou com delicadeza. Suas mãos segurando meu rosto. Entrelacei meus braços em sua cintura e a abracei forte, beijando-a com intensidade. Aquele beijo tinha um gosto diferente, era mais doce, porém mais triste. Um beijo que marcava a nossa despedida.
Continuamos ali, nos beijando por um tempo, sentindo o toque macio de sua pele sobre a minha, o calor de seu corpo junto ao meu. Enquanto a beijava revivi cada momento que passei junto dela, cada beijo, cada transa. Meu coração batendo acelerado, meu corpo arrepiado e uma sensação nostálgica. Depois de um tempo Crystal parou de me beijar, seus grandes olhos me encararam e ela sorriu. Sem dizer uma palavra eu pude entender.. Apenas consenti e fomos para o quarto.
Ela se sentou em minha cama e retirou seu casaco, revelando a blusa negra que vestia por baixo. Eu retirei a jaqueta e a joguei no chão. Crystal se deitou e eu me deitei sobre ela, beijando-a suavemente. Comecei então a descer, beijando sua bochecha e depois o seu pescoço. Aos poucos fomos nos despindo, peça por peça, lentamente. Ambos sabíamos que deveríamos aproveitar ao máximo aquele momento. Assim fizemos. Deslizei meus dedos por cada centímetro de seu corpo, toquei seu seio devagar, acariciei seu mamilo e apertei. A garota da ficção continuava me encarando, suas pernas esfregando nas minhas. Beijei e chupei seus seios. Ela suspirava e sorria. O calor aumentando enquanto continuávamos com as caricias.
Coloquei então a camisinha e penetrei devagar enquanto a beijava. Crystal mordeu meus lábios e depois soltou um gemido. Ela manteve suas pernas entrelaçadas em minha cintura enquanto eu a penetrava lentamente. Um ritmo brando, enquanto a abraçava e beijava. Assim prosseguimos, o ritmo aumentando aos poucos, Crystal deslizando suas mãos pelas minhas costas, suspirando e gemendo. Eu não conseguia deixar de olhar em seus olhos, aqueles olhos que tempos atrás foram o motivo de ter me encantado. Ali, tão perto, eu podia ver que o tom de castanho deles se alternava, entre partes mais escuras, e partes mais claras, como um dégradé em tons de castanho.
Agarrei um das coxas da garota da ficção com a minha mão e comecei a penetrar de forma mais forte e rápida. Crystal começou a gemer mais alto e cravou suas unhas nas minhas costas. Os movimentos cada vez mais rápidos, ambos ofegantes.
—Eu te amo, Crystal. —balbuciei enquanto penetrava, agora com um ritmo intenso, já perto do orgasmo.
—Eu também te amo, Dan. —Crystal então gemeu mais alto fechando os olhos e mordendo os lábios. Ela havia chegado ao orgasmo.
Ainda tentei prosseguir, mas já estava me controlando para não gozar fazia um tempo e acabei me deixando ir junto. Tive aquele que poderia ser o ultimo orgasmo junto da garota da ficção.
Me deitei então ao seu lado e a puxei, abraçando-a e deitando sua cabeça sobre meu peito. Crystal sorriu e me olhou.
—Não quer continuar?
—Dessa vez não. —sorri acariciando seus cabelos. — Quero apenas ficar aqui, contigo.
—Se continuarmos assim eu acabaria dormindo nos seus braços, criança.
—E isso não seria ruim. —sussurrei deslizando meus dedos pelo seu rosto. — Eu só queria que esse momento nunca acabasse.
—Me desculpe, por tudo. —Crystal me encarou, lágrimas escorrendo de seus olhos. — Eu queria poder ficar contigo.
—Eu sei. –tentei sorrir, mas acabei deixando uma lágrima escapar.
—Por favor, não chore. —ela pediu me apertando.
—Tudo bem, não vou chorar. —passei as costas da mão delicadamente sobre o seu rosto e sequei suas lágrimas. — Se você também não chorar.
—Não irei, sou forte. —ela sorriu e deitou novamente sobre mim.
—É tão bom poder te dar carinho. –sussurrei passando minhas mãos em seus cabelos.
—É tão bom receber o seu carinho. Isso tudo é tão bom. Me sinto tão leve.
—Eu não vou te esquecer nunca. —prometi, a abraçando forte.
—Eu também não. —Crystal falava cada vez mais lento.
—No fim, você é doce sim.
Nothing, sweet nothing, baby.
—“Se eu deitasse aqui, se eu apenas deitasse aqui. Você deitaria comigo. E esqueceria do mundo?” —recitei o trecho da música “Chasing Cars” da banda Snow Patrol. Não fazia ideia do porque tinha me lembrado daquela música naquele momento, mas ela simplesmente se encaixava perfeitamente.
—Eu esqueceria de tudo. —Crystal fechou os olhos.
Fiquei então com ela em meus braços, acariciando seus cabelos até ela adormecer. Orando em silêncio para que o sol não nascesse na manhã seguinte. Eu não queria que aquilo acontecesse, não queria deixar Crystal ir embora. Meu coração doía e lágrimas escorriam dos meus olhos. Ali, com ela em meus braços pela última vez, eu chorava em silêncio. E assim eu adormeci, na esperança de que quando meus olhos voltassem a se abrir, o dia não tivesse terminado, o sol não tivesse nascido e a Crystal continuasse ali, em meus braços, para sempre..

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