segunda-feira, 1 de setembro de 2014

[+18] ILUSION: Capitulo 08

Por Guilherme César

Amizade Colorida




            Imagine-se flutuando em alto mar, seus olhos fitando o céu azul, apenas ele. Nada a sua volta, a não ser o som do vento e vez ou outra o som de pássaros voando bem lá no alto. A água morna tocando a sua pele, assim como os raios do sol que parecem lhe acariciar cada centímetro do corpo.
O balanço das águas, ritmado e lento, conduzindo seu corpo para o horizonte, a praia já não pode ser vista, só existe água. Água e o céu. Um horizonte sem fim, uma imensidão lhe cerca e você está completamente perdido. Contudo, está feliz. Embriagado com aquele momento, livre de qualquer pensamento, apenas sentindo seu corpo flutuar. Flutuar em algo desconhecido, algo misterioso e incomensurável. 
            Era daquela forma que eu me sentia, ali, abraçado com Crystal na minha cama, ambos nus e suados, ainda um pouco ofegantes depois daquela transa espetacular. Algumas partes do meu corpo doendo, mas a dor suportável, no fim o prazer havia superado a dor. Porém, não gostaria de repetir aqueles momentos sádicos.
            —No fim você foi domada, criança. —sorri olhando para ela.
            —Só dessa vez. —respondeu se desvencilhando dos meus braços e deitando-se de bruços, apoiando os cotovelos na cama e me encarando. —Você me surpreendeu, Dan.
            —E você não é tão sádica quanto diz. —comentei. —Mas é masoquista.
            —Sou? —indagou erguendo uma das sobrancelhas. — Acho melhor não ficarmos presos a rótulos então. Eu assumo, não sou sádica de verdade.
            —Meu Deus! —exclamei. —A garota misteriosa finalmente assumiu algo. Gostou tanto assim de ter sido domada por mim?
            —Talvez. —sorriu maliciosamente. — Mas essa foi a nossa última transa.
            —Foi? —me sentei na cama. Meus olhos percorreram todo o corpo nu de Crystal. Dos pés, subindo devagar pelos tornozelos, coxas, aquela bunda deliciosa e ainda bastante vermelha, sua cintura, os braços que bloqueavam a visão dos seios, seus cabelos caindo pelas costas e finalmente seu rosto, com aquele olhar enigmático. — E porque diz isso?
            —Porque eu sou uma moça de família. Não pretendo transar casualmente com alguém que mal conheço. —murmurou ainda me encarando. Realmente aquela resposta me surpreendeu.
            —Bom, você veio até o meu apartamento e quase me estuprou. —comentei. —O que sugere?
            —Não sei, Um relacionamento. — e as surpresas não paravam.
            —Você está querendo namorar comigo, Crystal? —questionei curioso.
            —Não, acho namoro uma palavra muito forte. E estamos no inicio ainda. Talvez um relacionamento aberto.
            —Não. —respondi com firmeza. Só eu que não via lógica no que ela estava dizendo? — Não sou o tipo de cara que gosta de um relacionamento aberto. Por mais que eu ame transar, eu prefiro que seja apenas com uma garota.
            —Awnnn! Que fofo! —ironizou sorrindo e fazendo um biquinho em seguida. — Ele é romântico.
            —Crystal, seja direta e clara. —disse com firmeza. — O que você quer?
            —Eu quero que deixemos de transar casualmente, eu já assumi que te desejo, você me deseja, o sexo é bom. —ela respondeu. – Só que para namorar é preciso sentimento, e é cedo demais para isso.
            —Seja direta. —enfatizei.
            —Que tal uma amizade colorida? —sugeriu.
            —Amigos que transam? —balbuciei um pouco espantado com a proposta. — Mas nem somos amigos, eu não sei nada sobre você.
            —Podemos ser, ou isso, ou nada. —ressaltou Crystal novamente levantando uma das sobrancelhas. — E eu já te contei muito sobre mim.
            —Contou? Talvez eu não tenha percebido. –retruquei com ironia. — Eu topo ser seu amigo colorido, desde que eu saiba mais sobre você.
            —Criança curiosa. —Crystal sorriu de forma sedutora. —Então está bem, seremos amigos coloridos. O que quer saber sobre mim?
            —Comece me contando quem te ligou no outro dia. E porque precisou ir embora daquela forma. — respondi, finalmente chegando ao ponto que queria.
            —Era uma amiga. —disse Crystal de forma seca. — Ela estava com problemas.
            —Amiga? Fale mais sobre ela. —aquilo ainda não me parecia ser a verdade.
            —Eu divido meu apartamento com uma amiga. Nos conhecemos fazem dez anos. —Crystal me olhou nos olhos, seu olhar firme. —Quando nos formamos, no ensino médio, combinamos de vir fazer faculdade juntas aqui na cidade. Ela acabou conseguindo uma bolsa integral, ela é muito inteligente.
            —Mas no telefone você não parecia estar muito contente com ela. —comentei tentando fazer Crystal cair em contradição e assim revelar a verdade.
            —E não estava. —murmurou Crystal desviando o olhar. — Dividir apartamento tem seus pontos negativos. Acabamos brigando dias antes e nem estávamos nos falando. Daí ela veio me ligar naquela hora, justo naquela hora, pedindo ajuda. Estava desesperada.
            —Desesperada? —me assustei, aquilo parecia ter sido sério. Mas algo ainda não se encaixava. — Mas ela está bem?
            —Sim, Coisas com a ex. —respondeu com um meio sorriso. — Mas ela já está bem.
            —A Ex? —indaguei surpreso.
            —Sim, ela é lésbica. —disse Crystal sorrindo e se levantando da cama lentamente. —Mas não se preocupe, gatinho. Nunca rolou nada entre a gente.
            —Interessante. —falei admirando seu corpo nu, agora de pé a minha frente. —E poderia rolar?
            —Talvez, gosto de experimentar coisas novas. —Crystal voltou a sorrir de forma maliciosa. — Mas você sabe bem do que eu gosto. —ela se abaixou, aproximando-se de mim e colocando uma das mãos sobre a cama, e outra ela deslizou pelo interior da minha coxa. — Mas podemos interromper essa conversa? Quero tomar um banho.
            Apenas sorri e consenti. Crystal se virou e começou a caminhar, com aquele típico rebolado sedutor. Quando chegou até a porta ela parou e virou o rosto, me encarando. Eu permanecia sentado, hipnotizado pela visão de seu corpo sensual e delicioso.
            —E então? —balbuciou me olhando. — Você não vem?
            Ela sorriu novamente de forma safada e passou pela porta indo em direção ao banheiro. Me levantei com um salto e fui até ela. Logo quando entramos eu a segurei pela cintura, puxando-a contra mim. Seu corpo se unindo ao meu, abracei-a por trás e beijei seu pescoço. Crystal suspirou e se virou, segurando meu rosto e beijando minha boca. Caminhamos até o chuveiro. A água quente caindo sobre nossos corpos enquanto nos beijávamos. O calor aumentando cada vez mais. Ficamos ali, num banho demorado, repleto de caricias, beijos e olhares de desejo. Ela deslizando as mãos por cada parte do meu corpo e eu fazendo o mesmo. Tocando cada centímetro de sua pele macia, meus dedos deslizando e contornando seu corpo.
            Depois de um longo banho voltamos para a cama, nos deitamos e ficamos ali, conversando entre beijos. Crystal me contou sobre sua família, sobre sua mãe. Sua relação com o pai era turbulenta, a falta de carinho dele a deixava triste e estavam cada vez mais distantes. A mãe havia morrido quatro anos antes, seus pais já estavam separados havia pouco mais de doze anos. A garota da ficção vivia com a mãe, uma mulher simples e sofrida. Seu pai era rico, dono de uma grande empresa com filiais em todo o país. Depois da separação ele havia deixado a filha de lado e construído uma nova vida, sempre trocando de namorada, nunca se firmando com alguém. Aparentemente um homem frio e solitário que apenas se dava ao luxo de mandar uma quantia em dinheiro gorda todos os meses para bancar a filha e assim cumprir com o dever de pai. Dessa forma ele a mantinha longe e evitava problemas judiciais.
            Com a morte da mãe, Crystal acabou indo morar com o pai por um tempo e finalmente quando fez 18 anos conseguiu liberdade para ir embora. Satisfeito por ter a filha longe, ele lhe comprou um apartamento, no qual ela agora dividia com a amiga. Durante toda a conversa Crystal manteve seu olhar distante, imersa em lembranças. Ficou claro para mim o quanto ela sofria com a sua relação com o pai. Porém a garota da ficção insistia em não demonstrar fragilidade, sempre dizendo que preferia assim, que tinha liberdade e não precisa trabalhar e estudar.
            Pelo que pude perceber, Crystal era tão solitária quanto o pai, sendo Victória – a sua amiga a pessoa mais próxima dela naquele momento. Alguém que poderia ser considerada uma irmã.
            A noite prosseguiu tranquila, era tão bom passar aquele tempo com Crystal, deitados na cama, rindo e contando coisas sobre o passado. A misteriosa garota da ficção ia se abrindo aos poucos, contando sobre sua infância com Vic, suas brigas e suas peripécias. Contou também sobre o dia em que a amiga se assumiu como homossexual e que havia sido Crystal a única a apoiá-la. Victória também cursava filosofia na Excelsior, mas trabalhava arduamente como secretária em um escritório no centro da cidade. Diferente da amiga, ela não tinha dinheiro e nem o auxilio dos pais que eram muito pobres.
            Comemos, conversamos mais, rimos e transamos novamente. Uma transa quente, mas nada sádica. Já passava da meia noite quando terminamos. Depois de mais um momento intenso de prazer decidimos dormir. Seria a primeira noite que dormiria com alguém ao meu lado, depois que havia terminado com Isabelle. Era bom ter alguém ali, isso diminuía aquela solidão, aquele vazio que me consumiam. Confesso que demorei a dormir. Fiquei um bom tempo só olhando Crystal dormir, vendo sua respiração lenta, sua expressão serena. Ali, deitada ao meu lado, ela parecia tão frágil, tão meiga. Uma fragilidade que ela insistia em ocultar e que eu podia enxergar por entre suas palavras, suas ações. Depois de todos os momentos intrigantes, das brigas e tudo mais, lá estava uma garota que era doce, mas que não deixava transparecer. E eu... Bom, eu poderia assisti-la dormindo por toda a noite...

            —Acordou cedo, criança? —indagou Crystal se aproximando da bancada da cozinha, me encarando enquanto eu terminava de colocar o café na garrafa térmica.
            Já se passava das nove horas da manhã de domingo, tentei não fazer barulho algum quando me levantei. Crystal ficava tão bela dormindo que não tive coragem de acordá-la. Me levantei, vesti uma bermuda e uma camisa azul de algodão sem estampa, e fui para a cozinha. Tomei meu café da manhã –pão com manteiga e chá mate- e fui preparar a mesa de café para quando a garota da ficção acordasse. Comprei pão fresco e algumas quitandas e tentei organizar da melhor forma na mesa –o que levou quase meia hora, por causa do meu perfeccionismo- logo depois fui fazer o café. Algo que só fazia para visitas, já que não bebo café. Sempre adorei o cheiro, mas nunca quis provar, tanto que nem conhecia o gosto do meu café.
            —Faz quase uma hora que acordei. —sorri colocando a garrafa sobre a mesa. —Venha comer, fiz o café especialmente para você.
            —Olha, que rapaz educado. —sorriu Crystal dando a volta na bancada e entrando na cozinha.
            A cozinha não era muito grande. Coberta por azulejos brancos, tinha a bancada que a separava da sala, um pequeno fogão também branco, ao lado da geladeira e de um armário fixado na parte superior da parede e outro logo abaixo dele, onde se encontrava o micro-ondas, todos da mesma cor. Havia me arrependido de ter comprado tudo ali na cozinha com a cor branca, mesmo estando na promoção e saindo tudo muito barato, o trabalho para limpar era gigantesco. No centro estava a mesa de granito com quatro lugares. Completando a cozinha havia uma pequena pia também de granito que ficava abaixo da janela que dava visão da área usada como lavanderia, ao lado dela a porta que dava acesso à mesma.
Meu coração disparou ao ver Crystal ali, apenas de calcinha, usando minha blusa branca da noite anterior. Como ela ficava sexy daquele jeito. Eu sempre ficava encantado com a visão de uma mulher vestida daquela forma, tão simples, tão sensual. Acho que não havia uma maneira melhor de ser sexy, do que se vestir assim. Isabelle fazia questão de roubar minhas camisas no guarda-roupa sempre que dormia comigo. No dia seguinte era surpreendido por ela apenas de calcinha me acordando. Uma visão e tanto. Os cabelos lisos de Crystal estavam penteados de lado, deixando sua longa franja caindo sobre um dos olhos. Ela se sentou na cadeira e ficou me encarando.
—O que foi, criança? —perguntou enquanto pegava uma xicara de louça. — Algum problema?
—Não, é que você fica sexy vestida assim. —sorri me sentando na cadeira de frente para ela. — Muito sexy, eu diria.
—Flertando logo cedo. —Crystal sorriu colocando café na xicara e apanhando um pequeno pão de queijo na cesta a sua frente, onde se encontravam os pães e quitandas. — Por acaso já está querendo me levar de volta para a cama, é?
—Talvez. —sorri de forma maliciosa. Observando enquanto ela provava do café. – Espero que goste do café, eu não provei, já que não gosto. Então digamos que fiz no instinto.
—Pelo visto você tem bons instintos, o café está ótimo. —comentou. —E tenho uma péssima noticia para lhe dar.
—O quê? Qual o problema?
—Não poderei demorar muito. Preciso voltar para casa. —respondeu mordendo o pão de queijo.
—Achei que fosse passar o dia aqui. —murmurei um pouco desanimado.
—Não posso, criança. —disse Crystal com um olhar de compaixão. —Combinei de almoçar com a Vic hoje. Almoço das meninas, não tenho como fugir. Ainda mais que ela vai cozinhar. Se eu me atrasar serei morta.
—É uma pena, estava pensando em várias coisas para fazer contigo. —sorri de forma maliciosa e pisquei com um dos olhos.
—Teremos muito tempo, criança, muito tempo. —Crystal disse depois de beber mais um gole de café.
E assim prosseguimos. Crystal tomou seu café, conversamos mais um pouco e ela foi se vestir. Não tivemos tempo de transar novamente, já que ela precisava ir para casa antes que a amiga começasse a ligar.

Passei o restante do domingo me sentindo como se estivesse de ressaca. Tudo bem, eu nunca havia bebido, nem tinha passado pela fase da ressaca, obviamente. Porém já tinha sofrido com aquela ressaca literária, depois de ler um bom livro. Também depois de assistir uma boa série, sabendo que a nova temporada só sairia depois de um ano. Um vazio, um cansaço e uma vontade de ficar deitado o resto do dia. Um tédio incontrolável e uma sensação de perda. Parecia que minha alma havia sido arrancada do meu corpo.
Só conseguia pensar nos momentos que havia passado com Crystal. Seu perfume, o toque de sua pele na minha, o som de seus gemidos. Aquele olhar profundo, seu corpo sensual. Era incontrolável, eu já havia me apegado, não tinha mais volta. Parecia um drogado sofrendo de abstinência, semanas antes eu estava vazio, não possui vida, nem brilho nos olhos. Daí surgiu aquela garota de cabelos castanhos e mexas vermelhas, com seu jeito esquivo, ela me dominou. Precisava dela junto a mim. Ela me devolveu a vida, me devolveu a vontade de viver. Mas eu só queria viver se fosse ao lado dela. E esses pensamentos se repetiam em minha mente. O nome Crystal ecoava, como uma oração...
...Chovia, o vento soprava forte na rua. Eu caminhava rapidamente, meu corpo completamente molhado. As ruas escuras e vazias. Andei por alguns minutos e cheguei o Parque Central da cidade. Uma grande pista se estendia no meio do parque, servindo como caminho para as pessoas que gostavam de fazer caminhadas ali. Estava escuro ali dentro, em meio às árvores. As pequenas lâmpadas nos postes ornamentados espalhados pelo parque não conseguiam iluminar mais do que três metros ao seu redor. Caminhei pelo parque sozinho. O vento cada vez mais forte, frio.
Ouvia apenas o som da chuva e dos meus passos, vez ou outra pisando em uma poça naquele caminho de pedras. Finalmente, depois de muito caminhar, encontro um vulto a minha frente. Uma mulher, parada em meio às árvores, seu corpo esguio completamente molhado. Usava legues negras, sapatos para corrida e um moletom cinza. Seus cabelos, longos e castanhos estavam molhados. Me aproximei rapidamente e ela se virou.
—Crystal, você está bem? —indaguei chegando perto, ela tinha uma expressão triste no rosto, lágrimas escorriam pelos seus olhos. — O que está acontecendo? Eu te procurei por toda parte.
—Acabou, Daniel. —ela esbravejou. — Eu não confio mais em você, não confio.
—Mas eu só estava te poupando, eu não queria te magoar. —expliquei desesperado. — Você precisa me entender.
—Entender? —indagou. — Eu me apaixonei por você, eu te amo! E você mentiu para mim!
Crystal chorava compulsivamente, a chuva havia parado. O frio aumentava fazendo meu corpo arrepiar. Eu sentia uma grande tristeza tomar conta do meu peito. Aquilo estava mesmo acontecendo?
—Acabou, Daniel! —exclamou Crystal desviando o olhar e passando por mim. —Não me procure mais.
—Eu te amo, Crystal. —gritei segurando seu braço. —Eu te amo.
—Eu também te amo. —sussurrou puxando o braço e se soltando. — Mas não quero mais nada com você. Eu quero ser livre.
Um relâmpago cortou o céu iluminando o parque. Acordei com sobressalto. Estava chovendo. Já passava das oito da noite. A sala estava escura, havia dormido por mais de cinco horas. A janela estava aberta e o vento frio entrava por ela. E eu ali, de bermuda e camisa.
—Oh meu Deus... —balbuciei me sentando no sofá. — Eu estou me apaixonando por ela?




Nenhum comentário:

Postar um comentário