Por Guilherme
César
Crystal continuava sobre mim, seu
corpo esguio deitado sobre o meu, sua cabeça sobre o meu ombro. Sentia sua
respiração em meu pescoço, aos poucos voltando ao normal, aos poucos ficando
mais lenta. Eu a tinha envolvido nos meus braços e apenas aproveitava cada
segundo. Nossos corpos esfriando, ambos em silêncio, apenas absorvendo o que
havíamos acabado de fazer. Em minha mente agora a ficha ia caindo, eu realmente
tinha transado com a garota da ficção e havia sido uma das melhores transas da
minha vida.
Começando a se mexer Crystal levantou
a cabeça, me fitou olhando no fundo dos meus olhos. Senti o magnetismo presente
naquele olhar me puxando até ela. Nossos lábios se aproximaram novamente e nos
beijamos, um beijo lento e molhado. Depois do beijo ela se levantou e ficou de
pé a minha frente, fez menção de abaixar para pegar sua calcinha, mas parou e
me olhou com um sorriso safado.
—No fim, você não me levou para a sua
cama, criança. —ela tinha razão. Acabamos transando no sofá mesmo, envolvidos
por aquela vontade aterradora, aquele magnetismo sobrenatural que nos puxava
para perto.
—Ainda temos tempo. –murmurei me
levantando e sorrindo também de forma maliciosa, Deslizei minhas mãos pela sua
cintura, ela de costas para mim. Puxei-a para perto, colando seu corpo ao meu,
sua bunda tocando meu pênis que voltava a ficar ereto. Pude sentir o cheiro de
seus cabelos, aqueles cabelos com mexas vermelhas e um cheiro inebriante. — O
que me diz?
—Está todo animadinho, hein? —indagou
mexendo a bunda devagar e apertando meu pênis. —Seria uma pena desperdiçar isso,
mas não sei se você aguentaria novamente, eu posso ficar cada vez mais sádica.
—Interessante. —sussurrei beijando seu
pescoço. — Eu pago para ver.
—O que está esperando então?
—perguntou virando seu rosto e olhando para trás, sua boca quase tocando a
minha. Ela levantou seu braço esquerdo e tocou na minha barba com os dedos. —Me
leve para a cama, criança.
Apenas sorri e comecei a caminhar,
pegando sua mão e puxando-a para ir até o quarto. Antes que pudéssemos dar mais de dois passos o
som do celular de Crystal ecoou pela sala. Ela então parou e me encarou com um
olhar triste, soltou minha mão e foi até a bolsa. Eu torci para que ela
ignorasse a ligação, mas ela atendeu.
—Alô. –sua expressão era séria. — Eu
estou ocupada. —podia ouvir apenas o ruído da voz do outro lado, alguém que
falava rapidamente. — Eu não posso ir agora. —Crystal parecia estar louca para
desligar a ligação. Enquanto ouvia a pessoa do outro lado ela cruzou os braços
e se mostrou inquieta e desconfortável. — Eu não estou na Universidade. —seu
tom estava duro, aparentemente a pessoa do outro lado estava brigando. — Você
está me atrapalhando... Droga! — a pessoa parecia não deixa-la falar. — Tudo
bem então, eu vou. Estou indo agora. —eu estava intrigado e revoltado com
aquilo, ela ia mesmo embora? — Não vou demorar, tchau.
—Vai embora? —indaguei logo quando ela
desligou o telefone.
—Desculpe, criança. —respondeu
colocando o celular na bolsa e se abaixando para pegar as roupas. — Não poderei
ser sádica hoje.
—Problemas em casa? —questionei
enquanto a observava vestir sua calcinha e sutiã.
—Sim. —respondeu de forma seca. — Mas
não se preocupe.
—Tudo bem. Me dê apenas um minuto e te
acompanho até lá. —comentei procurando minhas roupas. —Já está tarde, não te
deixarei ir sozinha.
—Relaxa, Dan. —ela sorriu vestindo
suas calças. — Ta tudo bem, eu sei me cuidar. E não precisa ir comigo.
— Eu faço questão, Crystal. —retruquei
apanhando minhas roupas.
—Não, eu faço questão. —ela acabou de
vestir sua blusa e calçou a sandália. Apanhou os cadernos e a bolsa e veio até mim.
—Eu vou sozinha, obrigada.
Antes que eu pudesse responder, ela me
beijou de forma intensa e se afastou olhando nos meus olhos.
—Prometo que depois continuamos.
—sorriu maliciosamente se virando e indo até a porta. —Agora seja cavalheiro e
abra a porta para mim, oras.
—Me avise quando chegar lá. —pedi
preocupado, abrindo a porta.
—Até mais, criança. —ela acenou e
seguiu pelo corredor do prédio. Fechei a porta e fiquei ali de pé, processando
todos os acontecimentos daquele dia que parecia uma doce ilusão.
Estava frio novamente, muito frio.
Notei então que ainda estava nu. Apanhei minhas roupas e fui tomar banho.
Aquele dia iria ficar marcado para sempre na minha vida.
—Dan! —exclamou Isis logo quando
cheguei à livraria, ainda antes de abrirmos a loja e começarmos o expediente. —
Conte-me tudo!
—E tudo seria? —brinquei fingindo não
saber do que ela estava falando.
—Sobre a revista e sobre o encontro
com a Crystal, oras. —Isis chegou perto de mim me olhando com seus olhões como
se fosse uma criança admirando um brinquedo novo.
—Na revista foi legal, principalmente
quando me falaram do salário. —comentei. —E a Crystal, bom... digamos que
tivemos uma noite quente.
—Noite? —indagou Isis com um salto. Ela
colocou as mãos sobre meus braços, pouco abaixo dos ombros e apertou, me
balançando. —Vocês passaram a noite juntos?
—Ai! —exclamei segurando os pulsos
dela e fazendo-a soltar meu braço. —Não faça isso.
—O que foi? —indagou me olhando assustada.
Com um sorriso safado eu levantei a
manga da camisa revelando as cinco profundas marcas de unhas no meu braço. Os
arranhões tinham sido tão fundos que deixariam cicatrizes. Isis arregalou mais
ainda os olhos e me encarou perplexa.
—Ela fez isso?
—Sim, e como fez. —sorri
maliciosamente.
Isis então começou a me encher de
perguntas e tive que contar com detalhes o ocorrido na noite anterior. Acabei
ficando o dia todo explicando e respondendo as perguntas dela que parecia estar
mais empolgada do que eu.
Eu não podia negar que estava muito
feliz com tudo aquilo, mas tinha algo que me deixava confuso. O tal telefonema
e a saída apressada de Crystal me deixaram com a típica “pulga atrás da orelha”.
Desde que saiu do apartamento, Crystal não me mandou nenhuma sms e nem respondeu
a que havia enviado logo cedo perguntando se ela estava bem. Minha intuição me
dizia que existia muito mais ali do que eu poderia imaginar, mas minha razão me
pedia para ir com calma e não forçar as coisas. Teria de esperar até que a
garota da ficção respondesse a minha mensagem.
As horas se passaram, terminei meu
horário de trabalho, fui para casa, me arrumei, fui para a faculdade e voltei
novamente. Conferi meu celular várias e várias vezes, nenhum sinal de vida da
Crystal. A preocupação era grande, mas o orgulho dessa vez foi maior e decidi
não ligar e nem mandar outra mensagem. Ela era uma garota crescida,
independente por sinal, não éramos namorados, havíamos tido uma transa casual
apenas, eu precisava entender aquilo. Contudo, eu realmente estava preocupado,
de uma forma que eu nem sabia que poderia estar.
Deitado no sofá da sala, local onde
tínhamos transado na noite anterior, eu observava meu celular. Inquieto, cheio
de dúvidas. Ela me desejou apenas por uma noite? Só aquilo lhe bastou? Ou será que
ela estava tentando me fazer ficar mais interessado? Será que ela só me usou e
agora vai descartar? Meu Deus! O que eu estava pensando, foi só uma transa,
nada mais.
—Que se dane! —exclamei indo até o
menu de músicas no celular e colocando um das faixas de rock internacional que
ali havia. — Eu não vou ficar aqui parecendo “uma adolescente em crise por
causa do namorado”. Se ela não quer retornar, que se dane.
Coloquei o celular sobre a mesa de
centro e apanhei meu caderno. Abri em uma das folhas em branco e comecei a
escrever. Vamos trabalhar, é melhor do que deixar aqueles pensamentos
consumirem a minha mente.
E ali permaneci até tarde da noite,
escrevendo, desenhando, ouvindo música, desenhando novamente. Escrevi poemas,
crônicas, versos sem nexo, frases aleatórias, cantei, e no fim terminei a noite
deitado no sofá. Dormi sem perceber e fiquei imerso no mundo dos sonhos...
Me vi em um grande campo, a grama
verde se estendia até onde os olhos podiam enxergar. Eu estava sentado no chão,
minhas costas apoiadas em uma grande árvore que tinha suas folhas amareladas
por causa do outono. O céu estava limpo, o sol iluminava o campo, não estava
quente, um clima ameno. O vento suave tocava a minha pele.
—Uma moeda pelos seus pensamentos.
—murmurou alguém com uma voz carinhosa bem abaixo de mim.
Olhei para baixo e percebi que Crystal
estava ali, deitada em meu colo. Ela vestia o mesmo vestido azul claro do nosso
primeiro encontro, seus cabelos soltos estavam atrapalhados. Ela sorria e me
encarava, como se tentasse ler os meus pensamentos.
—Estava apenas olhando essa imensidão,
Tentando imaginar quantos lugares assim existem no mundo. Tantos lugares para
visitar, tantos mistérios para desvendar. Tantas pessoas...
—A única pessoa que você precisa sou
eu, Dan. —disse Crystal se sentando e olhando nos meus olhos. — E você é a
única pessoa que eu preciso.
—Outra mentira? —indaguei— Eu sei
muito bem que você ama conhecer coisas novas, que sonha em desbravar o mundo,
que ama viver.
—Quero, quero viajar o mundo com você.
—Crystal colocou uma das mãos sobre o meu rosto, me fazendo carinho. — Quero
conhecer coisas novas contigo, viver contigo. Você não entendeu que eu te amo?
—Está com febre? —murmurei colocando a
mão sobre a testa dela. Crystal apenas sorriu.
—Bobo. —ela então abaixou o rosto, o
olhar parecendo triste. — Você não vê o quanto eu gosto de ti, não me enxerga
como eu sou de verdade. Eu tirei a minha máscara por você, porque eu sei que
você me entende.
—Eu quero te entender. –falei
rapidamente. –Me desculpe, não queria te deixar triste.
—Desastrado como sempre, mas ainda
assim tão fofo. —ela voltou a sorrir e se aproximou mais, seus lábios próximos
dos meus. —Eu te amo, criança.
Nós nos beijamos, os lábios dela
estavam ainda mais doces, ainda mais macios. Sentia o calor se irradiar dela e
passar para mim apenas como o toque de seus lábios. Aos poucos, a cada
movimento, o beijo se tornava mais intenso. Todas as dúvidas, todas as
preocupações sumiram. Ali, naquele beijo eu senti que ela me amava, senti que
ela estava sendo sincera. E acima de tudo, senti que eu também a amava.
—Eu te amo, Crystal. —sussurrei depois
de beijá-la.
—Eu sempre soube, meu amor. —ela
sorriu, seus olhos castanhos brilhavam, marejados. Crystal então se afastou um
pouco e olhou para o horizonte. —E então, me diga, qual a sua cor favorita?
Antes que eu pudesse responder tudo
desapareceu e eu senti como se estivesse caindo. Segundos depois senti o
impacto e bati minha testa em algo muito duro. Abri os olhos e percebi que
acabara de cair do sofá. A luz do sol entrava pela janela, meu celular estava
desligado, provavelmente sem bateria por ter ficado a noite toda reproduzindo
as músicas. E tudo aquilo tinha sido apenas um sonho.
Me levantei e percebi que já estava
atrasado para o trabalho. Me arrumei rapidamente e fui sem nem mesmo tomar
café. Antes de sair peguei o carregador do celular e o joguei dentro da minha
mochila. A sexta-feira foi corrida, muito trabalho na livraria, organizando um
novo carregamento de livros que chegou. Passei a manhã toda separando os livros
e a tarde fiquei por conta de organizá-los nas prateleiras, Isis sempre deixava
essa tarefa para mim, pois sabia que eu adorava organizar as coisas. A falta de
tempo ocioso me fez esquecer momentaneamente o sumiço da Crystal e nem me
lembrei de conferir o celular. Durante a aula também aconteceu o mesmo, várias
atividades em sala e uma aula prática dentro do cinema me fizeram perder a
noção do tempo. Depois de chegar em casa fui direito para a cama e dormi como
uma pedra devido ao cansaço do dia.
Acordei já as dez da manhã no
sábado, nem ao menos conseguia lembrar do que havia sonhado. Foi só então que
conferi o meu celular, embora não houvesse nada de diferente. Sem mensagens da
Crystal.
—Você realmente só queria uma transa
casual, criança. —murmurei em voz alta. — Vida que segue.
Fui até o banheiro, lavei o rosto e
quando voltei pude ver a bagunça que a casa estava, não tinha tido tempo de
organizar nem limpar nada desde o dia em que Crystal sairia apressada do
apartamento. Decidi então aproveitar o sábado e fazer uma grande faxina. Já
passava das duas da tarde quando finalmente terminei de arrumar tudo e me
sentei no sofá, pronto para assistir um pouco de TV. Fiquei um tempo mudando de
canal até que um som conhecido começou a ressoar pela sala, era o meu telefone.
O peguei e olhei a tela, estava escrito “Crystal”. Meu coração disparou
imediatamente e até me assustei com aquela reação. Não demorei e cliquei em
“atender”, levando-o até o ouvido.
—Alô.
—Alô,
Daniel? —murmurou uma voz feminina do outro lado.
—Sim, Crystal, sou eu. —respondi
tentando parecer seco.
—Tudo
bem contigo? —indagou com sua voz suave.
—Sim, e com você? —ela some por dois
dias e vem conversar como se nada tivesse acontecido.
—Estou
bem sim. Estava lendo seu poema.
—Ah,
é? —indaguei sem interesse. Ela realmente não ia falar sobre o sumiço e nem se
desculpar.
—Sim,
Estava pensando em você. Está ocupado?
—Não,
não estou. —onde diabos ela queria chegar? – Algum problema?
—Não,
nada. —ela fez um pausa.— Queria
saber se você tem algum programa para mais tarde.
—Não,
por enquanto, não, por quê? —será que ela quer me encontrar? Talvez ela queira
se desculpar pessoalmente.
—Então,
não quer assistir um filme comigo não, sei lá, jogar conversa fora. —fez
outra pausa. —Eu posso ir aí se quiser,
levo pipoca!
Ela deu uma gargalhada e me esperou
responder. Pensei sobre aquilo, aparentemente parecia uma estratégia para
ganhar a minha confiança e pedir desculpas. Tinha comentado com ela no nosso
primeiro encontro que eu adorava filmes, ela foi direito em algo que sabia que
eu não recusaria.
—Por mim tudo bem. —concordei.
—Estarei te esperando.
—Okay.
Chego aí por volta das seis da tarde. Tudo bem?
—Tudo.
—Ahh,
criança... —ela murmurou fazendo outra pausa. — Qual a sua cor favorita?
Meu
coração parou. O mundo a minha volta pareceu congelar e foi como se meu
estômago tivesse se tornado uma pedra de gelo. No exato momento em que ela
disse aquilo minha mente foi levada até o sonho que tivera na noite de quinta.
Eu estava novamente naquele extenso campo com Crystal a minha frente me
perguntando qual era a minha cor favorita. Eu não sabia o que responder, não
conseguia entender mais nada. Eu teria tido uma premonição? E se tivesse tido,
aquilo seria um sinal de que a Crystal me amava ou iria me amar?
—Eii,
criança. —ela chamou novamente me despertando dos meus delírios. —E então, qual é a sua cor favorita?
—Ahh, é vermelho. —balbuciei meio sem
entender aquilo, ainda em choque. —Por quê?
—Hmmm.—murmurou.
—A minha é azul. Bom, vou desligar, mais
tarde nos vemos. Não se preocupe, não vou me atrasar dessa vez.
—Tudo bem, vou te esperar. —falei.
—Okay. Então tá, beijo. Tchauzinho, criança.
—Até logo, Crystal.
Crystal desligou e eu fiquei alguns
minutos sem entender o que tinha acontecido. Ela finalmente tinha aparecido,
queria me ver e ainda tinha dito a mesma frase que dissera em meu sonho. Todos
os pensamentos de antes haviam desaparecido, eu não me importava mais se ela
tinha sumido ou não. Como sempre, logo ao aparecer ela fez minha cabeça girar,
e o mais incrível, me fez ficar louco de curiosidade para saber o que vinha a
seguir.

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