segunda-feira, 1 de setembro de 2014

[+18] ILUSION: Capitulo 06

Por Guilherme César

Qual a sua cor favorita?




Crystal continuava sobre mim, seu corpo esguio deitado sobre o meu, sua cabeça sobre o meu ombro. Sentia sua respiração em meu pescoço, aos poucos voltando ao normal, aos poucos ficando mais lenta. Eu tinha envolvido nos meus braços e apenas aproveitava cada segundo. Nossos corpos esfriando, ambos em silêncio, apenas absorvendo o que havíamos acabado de fazer. Em minha mente agora a ficha ia caindo, eu realmente tinha transado com a garota da ficção e havia sido uma das melhores transas da minha vida.
        
Começando a se mexer Crystal levantou a cabeça, me fitou olhando no fundo dos meus olhos. Senti o magnetismo presente naquele olhar me puxando até ela. Nossos lábios se aproximaram novamente e nos beijamos, um beijo lento e molhado. Depois do beijo ela se levantou e ficou de pé a minha frente, fez menção de abaixar para pegar sua calcinha, mas parou e me olhou com um sorriso safado.
—No fim, você não me levou para a sua cama, criança. —ela tinha razão. Acabamos transando no sofá mesmo, envolvidos por aquela vontade aterradora, aquele magnetismo sobrenatural que nos puxava para perto.
—Ainda temos tempo. –murmurei me levantando e sorrindo também de forma maliciosa, Deslizei minhas mãos pela sua cintura, ela de costas para mim. Puxei-a para perto, colando seu corpo ao meu, sua bunda tocando meu pênis que voltava a ficar ereto. Pude sentir o cheiro de seus cabelos, aqueles cabelos com mexas vermelhas e um cheiro inebriante. — O que me diz?
—Está todo animadinho, hein? —indagou mexendo a bunda devagar e apertando meu pênis. —Seria uma pena desperdiçar isso, mas não sei se você aguentaria novamente, eu posso ficar cada vez mais sádica.
—Interessante. —sussurrei beijando seu pescoço. — Eu pago para ver.
—O que está esperando então? —perguntou virando seu rosto e olhando para trás, sua boca quase tocando a minha. Ela levantou seu braço esquerdo e tocou na minha barba com os dedos. —Me leve para a cama, criança.
Apenas sorri e comecei a caminhar, pegando sua mão e puxando-a para ir até o quarto.  Antes que pudéssemos dar mais de dois passos o som do celular de Crystal ecoou pela sala. Ela então parou e me encarou com um olhar triste, soltou minha mão e foi até a bolsa. Eu torci para que ela ignorasse a ligação, mas ela atendeu.
—Alô. –sua expressão era séria. — Eu estou ocupada. —podia ouvir apenas o ruído da voz do outro lado, alguém que falava rapidamente. — Eu não posso ir agora. —Crystal parecia estar louca para desligar a ligação. Enquanto ouvia a pessoa do outro lado ela cruzou os braços e se mostrou inquieta e desconfortável. — Eu não estou na Universidade. —seu tom estava duro, aparentemente a pessoa do outro lado estava brigando. — Você está me atrapalhando... Droga! — a pessoa parecia não deixa-la falar. — Tudo bem então, eu vou. Estou indo agora. —eu estava intrigado e revoltado com aquilo, ela ia mesmo embora? — Não vou demorar, tchau.
—Vai embora? —indaguei logo quando ela desligou o telefone.
—Desculpe, criança. —respondeu colocando o celular na bolsa e se abaixando para pegar as roupas. — Não poderei ser sádica hoje.
—Problemas em casa? —questionei enquanto a observava vestir sua calcinha e sutiã.
—Sim. —respondeu de forma seca. — Mas não se preocupe.
—Tudo bem. Me dê apenas um minuto e te acompanho até lá. —comentei procurando minhas roupas. —Já está tarde, não te deixarei ir sozinha.
—Relaxa, Dan. —ela sorriu vestindo suas calças. — Ta tudo bem, eu sei me cuidar. E não precisa ir comigo.
— Eu faço questão, Crystal. —retruquei apanhando minhas roupas.
—Não, eu faço questão. —ela acabou de vestir sua blusa e calçou a sandália. Apanhou os cadernos e a bolsa e veio até mim. —Eu vou sozinha, obrigada.
Antes que eu pudesse responder, ela me beijou de forma intensa e se afastou olhando nos meus olhos.
—Prometo que depois continuamos. —sorriu maliciosamente se virando e indo até a porta. —Agora seja cavalheiro e abra a porta para mim, oras.
—Me avise quando chegar lá. —pedi preocupado, abrindo a porta.
—Até mais, criança. —ela acenou e seguiu pelo corredor do prédio. Fechei a porta e fiquei ali de pé, processando todos os acontecimentos daquele dia que parecia uma doce ilusão.
Estava frio novamente, muito frio. Notei então que ainda estava nu. Apanhei minhas roupas e fui tomar banho. Aquele dia iria ficar marcado para sempre na minha vida.

—Dan! —exclamou Isis logo quando cheguei à livraria, ainda antes de abrirmos a loja e começarmos o expediente. — Conte-me tudo!
—E tudo seria? —brinquei fingindo não saber do que ela estava falando.
—Sobre a revista e sobre o encontro com a Crystal, oras. —Isis chegou perto de mim me olhando com seus olhões como se fosse uma criança admirando um brinquedo novo.
—Na revista foi legal, principalmente quando me falaram do salário. —comentei. —E a Crystal, bom... digamos que tivemos uma noite quente.
—Noite? —indagou Isis com um salto. Ela colocou as mãos sobre meus braços, pouco abaixo dos ombros e apertou, me balançando. —Vocês passaram a noite juntos?
            —Ai! —exclamei segurando os pulsos dela e fazendo-a soltar meu braço. —Não faça isso.
            —O que foi? —indagou me olhando assustada.
            Com um sorriso safado eu levantei a manga da camisa revelando as cinco profundas marcas de unhas no meu braço. Os arranhões tinham sido tão fundos que deixariam cicatrizes. Isis arregalou mais ainda os olhos e me encarou perplexa.
—Ela fez isso?
—Sim, e como fez. —sorri maliciosamente.
Isis então começou a me encher de perguntas e tive que contar com detalhes o ocorrido na noite anterior. Acabei ficando o dia todo explicando e respondendo as perguntas dela que parecia estar mais empolgada do que eu.
Eu não podia negar que estava muito feliz com tudo aquilo, mas tinha algo que me deixava confuso. O tal telefonema e a saída apressada de Crystal me deixaram com a típica “pulga atrás da orelha”. Desde que saiu do apartamento, Crystal não me mandou nenhuma sms e nem respondeu a que havia enviado logo cedo perguntando se ela estava bem. Minha intuição me dizia que existia muito mais ali do que eu poderia imaginar, mas minha razão me pedia para ir com calma e não forçar as coisas. Teria de esperar até que a garota da ficção respondesse a minha mensagem.

As horas se passaram, terminei meu horário de trabalho, fui para casa, me arrumei, fui para a faculdade e voltei novamente. Conferi meu celular várias e várias vezes, nenhum sinal de vida da Crystal. A preocupação era grande, mas o orgulho dessa vez foi maior e decidi não ligar e nem mandar outra mensagem. Ela era uma garota crescida, independente por sinal, não éramos namorados, havíamos tido uma transa casual apenas, eu precisava entender aquilo. Contudo, eu realmente estava preocupado, de uma forma que eu nem sabia que poderia estar.
Deitado no sofá da sala, local onde tínhamos transado na noite anterior, eu observava meu celular. Inquieto, cheio de dúvidas. Ela me desejou apenas por uma noite? Só aquilo lhe bastou? Ou será que ela estava tentando me fazer ficar mais interessado? Será que ela só me usou e agora vai descartar? Meu Deus! O que eu estava pensando, foi só uma transa, nada mais.
—Que se dane! —exclamei indo até o menu de músicas no celular e colocando um das faixas de rock internacional que ali havia. — Eu não vou ficar aqui parecendo “uma adolescente em crise por causa do namorado”. Se ela não quer retornar, que se dane.
Coloquei o celular sobre a mesa de centro e apanhei meu caderno. Abri em uma das folhas em branco e comecei a escrever. Vamos trabalhar, é melhor do que deixar aqueles pensamentos consumirem a minha mente.
E ali permaneci até tarde da noite, escrevendo, desenhando, ouvindo música, desenhando novamente. Escrevi poemas, crônicas, versos sem nexo, frases aleatórias, cantei, e no fim terminei a noite deitado no sofá. Dormi sem perceber e fiquei imerso no mundo dos sonhos...
Me vi em um grande campo, a grama verde se estendia até onde os olhos podiam enxergar. Eu estava sentado no chão, minhas costas apoiadas em uma grande árvore que tinha suas folhas amareladas por causa do outono. O céu estava limpo, o sol iluminava o campo, não estava quente, um clima ameno. O vento suave tocava a minha pele.
—Uma moeda pelos seus pensamentos. —murmurou alguém com uma voz carinhosa bem abaixo de mim.
Olhei para baixo e percebi que Crystal estava ali, deitada em meu colo. Ela vestia o mesmo vestido azul claro do nosso primeiro encontro, seus cabelos soltos estavam atrapalhados. Ela sorria e me encarava, como se tentasse ler os meus pensamentos.
—Estava apenas olhando essa imensidão, Tentando imaginar quantos lugares assim existem no mundo. Tantos lugares para visitar, tantos mistérios para desvendar. Tantas pessoas...
—A única pessoa que você precisa sou eu, Dan. —disse Crystal se sentando e olhando nos meus olhos. — E você é a única pessoa que eu preciso.
—Outra mentira? —indaguei— Eu sei muito bem que você ama conhecer coisas novas, que sonha em desbravar o mundo, que ama viver.
—Quero, quero viajar o mundo com você. —Crystal colocou uma das mãos sobre o meu rosto, me fazendo carinho. — Quero conhecer coisas novas contigo, viver contigo. Você não entendeu que eu te amo?
—Está com febre? —murmurei colocando a mão sobre a testa dela. Crystal apenas sorriu.
—Bobo. —ela então abaixou o rosto, o olhar parecendo triste. — Você não vê o quanto eu gosto de ti, não me enxerga como eu sou de verdade. Eu tirei a minha máscara por você, porque eu sei que você me entende.
—Eu quero te entender. –falei rapidamente. –Me desculpe, não queria te deixar triste.
—Desastrado como sempre, mas ainda assim tão fofo. —ela voltou a sorrir e se aproximou mais, seus lábios próximos dos meus. —Eu te amo, criança.
Nós nos beijamos, os lábios dela estavam ainda mais doces, ainda mais macios. Sentia o calor se irradiar dela e passar para mim apenas como o toque de seus lábios. Aos poucos, a cada movimento, o beijo se tornava mais intenso. Todas as dúvidas, todas as preocupações sumiram. Ali, naquele beijo eu senti que ela me amava, senti que ela estava sendo sincera. E acima de tudo, senti que eu também a amava.
—Eu te amo, Crystal. —sussurrei depois de beijá-la.
—Eu sempre soube, meu amor. —ela sorriu, seus olhos castanhos brilhavam, marejados. Crystal então se afastou um pouco e olhou para o horizonte. —E então, me diga, qual a sua cor favorita?
Antes que eu pudesse responder tudo desapareceu e eu senti como se estivesse caindo. Segundos depois senti o impacto e bati minha testa em algo muito duro. Abri os olhos e percebi que acabara de cair do sofá. A luz do sol entrava pela janela, meu celular estava desligado, provavelmente sem bateria por ter ficado a noite toda reproduzindo as músicas. E tudo aquilo tinha sido apenas um sonho.
            Me levantei e percebi que já estava atrasado para o trabalho. Me arrumei rapidamente e fui sem nem mesmo tomar café. Antes de sair peguei o carregador do celular e o joguei dentro da minha mochila. A sexta-feira foi corrida, muito trabalho na livraria, organizando um novo carregamento de livros que chegou. Passei a manhã toda separando os livros e a tarde fiquei por conta de organizá-los nas prateleiras, Isis sempre deixava essa tarefa para mim, pois sabia que eu adorava organizar as coisas. A falta de tempo ocioso me fez esquecer momentaneamente o sumiço da Crystal e nem me lembrei de conferir o celular. Durante a aula também aconteceu o mesmo, várias atividades em sala e uma aula prática dentro do cinema me fizeram perder a noção do tempo. Depois de chegar em casa fui direito para a cama e dormi como uma pedra devido ao cansaço do dia.  

            Acordei já as dez da manhã no sábado, nem ao menos conseguia lembrar do que havia sonhado. Foi só então que conferi o meu celular, embora não houvesse nada de diferente. Sem mensagens da Crystal.
            —Você realmente só queria uma transa casual, criança. —murmurei em voz alta. — Vida que segue.
            Fui até o banheiro, lavei o rosto e quando voltei pude ver a bagunça que a casa estava, não tinha tido tempo de organizar nem limpar nada desde o dia em que Crystal sairia apressada do apartamento. Decidi então aproveitar o sábado e fazer uma grande faxina. Já passava das duas da tarde quando finalmente terminei de arrumar tudo e me sentei no sofá, pronto para assistir um pouco de TV. Fiquei um tempo mudando de canal até que um som conhecido começou a ressoar pela sala, era o meu telefone. O peguei e olhei a tela, estava escrito “Crystal”. Meu coração disparou imediatamente e até me assustei com aquela reação. Não demorei e cliquei em “atender”, levando-o até o ouvido.
            —Alô.
            —Alô, Daniel? —murmurou uma voz feminina do outro lado.
            —Sim, Crystal, sou eu. —respondi tentando parecer seco.
            —Tudo bem contigo? —indagou com sua voz suave.
            —Sim, e com você? —ela some por dois dias e vem conversar como se nada tivesse acontecido.
            —Estou bem sim. Estava lendo seu poema.
            —Ah, é? —indaguei sem interesse. Ela realmente não ia falar sobre o sumiço e nem se desculpar.
            —Sim, Estava pensando em você. Está ocupado?
            —Não, não estou. —onde diabos ela queria chegar? – Algum problema?
            —Não, nada. —ela fez um pausa.— Queria saber se você tem algum programa para mais tarde.
            —Não, por enquanto, não, por quê? —será que ela quer me encontrar? Talvez ela queira se desculpar pessoalmente.
            —Então, não quer assistir um filme comigo não, sei lá, jogar conversa fora. —fez outra pausa. —Eu posso ir aí se quiser, levo pipoca!
            Ela deu uma gargalhada e me esperou responder. Pensei sobre aquilo, aparentemente parecia uma estratégia para ganhar a minha confiança e pedir desculpas. Tinha comentado com ela no nosso primeiro encontro que eu adorava filmes, ela foi direito em algo que sabia que eu não recusaria.
            —Por mim tudo bem. —concordei. —Estarei te esperando.
            —Okay. Chego aí por volta das seis da tarde. Tudo bem?
            —Tudo.
            —Ahh, criança... —ela murmurou fazendo outra pausa. — Qual a sua cor favorita?
            Meu coração parou. O mundo a minha volta pareceu congelar e foi como se meu estômago tivesse se tornado uma pedra de gelo. No exato momento em que ela disse aquilo minha mente foi levada até o sonho que tivera na noite de quinta. Eu estava novamente naquele extenso campo com Crystal a minha frente me perguntando qual era a minha cor favorita. Eu não sabia o que responder, não conseguia entender mais nada. Eu teria tido uma premonição? E se tivesse tido, aquilo seria um sinal de que a Crystal me amava ou iria me amar?
            —Eii, criança. —ela chamou novamente me despertando dos meus delírios. —E então, qual é a sua cor favorita?
            —Ahh, é vermelho. —balbuciei meio sem entender aquilo, ainda em choque. —Por quê?
            —Hmmm.—murmurou. —A minha é azul. Bom, vou desligar, mais tarde nos vemos. Não se preocupe, não vou me atrasar dessa vez.
            —Tudo bem, vou te esperar. —falei.
            —Okay. Então tá, beijo. Tchauzinho, criança.
            —Até logo, Crystal.
            Crystal desligou e eu fiquei alguns minutos sem entender o que tinha acontecido. Ela finalmente tinha aparecido, queria me ver e ainda tinha dito a mesma frase que dissera em meu sonho. Todos os pensamentos de antes haviam desaparecido, eu não me importava mais se ela tinha sumido ou não. Como sempre, logo ao aparecer ela fez minha cabeça girar, e o mais incrível, me fez ficar louco de curiosidade para saber o que vinha a seguir. 

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