quarta-feira, 22 de outubro de 2025

[CRÔNICA] O Paradoxo de Duviri - A espiral que nos impede de viver

 Por Guilherme César


Como de costume, uma breve introdução das linhas que virão a seguir… Pretendo aqui traçar um paralelo entre o conceito abordado em um pequeno trecho do jogo warframe e a nossa realidade, nossas dores e auto penitência. Não se preocupe, caso nunca tenha jogado a obra citada, eu explicarei todo o contexto necessário e ainda que tenha leves spoilers, não será nada que pode comprometer a sua experiência (como jogador ou não). Fica o aviso, que este texto pretende tratar de temas como a depressão, isolamento e traumas, mas lhe convido a continuar lendo e confiar, pois valerá a pena!


Começamos então com o contexto. Em Warframe, num futuro onde a tecnologia, a exploração espacial e a ganância extrapolaram limites, o protagonista passa por um grave acidente ainda criança, algo que muda completamente sua vida. Todavia, em uma das jornadas mais avançadas (uma missão que conta partes da história), somos apresentados ao Peregrino, uma versão do nosso protagonista, mas que nunca foi salvo do acidente e assim sua vida seguiu um caminho ainda mais sombrio. Isolado na nave abandonada, cercado por antigos amigos e familiares enlouquecidos, o Peregrino mergulhou em seus piores medos, traumas e sentimentos, o que deu início a uma realidade totalmente a parte da linha do tempo oficial. Isso é o Paradoxo de Duviri. 


Duviri é um reino marcado por mudanças no ambiente baseadas em cinco emoções: raiva, tristeza, inveja, alegria e medo. O Peregrino, já alheio ao seu próprio passado, se vê preso nesse reino, sendo perseguido pelo Rei de forma incansável e sempre que capturado, é executado. Porém, sua morte só reinicia o ciclo e toda a dor começa. Somente ao finalizar essa pequena história, entendemos que o reino é um produto da mente do próprio protagonista, que ao ser atingido pelas forças primordiais do Universo, foi capaz de dar vida aos seus sentimentos, na forma de uma realidade baseada em tudo que viveu. Duviri é a representação de sua dor, de seus traumas, mas também é a sua fuga, quando já não conseguia mais viver sozinho. As execuções vinham do seu desejo inconsciente de desistir, de dar fim a todo o sofrimento. 


Contexto dado, vamos à reflexão. Pensar sobre o paradoxo me fez entender que na dificuldade em lidar com nossas próprias emoções, por vezes nos enganamos, fugimos da nossa própria realidade, criamos limites, amarras, barreiras. Seja se isolando do mundo, se escondendo para não voltar a sofrer, seja limitando nossas ações e criando barreiras para se proteger. Quantas vezes o medo de confrontar a verdade, o pânico de aceitar o que de pior que nos aconteceu, acaba por nos pretendo em uma espiral de tristeza? E ainda, até mesmo quando tentamos nos curar, acabamos em algum momento desejando apenas retornar para um ponto do passado onde não havia dor.
Sofrer nos leva a questionar quem somos, o que queremos, o que acreditamos. Questionamos nossa fé, nossos valores, nossos méritos. Questionamos até mesmo o nosso merecimento quando algo de bom nos acontece, visto que a dor contínua pode até se tornar viciante. A tristeza se torna tão comum que optamos por mantê-la conosco, por segurá-la perto, afinal é melhor uma dor conhecida, do que uma nova.
E assim como o Peregrino, acabamos por nos acorrentar, mergulhamos na espiral de sofrimento e abandonamos a esperança. Nos punindo por acreditar que merecemos viver daquela forma, por enxergar que foram nossas escolhas que nos colocaram ali. Presos em um Paradoxo interminável, repetitivo, cruel, de reviver nossos piores traumas e dores, unicamente por ter medo de vivenciar algo pior, mas é justamente o medo que nos impede de viver algo melhor.

No jogo, a jornada termina quando o Peregrino finalmente compreende que ele era o criador de Duviri, quando ele finalmente recobra sua consciência e memórias, aceita seus traumas e toma controle de sua vida e mente. Assim como no mundo real, a cura acontece quando tomamos as rédeas da nossa vida, das nossas escolhas, do nosso mundo. Quando entendemos que a escuridão, o vazio e a dor são parte do que somos e não algo a ser combatido. Pois, ainda que nosso maior inimigo seja a nossa própria mente, isso não quer dizer que devemos enfrentá-la, travar batalhas intermináveis em um ciclo eterno de sofrimento. Quando combatemos a nossa escuridão, estamos apenas machucando uma parte de nós. O processo de cura passa justamente por aceitar a nossa escuridão, a dor, o vazio. Cada sentimento, seja ele bom ou ruim, existe para ser sentido e só acaba quando nos permitimos sentir. A busca pela luz não deve ser nunca a repulsa pela escuridão, ou estaríamos negando quem somos, somos luz, somos sombras. 

Ao entender a verdade, o Peregrino se liberta do paradoxo, não sendo mais caçado, não sendo mais odiado. Pois ali, ele não mais se odeia e então se torna livre. E ao se libertar, torna-se a peça chave para salvar a outra realidade, a realidade da sua versão mais nova, no universo principal. Ciente de estar no controle de suas escolhas, o Peregrino se vê livre para entrar e sair de Duviri, seu reino, seu mundo. Que representava seu passado, suas dores, suas lembranças. A depressão fez com que ele se isolasse em um outro mundo, a solidão deu vida aos seus próprios carrascos, a dor lhe manteve preso ao que o fazia sofrer. Entretanto, foi com a simples decisão de se libertar, que pôs fim à espiral.


Então, diante de tudo isso, me pego refletindo, quais atitudes tomamos que nos aprisionam e orientam a nossa dor? O que fazemos que é capaz de nos limitar de tal forma, que esquecemos até mesmo de quem somos? O sofrimento é comum, é normal e infelizmente, inevitável, mas se prender ao ciclo da dor não. É uma escolha nossa romper com o paradoxo e fugir da nossa própria Duviri. É uma escolha nossa sentir o que precisa ser sentido e depois se libertar. Afinal existe todo um universo de possibilidades, boas e ruins, fora da espiral. Um universo de oportunidades que só surgem quando acolhemos o que sentimos, acolhemos a nossa própria escuridão e assim entendemos a nossa luz. O Paradoxo de Duviri é uma metáfora sobre a depressão, ao vício em sofrer, ao medo de viver uma dor ainda pior. E a espiral só se rompe quando escolhemos, desejamos e buscamos isso. Até lá, seus executores lhe caçarão e o ciclo se repetirá dentro de você, até que você se esqueça de quão grandioso você é. Então, não está na hora de romper com a espiral e tomar controle da sua Duviri?



Gostou da reflexão? Deixe seu comentário, curte, compartilhe e leia os outros textos! Sei que minha frequência é totalmente instável, mas cada novo leitor é um grande incentivo para continuar escrevendo. E, boa sorte, Peregrino!

2 comentários:

  1. Parabéns, você escreve muito bem.
    É incrível como é fácil mergulhar no texto e sentir a emoção em cada palavra. Nunca deixe de escrever, você relata com mataria tudo que sente.
    Não é porque sou sua mãe que vou deixar de reconhecer e divulgar seu talento.
    Sou sua fã desde aquele primeiro livro em 1998.

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    1. Obrigado, minha mãe. Seu apoio sempre será a coisa mais importante pra mim.

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