Por Guilherme César
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ALERTA DE SPOILERS: O texto abaixo contempla todo o primeiro jogo e primeira temporada de “The last of Us”, assim como os dois primeiros episódios da segunda temporada. Além de citar de forma mais contida alguns pontos relacionados à música “Future Days”, presente no segundo game.
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O segundo episódio da segunda temporada de The Last of Us caiu como uma bomba, impactando profundamente não só quem apenas assistia a série, mas também quem já havia vivenciado toda a história daquele universo nos games. Porém, não estou aqui hoje para fazer uma análise crítica do episódio ou até mesmo dos jogos, desta vez o foco é ir um pouco mais a fundo em um personagem e sua história, uma singela reflexão. Hoje falaremos sobre Joel e como a música “Future Days” foi usada de forma tão magistral na segunda parte da narrativa.
Durante a semana que se seguiu ao famigerado 2x02 da série da HBO, era inevitável que não surgissem na timeline vídeos com o trecho de Joel cantando a música da banda Pearl Jam, algo que na época do lançamento do segundo jogo já foi inesquecível e agora retomou sua força. Eu, que antes de jogar não conhecia a canção, fiquei totalmente encantado por sua melodia e letra, fazendo com que ela não saísse mais da minha playlist. Então, rever (e ouvir) essa junção perfeita de trilha sonora e game me impulsionou a refletir mais sobre o quão acertada foi a escolha da música e como ela ilustra o “herói” desta narrativa. Assim, para começar, primeiro precisamos repassar quem é Joel Miller e qual a sua história na primeira parte do aclamado game.
The Last of Us é um jogo pós-apocalíptico que mescla elementos de ação, furtividade e terror, lançado em 2013, contendo dois protagonistas em sua primeira parte (foco deste texto), Joel e Ellie. Nos primeiros minutos somos apresentados ao protagonista e sua filha Sarah, que dá de presente um relógio ao pai por seu aniversário, que ela havia levado para consertar. Ali vemos um pouco da relação de ambos, um pai solteiro e sua amada filha, vivendo de forma tranquila e normal. Contudo, subitamente somos levados ao caos, quando o surto do fungo Cordyceps começa a transformar os humanos em monstros, que de forma implacável devastam o mundo. Os Miller, junto de Tommy, irmão do protagonista, fogem desesperadamente, enquanto vemos ruas sendo destruídas, casas em chamas e pessoas sendo atacadas. Sarah acaba se machucando e Joel precisa carregá-la e quando finalmente eles chegam em uma área segura, ambos são confrontados por um soldado, que acatando ordens superiores de conter qualquer possível infectado, atira sem piedade. A garota morre nos braços do pai, em uma cena pesada e dolorosa. E é aí que o jogo começa.
Vinte anos se passam e agora temos um Joel mais sério, quebrado e solitário, vivendo como uma espécie de mercenário e contrabandista em uma zona segura, controlada pelo exército. O mundo foi completamente tomado pelos infectados, restando apenas poucas áreas fortemente protegidas. Facções surgiram e o governo já não existe mais. É neste cenário de desesperança que recebemos a missão que norteia a trama. Joel e sua parceira Tess, são “contratados” por Marlene, líder de uma facção chamada Vagalumes, para levar um pacote até um dos refúgios do grupo, bem longe dali. O pacote é Ellie, uma garota que mais a frente descobrimos ser imune a infecção, sendo potencialmente a cura para toda a situação. Joel recusa, mas por fim acaba seguindo a missão e assim desenrola-se o game, com a relação entre os dois se desenvolvendo pouco a pouco. No início, o homem rejeita a adolescente, com diálogos curtos e secos, mas depois de meses juntos na estrada, a relação deles amadurece e Joel passa a enxergar Ellie como uma filha. E quando isso ocorre, eles chegam até os Vagalumes, onde a jovem seria usada para produzir uma cura, entretanto, o nosso protagonista descobre que o processo envolvia matá-la. A decisão do contrabandista é clara, ele se rebela e mata diversos membros da facção, incluindo o médico e salva a adolescente. Terminando assim o primeiro game.
Este longo resumo é apenas o nosso ponto de partida, então agora, situados na narrativa, vamos para a música. “Future Days”, da banda Pearl Jam, foi lançada também em 2013 e sua letra fala sobre uma pessoa quebrada que reencontra a esperança ao conhecer alguém especial. A canção foi escolhida para a sequência do jogo, aparecendo em diversos momentos e sendo um ponto de conexão entre os protagonistas, mas principalmente, ao meu ver, ilustrando todo o peso que Joel carrega.
“Future Days” começa ressaltando que o eu lírico não seria capaz de suportar a dor de perder quem ele ama, “Se por acaso eu te perdesse, eu com certeza perderia a mim mesmo”. Exatamente o que aconteceu com o patriarca dos Miller, que ao perder sua amada filha, tornou-se um homem sem esperança, frio, quebrado. Que para sobreviver no mundo devastado precisou matar, roubar e se distanciar emocionalmente de qualquer um ao seu redor. É assim que conhecemos Joel, um indivíduo que se perdeu completamente e que agora busca apenas sobreviver. A música continua dizendo que “...há um tempo, quando eu estava me sentindo quebrado, eu me concentrei em uma oração. Você veio do fundo do oceano. Alguma coisa lá fora ouviu?...”. Aqui temos o surgimento de Ellie na vida do protagonista, que agiu como uma ponta de esperança, resgatando a humanidade já esquecida dentro de si.
É na figura da garota, que Joel enxerga uma chance de se reconectar a Sarah, de novamente ser um pai e de amar outra vez. Pouco a pouco, Ellie une as peças deste homem quebrado, fazendo com que ele finalmente fale sobre a morte de sua filha, escolhendo superar o luto, escolhendo se abrir. Em determinado momento temos a confissão de que o homem sonhava em ser cantor (algo extremamente importante para a presença das músicas no segundo game), demonstrando que naquele ponto toda a sua defesa já estava no chão. A música prossegue falando sobre o caos, sobre todos os problemas enfrentados pelo eu lírico e em como eles aproximam-no da pessoa amada. Ilustrando as dificuldades presentes no jogo e que uniram os protagonistas.
Isso nos tornou cada vez mais próximos
Todas as promessas feitas ao pôr do Sol
Eu as fiz de coração, assim como o resto
Todos os demônios que costumavam nos rodear
Sou grato agora que eles nos deixaram…”
E assim como a música no início se encaixa com a história de Joel e Sarah e como o pai se perdeu quando a filha morreu, aqui, de forma cíclica, vemos ela se conectar com Joel e Ellie e o fim do primeiro jogo, quando de forma brutal o protagonista massacra a facção para resgatar sua nova filha. Um ato que muitos podem enxergar como egoísta, afinal ele optou por salvar ela e não pela chance de uma cura para o mundo, mas que é totalmente baseado no medo de perder, como mostrado no primeiro trecho da música. Afinal, se ele a perdesse, também se perderia no processo.
Joel perdeu tudo e a si mesmo. Passou por décadas distanciando-se emocionalmente dos outros, buscando apenas sobreviver. Quando finalmente reencontrou sua esperança na figura de uma filha adotiva, nada mais lhe importava. Pois já lhe era conhecido o inferno, a dor de perder alguém e o medo de revisitar aquele local, de reviver aquele ciclo de sofrimento mostrou-se incabível. Quem seria capaz de sacrificar quem mais ama por um bem maior?
“...Tão persistente nos meus caminhos
Ei, anjo, estou aqui para ficar
Sem resistência, sem sustos
Por favor, isso é bom demais para ir embora…”
E assim Joel e Future Days se entrelaçam, com a canção agindo como um mergulho dentro da alma do protagonista. Sua esperança vivia naquela que curou seu coração quebrado e depois de enfrentar tanta dor, tanto caos, ele não estava disposto a perder novamente. A dor da perda só não é pior do que o desespero de voltar a perder alguém que amamos. Tudo se intensifica ainda mais quando nos referimos a um pai que perdeu sua filha. Salvar Ellie foi a forma de Joel evitar que tudo se repetisse, foi a sua maneira de fazer pela adolescente o que não foi capaz de fazer por Sarah. Salvar Ellie foi salvar a si mesmo, tal como Future Days nos conta, pois perdê-la, seria perder a si próprio.
É inegável o quanto uma boa trilha sonora engrandece uma história e ao meu ver, a escolha da canção da banda Pearl Jam foi feita de forma magistral. Ela não só nos faz mergulhar nos medos, anseios e memórias de Joel, fazendo com que possamos entender e até simpatizar com as escolhas dele, quanto também serve para nortear toda a narrativa do segundo jogo, quando Future Days se entrelaça da mesma forma com os sentimentos da própria Ellie, que também passa a entender que perder alguém seria perder a si mesmo.
Obviamente, numa visão mais racional, sabemos que depositar em alguém tanto, pode ser extremamente arriscado. As pessoas se vão, infelizmente, e cabe a nós aprendermos a lidar com a perda. Ainda assim, que atire a primeira pedra aquele que não sofreu ao perder uma pessoa querida, que lhe era fonte de luz e esperança. Future Days fala sobre essa dor, sobre como ela pode nos quebrar, mas também que é possível reencontrar a esperança. Tal como The Last of Us nos mostra as consequências da perda e a busca por se curar. Ellie, que para a humanidade era a possível cura para a infecção que devastou o mundo, para Joel foi a cura de toda a dor que ele viveu.
É de arrepiar como a escolha da trilha sonora foi tão perfeita e como as músicas são um fio condutor para a trama do segundo jogo. Sempre existirão reclamações, falhas e pontos que não agradam a todos, mas é inquestionável o quão profundamente The Last of Us consegue nos impactar, despertando intensas emoções, algo que a série também tem feito de forma excepcional. Que venham mais histórias como esta e com elas, mais reflexões.
E para você que ainda não conhece a música tão citada aqui, deixarei abaixo a canção original e a versão cantada na voz de Joel. Aproveite e até o próximo texto!
Future Days - Pearl Jam: https://www.youtube.com/watch?v=jDyI40xHBAw
Future Days - Joel: https://www.youtube.com/watch?v=pxPbZ-dogT8





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