Por Guilherme César
Muitas
vezes é complexo compreender as razões de certas atitudes humanas, certas
escolhas infundadas, certos pontos de vista. Não cabe a nós julgar, pelo menos
é o que dizem, afinal não estamos dentro da mente do outro para entendê-lo.
Porém, e quando são as suas atitudes? Quando é você, apenas você, se encarando
frente ao espelho e tentando entender a lógica de algumas de suas ações que se
mostram no mínimo controversas? Pois é, esse é o tema do texto que se segue.
Não um texto que fala do primo da namorada de um amigo meu, mas sim das minhas
atitudes, no caso, uma em especial, a de me isolar.
Em algum
momento você já preferiu ficar sozinho? Se esconder no conforto de seu quarto,
no silêncio, no escuro, apenas para poder se dedicar ao seu próprio emaranhado
de pensamentos? É algo bastante positivo, de fato, todos precisamos de um tempo
só para nós, um tempo para refletirmos nossas ações, nossos próximos passos.
Mas e quando você não gosta de ficar sozinho? Quando você teme a solidão? Seria
uma forma de tortura?
No meu
caso, creio que não. E também não possuo o tal medo de ficar sozinho em casa e
sim, o medo de ficar sozinho para sempre. Já ouvi diversas vezes uma frase que
acredito ser uma verdade indiscutível, “ninguém nasceu para ficar sozinho” –
exceto o pessoal que realmente mora nas cavernas ou florestas e vive sozinho
por opção. Precisamos de companhia, gostamos disso. Por mais que você diga o
contrário, sempre quer alguém com quem conversar, naqueles momentos de
tristeza, certo? Ou simplesmente para rir, contar uma novidade, uma história
idiota, ou até mesmo para assistir um filme. Por mais frio e solitário que você
seja, a companhia de alguém é algo que muda a sua vida. Creio eu, que pessoas
frias e solitárias na verdade não conseguem mais confiar em alguém para
preencher seu vazio e por isso se isolam. Novamente, esse não é o meu caso.
Embora eu
seja um cara tímido desde que me entenda por gente e tenha dificuldades para
iniciar uma conversa, depois de um primeiro movimento eu consigo perder tal
timidez. Por muito tempo, após ganhar o primeiro “oi” de uma pessoa eu a
bombardeava com os mais diversos assuntos, lhe dava toda a atenção, conselhos,
carinho, de maneira aberta e cordial, pois acreditava que esse era o caminho
mais rápido para se fazer um amigo. E também que dar atenção era a melhor forma
de tentar recebê-la. Muitas dessas vezes eu era então ignorado, respondido de
forma lacônica ou às vezes até rejeitado. Tudo pelo simples fato de tentar dar
atenção a alguém. Comecei então a analisar, como sempre, as minhas atitudes
vistas de fora e percebi que eu poderia estar me comportando de forma chata,
afinal a pessoa dava claros sinais de não querer conversar, mas eu, inutilmente
insistia. Foquei então naquilo que chama de “orgulho próprio” e decidi parar de
insistir em conversas que não dão frutos. Parei então de chamar as pessoas para
conversar, de puxar papo, de chamar para sair, de tentar ser amigo. Deixei que
a situação se invertesse e que as pessoas me procurassem, afinal, se o
fizessem, mostrariam que se interessam em conversar e eu não precisaria me
humilhar me esforçando em manter viva a conversa. Foi aí que o comportamento de
me isolar teve seu inicio.
Ninguém é
obrigado a conviver conosco 24 horas por dia, tão pouco viver sua vida em nossa
função. Logo, seus melhores amigos terão melhores amigos, os círculos se expandem,
afinal cada integrante do seu circulo de amizade possui um próprio circulo e
assim sucessivamente. Nesse emaranhado de círculos o tempo vai ficando escasso
e as pessoas começam a sumir. São engolidas por sua rotina, - trabalho, família,
amigos, relacionamentos- e eventualmente somem. Deixam de ser suas amigas?
Talvez, ou apenas se afastam por falta de tempo. E você? Procura novos amigos
ou espera os antigos? O certo seria ampliar seus horizontes, conhecer mais
gente, se esforçar para ter companhia, principalmente quando se possui um medo
extremo de terminar a vida sem amigos. Bom, eu não.
Sempre tem
alguém reclamando que eu sumo, não puxo papo, não me esforço para ser amigo,
quando na verdade é o contrario. Eu sempre estou disponível para qualquer
pessoa, para ajudar, rir, dar conselhos, contar histórias ou passar o tempo. Mas
simplesmente não vou atrás de ninguém. E quando vou, pode se considerar alguém
muito, muito, muito importante.
É um fato,
eu não quero que meus amigos se afastem de mim, eu quero fazer milhares de
amigos e quero ter relacionamentos duradouros. Eu me apavoro só de me imaginar
sozinho e a maioria dos meus poemas falam sobre solidão. Mas eu evito grupos,
evito em aproximar, evito me humilhar. Orgulho? Sim, mas também medo. Medo de
ser rejeitado, medo de ser abandonado, medo de ficar sozinho. “Não roube minha
solidão se não pretende ficar”, essa frase se tornou quase um lema para mim e,
se for parar para pensar, ela é totalmente enganosa. Ela serve sim como um
mantra contra pessoas superficiais que surgem em nossas vidas e desaparecem no
ar, mas de fato não é uma verdade absoluta. Inevitavelmente as pessoas que
conhecemos irão embora, seguiram por caminhos opostos aos nossos, morrerão,
terão suas famílias, não terão tempo. E nós? Talvez estejamos destinados a
ficar sozinhos, mas qual o motivo de nos isolarmos? De criar um muro a nossa
volta? De ter tanto medo de rejeição?
Certas
feridas demoram muito tempo para cicatrizar, certas pessoas surgem com a falsa imagem
de serem um balsamo, mas acabem sendo apenas um novo golpe no mesmo local
machucado. Não podemos prever, não podemos evitar, ou podemos? Talvez me isolar
me poupe da dor de ser rejeitado, de sofrer com a instabilidade humana, com a
facilidade das pessoas de se apegar, jurarem amor eterno e depois sumirem do
nada. Mas me isolar não me protege da solidão, dos momentos de carência, dos
momentos em que precisamos de alguém para conversar, das vezes que só queremos
um abraço para nos confortar. Tenho medo também de ser isolado, ignorado, das
pessoas se afastarem. Contudo, o que de fato estou fazendo para impedir elas de
irem embora?
No fim,
devemos perseguir a linha tênue que existe entre se esforçar “psicoticamente” e
não se esforçar. Se queremos evitar a solidão, precisamos sacrificar o orgulho
e fazer as pessoas que amamos entenderem que a queremos perto, na medida certa,
sem invadirmos o seu espaço. Tudo se resume nessa pequena linha, nesse pequeno
ponto de equilíbrio. E por isso, é tão difícil não ser contraditório, é tão difícil
não errar naquilo que se escolhe. Às vezes nos tornamos a própria contradição,
por medo de nos contradizer. Quando temos em ambos os caminhos algo que
tememos, precisamos arriscar naquilo que tememos menos. Precisamos arriscar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário