segunda-feira, 1 de setembro de 2014

[+18 ] ILUSION: ÚLTIMO CAPITULO

Por Guilherme César

Verdades Ilusórias




            Talvez uma das coisas que mais doí em uma pessoa é ser ignorado, ser deixado de lado por quem se tem afeto. Quando somos ignoramos pela pessoa que gostamos conseguimos ir ao fundo do poço, imaginando o que fizemos de errado, o que foi a causa daquilo. O desprezo está no topo da lista de atrocidades psicológicas que podem ser feitas com alguém. E é de longe a que tem o efeito mais rápido.

Dois dias se passaram desde que vi Crystal com o suposto novo affair. Mesmo me sentindo traído, me sentindo enganado, eu precisava de explicações, precisava entender o que estava acontecendo. Sentia que aquela situação já havia ido longe demais e precisava conversar com a garota da ficção, uma conversa definitiva. Se ela me amava tanto quanto dizia –mesmo que eu duvidasse disso agora- ela devia ficar comigo, se não, me deixar ir de uma vez por todas. Ela me puxou para o caos que era sua vida, agora tinha que escolher, e se fosse o caso, me deixar livre para ir embora. Sofrer daquela forma por alguém era insano e eu já não estava disposto a deixar aquela dor continuar.
Na quinta-feira acabei enviando um sms dizendo que precisávamos conversar. Fui ignorado. Na sexta liguei e ela não atendeu. Em ambos os dias vaguei pela faculdade durante o intervalo e não a encontrei de novo. Me sentia mais idiota ainda por ter corrido atrás de uma garota que visivelmente estava me ignorando. Mas era impossível para mim deixar algo terminar daquela forma, sem um devido ponto final. Talvez esse fosse o meu erro, nunca desistir de algo até que tudo tenha sido dito e feito. Ou talvez fosse apenas uma tentativa frustrada de ficar com ela, eu de alguma forma me humilhando mais uma vez, lhe dando a chance de me enganar uma última vez.
Fazia pouco mais de meia hora que eu havia chegado da faculdade. Estava no sofá assistindo TV, mudando de canal a procura de algo interessante naquela sexta-feira. Foi então que a campainha tocou. Me levantei com um salto, intrigado com quem poderia ser naquele horário. A primeira pessoa que imaginei foi Crystal, vindo finalmente esclarecer tudo. Abri a porta e me deparei com uma pessoa um pouco menor que a garota da ficção.
—Dan, eu preciso lhe mostrar algo. —disse Isis bastante eufórica.
Ela estava incrivelmente bonita naquela noite, usava um tipo estranho de short que mais parecia uma saia, além de uma regata branca e um casaco social. Sua boca destacada pelo batom vermelho.
—Que foi, Isis? –indaguei a observando entrar no apartamento. Fechei a porta logo em seguida. — O que aconteceu?
—Estou te ligando faz horas, onde você se meteu? —ela parecia desesperada.
—Uai, eu estava na faculdade. —coloquei a mão no bolso e retirei o celular. Vi então que a bateria tinha acabado e eu nem havia percebido. — A bateria acabou, mas por que você está tão desesperada?
—Eu descobri algo que vai te fazer odiar a vadia da Crystal. —aquela frase conseguiu gelar meu estômago.
—Que merda você está falando? —indaguei com os olhos arregalados. Isis se sentou no sofá grande. — O que você fez?
—Sente-se. —ela fez um gesto me chamando para sentar ao seu lado, quando o fiz ela retirou o celular da bolsa. — Tenho que te mostrar algo.
Isis colocou o celular para reproduzir uma gravação, uma conversa que ela tivera. Ali pude ouvir a voz de Victória, amiga de Crystal. A cada frase eu me espantava mais. Isis explicou o que havia feito e o porquê tinha feito. Tudo para me mostrar a verdade sobre a garota da ficção.
Meu coração já não batia mais. Eu estava em choque. Tentei digerir aquelas informações. Me levantei e comecei a caminhar de um lado para o outro. Não podia ser verdade, ela tinha mentido para mim o tempo todo? Nunca existiu nenhum casamento, ela tinha traído o namorado comigo e precisou consertar a merda que fez. E o amor que tinha dito sentir por mim, também era uma ilusão?
            —Por que ela fez isso? —balbuciei apoiando minhas mãos na parede.
            Não entendia qual era a intenção dela com aquilo tudo. Me manipular, brincar com os meus sentimentos? Se divertir? Ela tinha dito que me amava, tinha chorado nos meus braços. A troco de quê? Tudo apenas para exaltar seu ego? Apenas para matar o tempo? Eu havia sido usado desde o inicio e por estar vulnerável acabei me apaixonando.
            —Eu sou um idiota. –murmurei.
            —É sim. –Isis concordou se levantando e colocando a mão sobre meu ombro. — Mas você não teve culpa. Seu único defeito é ser tão intenso, amar de forma tão forte. Você se entrega, sente, busca o máximo de cada sentimento. Por isso fica vulnerável a esse tipo de gente. Pessoas frias que não se importam com o coração dos outros.
            —Eu me sinto um lixo. —me virei olhando para Isis, uma lágrima escorreu de um dos meus olhos para cair do queixo rumo ao chão. — Me sinto um tolo por ter sido usado dessa forma.
            —Você não é um lixo, você é um diamante. — ela me abraçou de forma carinhosa. — Só ainda não aprendeu a se valorizar, a se amar. É isso que você precisa, amar a si mesmo dessa forma intensa que só você consegue. Aceitar quem você é.
            —Obrigado por tudo, pequena. —agradeci contendo as lágrimas e apoiando meu queixo no topo da cabeça de minha pequena amiga.
            —Eu só fiz o que sei que faria por mim. – Ela se afastou um pouco, ainda abraçada e me olhou curiosa. – E o que pretende fazer agora?
            —Tenho que procurá-la. —respondi levantando meu olhar e olhando para o vazio.
            —Você enlouqueceu? —Isis se afastou mais saindo do meu abraço e me deu um soco no braço. — Depois de tudo isso ainda vai procurar a vadia?
            —Vou. —olhei para Isis que parecia furiosa. — Vou dar a ela uma última chance de ser honesta, de mostrar quem ela é.
            —Idiota! —Isis gritou erguendo o punho e tentando me atingir com um soco no rosto. Fui mais rápido e consegui segurar seu braço antes. — Você não aprendeu nada com isso?
            — Aprendi, que devemos ser honestos sempre. —soltei seu braço lhe olhando com firmeza. — Não irei dar a ela outra chance de ficar comigo, irei apenas dar a ela a chance de me contar a verdade. E independente do que acontecer, irei embora sem olhar para trás.
            —E abandonar a garota que ama? —Isis estava revoltada. — Esse não é o Daniel que conheço, você vai acabar dizendo que gosta dela e sendo iludido de novo.
            —Obrigado por sua confiança e por acreditar no meu potencial. —retruquei me sentando no sofá. —Depois do que acabei de ouvir nunca seria capaz de dar outra chance a ela. Vou apenas colocar um ponto final em tudo.
            —Como? —Isis se aproximou curiosa e se sentou ao meu lado.
            Dei um meio sorriso e disse que manteria em segredo. Apanhei um pouco por isso, mas sabia que era melhor agir em silêncio, da minha forma. Isis pediu que eu não contasse a Crystal sobre as coisas que Victória havia dito. Ela não queria prejudicar a garota, que de certa forma era inocente naquilo tudo. Eu prometi que não o faria e ficamos ali conversando por mais algum tempo, até que minha pequena amiga decidiu ir embora, afinal estava ficando muito tarde. Sugeri que ela dormisse no meu apartamento, mas Isis disse que eu precisava pensar no que faria e que deveria fazê-lo sozinho. Fiz questão de lhe pagar um taxi e a agradeci novamente por ter me ajudado.
            Passei o resto da noite imaginando como encontraria a garota da ficção e me preparando para o que viria a seguir. Finalmente as peças tinham se encaixado. Crystal tinha sumido por causa do namorado, eu era apenas uma diversão que acabou se tornando algo mais sério. Talvez eu tivesse sido uma desculpa que ela usara para terminar depois. Ela estava infeliz em seu relacionamento e ficar comigo foi a forma de se sentir melhor. Talvez não esperava que eu me apaixonaria tão rápido. Entretanto, já não fazia diferença. A única peça que ainda faltava era a que continha a resposta da pergunta mais importante até então.... Crystal realmente me amava?
            Na manhã seguinte, logo cedo fui até o prédio onde ela morava. Sabia que ligar não adiantaria e eu precisava olhar em seus olhos ao ouvir suas palavras para dessa vez, ver se aquilo era apenas uma ilusão. Saí do elevador às pressas e toquei a campainha da República Carpe Diem. Infelizmente quem atendeu a porta não era quem eu esperava.
            —Magrelo? Isso não é hora de visitar alguém no sábado. —disse Victória esfregando os olhos, seus cabelos bagunçados. Ela usava um pijama com estampa de urso e mais parecia uma criança que tinha crescido demais.
            —Bom dia, Vic. —tentei não rir da cara de sono dela. — A Crystal está?
            —Não. –Victória bocejou— Ela foi correr, como todos os dias desde que se mudou para cá.
            —E você sabe onde ela corre? —indaguei.
            —Ela costuma ir ao Parque Central, deve estar lá agora.
            —Obrigado! –agradeci me virando e me preparando para correr. — E desculpe incomodar.
            —Que seja. —Victória acenou. — Se cuida, magrelo.
            Corri pelo saguão do prédio e fui o mais rápido que pude para o Parque Central, que ficava algumas quadras dali. Dessa vez eu precisava ter a sorte de encontrá-la. Não queria adiar mais aquela conversa. O vento frio tomava conta das ruas, agitando as árvores e fazendo as pessoas se encolherem, na tentativa de se aquecer. Olhei para o céu cinzento, cada vez mais escuro. Uma tempestade estava por vir.
            Entrei no parque e segui pelo caminho principal, de pedras. Levaria mais de meia hora se fosse andar por todo o parque, precisava ter a sorte de encontrar Crystal antes que ela saísse dali. Foi então que a imagem do sonho que tivera tempos atrás me veio em mente. Uma súbita vontade de ir até aquele lugar tomou conta de mim. Algo me dizia que Crystal estaria ali. Caminhei pelo gramado cortando o parque na diagonal e indo até o local exato do sonho. Depois de passar por algumas árvores avistei uma garota usando roupas de ginástica, caminhando rumo a saída ao leste do parque. Lá estava ela. Me aproximei por entre as árvores e cheguei até o caminho de pedras, alguns passos atrás dela.
—Crystal! –chamei me aproximando. Ela se sobressaltou e retirou os fones do ouvido, se virando e me encarando.
 —Me seguindo, criança? —murmurou erguendo uma das sobrancelhas.
—Precisamos conversar. –ignorei sua pergunta.
—Já não estamos conversando? –ela estava ainda mais irritante. Como quando brigamos pela primeira vez.
—Você nunca consegue conversar com seriedade? –questionei revoltado.
—Não sei, talvez. – esquiva como sempre.
—Quem era aquele cara? –comecei.
—Um amigo. —ela respondeu de forma seca.
—Você beija a boca de todos os seus amigos?
—Eu não o beijei. –respondeu. Sua voz firme, seu olhar vazio. — Pare com esse ciúmes sem noção.
—Ciúmes? —não podia me descontrolar. – Acha que isso é ciúmes?
—Sim, é. –ela me encarou. — Você está sendo infantil, eu não tenho nada com ele. E mesmo se tivesse, eu e você estamos em um relacionamento aberto, eu posso me envolver com quem eu quiser.
 —Relacionamento aberto? —ela só podia estar brincando. —Eu não fui avisado sobre isso.
—Sim, estávamos, mas você estragou tudo com esse ciúmes. —sua frase ecoou em minha mente, Eu havia estragado tudo?
—Crystal, você tem me evitado, disse que queria ficar comigo, mas desapareceu. —argumentei tentando não me exaltar. —Fui eu quem estragou tudo? Você estava me ignorando.
—Eu só não queria te magoar. —finalmente começou a dizer a verdade. — Eu gosto muito de você, mas precisava colocar minha vida em ordem. —desviou o olhar, fazendo uma pausa. — Por isso te ignorei.  
 —Você me deu esperanças e depois as tomou sem pensar que eu poderia sofrer. —o baque de sua afirmação havia me atingindo forte. – Para onde foi todo aquele amor que te fez terminar o noivado?
—Eu quero ser livre, Dan. —a chuva começava a cair. – Eu só quero viver minha vida. Não estou preparada para viver com alguém.
—Isso é tudo que você tem a dizer?—indaguei lhe dando a última chance de ser sincera. — Essa é toda a verdade sobre você?
Crystal ficou em silêncio por alguns segundos, a chuva caindo sobre nós, fria como aquele momento. O desejo, o amor, as lembranças, tudo havia sumido. De alguma forma eu consegui enxergar aquela cena como se assistisse a um filme, vendo de fora do meu corpo. Pela primeira vez pude entender o que se passava dentro da mente da garota da ficção de forma clara. Aquele era sim o fim.
—Sim, Daniel. —seus olhos fixos nos meus, podia ver a verdade dentro deles. — Eu só quero ser livre.
—Então seja. —balbuciei depois de finalmente entender o mistério por trás daquele olhar. — Mas não me procure mais. Acabou. Existe um limite para fazer alguém sofrer e você extrapolou o seu. Vá embora e me deixe livre também.
—É isso que você quer? –ela indagou com sua voz suave.
—Sim, sem arrependimentos. —respondi firme, o frio da chuva tomando conta do meu corpo, minhas roupas já estavam pesadas, por estarem molhadas. — Eu não vou dizer que irei esquecer o que vivemos, não vou dizer também que guardo alguma mágoa de você. Eu simplesmente quero seguir em frente, quero viver sem estar sentindo a sua falta.
—Tudo bem, Daniel. —Crystal abaixou a cabeça. — Se essa é a sua escolha. Vai ser melhor assim.
—Eu sei que vai. —me virei e me preparei para ir embora. — Adeus, Crystal, agora de uma vez por todas.
—Adeus, criança. —a ouvi dizer, então comecei a caminhar.
A chuva molhando meu corpo, lavando minha alma. Senti a dor se dissipando aos poucos, enquanto ouvia o som das gotas se chocando com o chão. Finalmente tinha entendido o que se escondia por trás da imensidão daqueles olhos castanhos. Ali se encontrava um vazio tão profundo quanto o que eu sentia. Um vazio repleto de solidão. Não haviam mistérios a serem descobertos, eram uma mera ilusão. Não haviam segredos ocultos, apenas escuridão. Crystal mascarava sua alma vazia com mistérios falsos, com atitudes corajosas. A garota da ficção era uma menina comum, que queria atenção, que queria ser vista. Talvez o relacionamento com o pai a tenha deixado frustrada e essa frustração a fez agir daquela forma. Ansiando por uma falsa liberdade, por uma falsa felicidade.
Crystal queria apenas exaltar seu ego conquistando as pessoas ao seu redor. Manipulando, dominando, iludindo. O simples fato de me chamar de criança sempre evidenciou isso. Ela queria se sentir superior, se sentir acima de todos. No fundo ela era sim uma garota frágil. Tinha fraquezas, tinha medos, queria ser protegida. Mas seu ego, seu orgulho e sua falsa atitude a impediam disso. Impediam que ela conseguisse encontrar algo real, alguém que pudesse finalmente retirá-la de dentro da escuridão do seu olhar. Uma garota acuada em um canto escuro dentro de si mesma, sem forças para aceitar que precisava ser salva.
Durante todo o tempo que a conheci, Crystal foi para mim como uma miragem. Um oásis que se destaca no deserto. Uma chance rara de sobreviver. Eu que estava fraco, vulnerável, acabei sendo enganado pelo calor do sol e clamando por água fui iludido pelo deserto. Finalmente eu havia compreendido e um peso desaparecera das minhas costas. Eu fui ingênuo, mas também aprendi muito. Aprendi que cabe apenas a mim, tornar minha vida mais interessante. Eu sou o responsável por tudo que acontece comigo, são as minhas escolhas que me guiam. Crystal havia conseguido me mudar, me tornar mais forte. Eu precisava agora provar isso, esquecendo-a de vez.
           
            “... E no fim, nós somos os autores da história de nossas vidas. Escrevendo a tinta sem poder apagar, ou rasgar as folhas. Sabendo apenas que devemos aprender com os erros que cometemos. Assim como eu aprendi muito com a garota da ficção. “
           
E com essa última frase completei o último paragrafo do que fazia dias que estava escrevendo. Voltei até o inicio do caderno, onde na primeira folha havia escrito em letras garrafais “Illusion”.
—Ilusão... —murmurei me lembrando da tradução daquela palavra. Peguei a borracha e apaguei o segundo L, deixando-o quase completamente apagado. — E que só aqueles que forem capazes descubram o que está escondido na minha ilusão.
Afinal, nunca se saberá o que é verdade e o que é ilusão. Apenas teremos a certeza que no fim, nada foi em vão. Fechei então o caderno de capa preta dado a mim por Camila, ali encontrava-se o meu primeiro roteiro. A minha própria história, dedicada a minha pequena irmã, que iluminou meu caminho. E eu torcia para que um dia, aquela singela história, sobre um garoto que sofreu por amor, pudesse tocar o coração de alguém, ensinando a todos, que não importa o quão forte seja a ilusão, ninguém nunca morre de amor.

FIM

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Epílogo

Faziam três meses desde a última vez que vi Crystal no Parque Central, naquela manhã chuvosa de sábado. Depois disso Isis acabou ficando amiga de Victória, mesmo que a garota ainda achasse que minha pequena amiga a queria. Isis nunca lhe contou sobre mim, evitando confessar que a usou em seu plano de descobrir a verdade sobre Crystal. Victória, em uma das conversas com Isis lhe contou que Crystal havia ido embora da cidade. A garota da ficção largara o curso que fazia e decidira sair pelo mundo, realizando seu sonho de ser livre. Victória continuava morando no luxuoso apartamento, no qual sua amiga havia lhe permitido ficar.
Meu livro estava prestes a ser publicado e eu estava escrevendo cada vez mais. Suzane persistia insistindo que eu me tornasse um escritor efetivo da revista. Meus textos fizeram muito sucesso entre os leitores, o que atraiu mais assinantes. Novos projetos estavam surgindo e eu estava prestes a terminar meu último mês na livraria. Depois de uma proposta irrecusável decidi abrir mão do meu emprego para ser efetivado na Poetizar, ganhando o dobro do salário atual.
Minha querida livraria estava crescendo e iria passar por reformas de ampliação no prédio. Carla decidiu entrar de férias e nomeou Yara como gerente substituta. O que parecia ser o fim da paz ali acabou trazendo mudanças boas. Yara não deixou o poder lhe subir a cabeça e agora que estava noiva de André, ela vivia feliz. Sua principal mudança como gerente foi implementar a utilização de som ambiente na livraria, espalhando caixas de som pelo lugar. Agora durante todo o dia músicas tocavam em um volume baixo, apenas para animar mais o local. Isso atraiu ainda mais os jovens leitores, que passaram a frequentar mais a livraria.
Me preparava para ir arrumar uma das estantes quando uma mulher entrou pelo porta da livraria. Como da ultima vez que estivera ali ela falava freneticamente pelo celular. Ao seu lado estava um pequeno garotinho de cabelos loiros que logo tratou de soltar sua mão e começar a correr pela livraria, atraindo olhares preocupados de todos os funcionários. O pirralho do dinossauro estava de volta. Ele corria por entre todas as estantes, enquanto sua mãe estava distraída ao telefone, olhando livros em uma estante qualquer.
Caminhei pela livraria bem devagar, esperando pelo instante certo. Sabia exatamente o que fazer. De repente ouvi o som de passos rápido vindos à minha direção e saindo de trás de uma das estantes a minha frente surgiu o garoto do dinossauro. Apenas sorri quando ele correu na minha direção, pronto para passar por mim. No instante em que foi passar eu estiquei levemente o meu pé, tocando seu tornozelo e o fazendo se desequilibrar. Pela velocidade que ele estava o estrago seria feio e provavelmente ele derrubaria uma das estantes. Estiquei agilmente meu braço para trás e agarrei na gola de sua camisa, puxando-o para trás e o impedindo de cair. Claro que usando mais força que deveria. O segurei pelos ombros e o coloquei de pé. Nesse instante sua mãe se aproximou correndo, xingando o garoto.
—Tente não correr assim de novo, criança. —murmurei com um olhar maligno segurando os braços do garoto. — Você pode acabar esbarrando em alguém.
—O que aconteceu, Paulo? – indagou a mulher olhando furiosa para o garoto.
—Não se preocupe, senhora. —sorri gentilmente dando alguns tapinhas no topo da cabeça do pirralho— Ele apenas tropeçou e quase caiu. Por sorte o segurei a tempo. Ele é um garoto sortudo, mais um pouco e ele poderia ter quebrado um braço. —olhei novamente com um olhar maligno, levantando uma das sobrancelhas para o garoto que engoliu seco.
—Paulo, você tem que tomar mais cuidado. –a mulher segurou o garoto pelo braço que estava sem fala de tão assustado. – Da próxima vez vou te deixar na casa da sua avó. Me desculpe, moço.
—Não se preocupe, senhora. —voltei a sorrir enquanto a mãe arrastava o pirralho pelo braço indo embora da livraria.
—Mãe, a casa da vovó não. —ele se debatia chorando. — Ela me faz comer brócolis.
—Sem discussão, Paulinho. — a mãe o repreendeu. — Você me fez passar vergonha na livraria.
Eles então saíram pela porta e eu não consegui conter o sorriso satisfeito. Foi então que um barulho me chamou a atenção, livros pareciam ter caído. Caminhei entre as estantes rumo ao local de origem do som. Abaixada no chão estava uma jovem, de aparentemente vinte anos. Ela tentava pegar os livros rapidamente para recoloca-los na estante. Ao me ver ela ficou de pé rápido, me encarando envergonhada. Usava um singelo vestido azul claro, que chegava até um palmo acima dos joelhos. Era magra e seu rosto possuía feições finas. Seus olhos amendoados estavam arregalados pelo susto e ela tinha os cabelos castanhos e longos, chegando até a metade das costas. Seu rosto claro estava vermelho de vergonha. Seu rosto era lindo, de uma beleza angelical.
—Me descul... desculpe. –gaguejou segurando os livros desajeitada. – Eu sou um desastre.
Ela desviou o olhar sem graça, olhando para o chão.
—Está tudo bem. —sorri me abaixando para pegar o último dos livros que permanecia no chão. Quando me levantei a olhei nos olhos, deixando-a mais vermelha ainda. — Isso acontece sempre comigo.
—Se algum tiver estragado eu pago, sem problemas. –ela falava rápido, mostrando estar extremamente sem jeito. Sua voz era fina e meiga. — Me desculpe.
—Eii, fica calma. – olhei para os lados como se procurasse alguém, então me aproximei dela sussurrando— Veja, acho que ninguém viu. Vamos recolocar eles na estante e fingir que nada aconteceu. —pisquei então um dos olhos e a ajudei a recolocar os livros.
A jovem parecia extremamente desconfortável, mas esboçou um pequeno sorriso enquanto colocava os livros na estante, ao meu lado.
—Obrigado, moço. –ela sorriu ficando vermelha, depois que recolocamos os livros. — Você é muito gentil.
—E você parece um anjo. —deixei escapar sem querer, ficando também sem graça. Ela riu mais, seu sorriso era lindo, percebi que ela usava aparelho. — A propósito, me chamo Daniel. —sorri estendendo a mão.
—Olá, Daniel. –ela sorriu ainda sem jeito. – Me chamo Wendy... E você é o anjo aqui.
Naquele momento estava tocando no sistema de som da livraria uma música da banda Foo Fighters. Uma das minhas músicas favoritas daquela banda,Time Like This” que retratava bem o que eu sentia ultimamente. Seu refrão se destacando e ecoando pelo local.
“Em tempos assim
Você aprende a viver de novo
Em tempos assim
Você se entrega e se entrega de novo
Em tempos assim
Você aprende a amar de novo
Em tempos assim
Outra e outra vez...”


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