Por Guilherme César
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NOTA
DO AUTOR: Para aqueles que decidiram acompanhar a história, abaixo
está o PREFÁCIO, que intitulei como “Capitulo Zero”, uma pequena introdução ao
conto, espero que gostem!
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Depois de dois anos vivendo na cidade
grande, com toda essa agitação, toda rotina e todo o stress, consegui me afogar
em um mar de tédio e desânimo. Cheguei aqui com os olhos brilhando, encantado
com o mundo novo, pronto para me dedicar ao curso que sempre sonhei. Cinema,
minha paixão desde pequeno. Depois de dois anos na Universidade, os dias foram
perdendo seu brilho, a rotina trouxe consigo essa melancolia interminável e eu
comecei a clamar por algo que me devolvesse a vontade de viver.
Falando assim até pareço um velho que
já viveu de tudo, mas também não quero assumir que tenho poucas experiências.
Vinte anos, nascido em uma cidade pequena no interior do estado, minha vida não
pode ser considerada emocionante. No meio do tédio diário fiz alguns amigos,
tenho meu pequeno apartamento, –minúsculo eu diria- mas o suficiente para mim.
Meu emprego? Não poderia ser melhor, vivo no meio de algo que amo, histórias.
Trabalho em uma livraria, passo o dia lendo ou escrevendo. Não é algo ruim,
pelo menos preenche esse meu velho vazio.
— Dan! —cutucou Isis, minha pequena
colega de trabalho. — Escrevendo outro poema sobre a Isabelle?
—Não! Apenas escrevendo aleatoriamente.
—respondi olhando aquela pequena pessoa. Da mesma idade que eu, muito baixa,
olhos estreitos, longos cabelos negros, pele parda e um jeito agitado de falar.
Isis vestia a calça jeans nova que comprara na liquidação e a blusa verde musgo
com a logo da “Palavras Livres”, livraria onde trabalhamos. — Faz tempo que
parei de escrever sobre ela.
—Até que enfim! Já não era sem tempo.
— A voz fina dela ficava ainda mais aguda quando me dava broncas. Tínhamos nos
tornado amigos logo quando me mudei para a capital, mas até hoje não havia me
acostumado com a sua voz. — Já faz três meses que ela foi embora, você tem que
seguir em frente.
—Sim, três meses. —suspirei olhando
para o ventilador no teto da loja, me encostando a parede logo atrás do balcão.
Três meses antes, Isabelle, a garota
meiga, linda e gentil pela qual eu era apaixonado havia ido embora. Mudará de
país junto da família. Uma proposta irrecusável de uma vida que tinha tudo para
ser glamorosa. Eu, seu namorado há mais de um ano, decidi acabar com o
relacionamento por saber que a distância só nos traria mais sofrimento.
Acabamos brigando e perdemos o contanto antes mesmo dela viajar. Talvez a
separação tenha sido um dos motivos pelos quais me afoguei nessa tristeza sem
fim.
O som do sino na porta de entrada me
desperta dos pensamentos, alguém entrara na livraria. Dirijo meu olhar para lá
e vejo uma imagem já há tempos conhecida. Uma jovem, longos cabelos castanhos
claros com mechas vermelhas, rosto longo de traços finos, grandes olhos castanhos
e uma boca perfeitamente desenhada. Pele clara, magra e de média estatura.
Fazia já algumas semanas que a “garota da ficção” –como eu e Isis a chamávamos-
vinha até a livraria. Sempre muito calada, com seu par de fones brancos no
ouvido. Roupas típicas de quem vai se exercitar, calças pretas coladas e uma
blusa de moletom cinza, além dos sapatos próprios para corrida. Toda manhã ela
ia até a livraria, passava pela sessão reservada para os lançamentos do gênero
ficção e se sentava em uma das mesas para beber café. Ficava ali por alguns
minutos olhando pela janela, um olhar distante, perdida em seus pensamentos.
—Já não está na hora de você ir
puxar papo? —indagou Isis que me encarava enquanto eu observava a garota caminhar
entre as estantes. — Já a vi te olhando várias vezes. vá conversar com ela! Não
é estranho ela vir aqui todos os dias? Tenho certeza que vem só para te ver!
Isis estava certa. Já havíamos
trocado olhares várias vezes, mas não tinha coragem de puxar papo. Tímido,
desastrado e extremamente inseguro, era difícil para mim me aproximar de uma
garota tão linda. Seu corpo esguio tinha curvas nos lugares certos e somado as
roupas de corrida, a deixavam extremamente sexy.
—Não sei se você lembra, Isis, mas
já tentei conversar com ela! —sussurrei relembrando da tentativa frustrada de
falar com ela, na qual fui ignorado educadamente. Se é que alguém pode ser
ignorado de forma educada. — Ela parece nem saber que existo.
—Dizer “oi, o café está bom?”, é uma
péssima maneira de começar um assunto. —retrucou Isis com um sorriso debochado.
— Você devia ser mais charmoso e perguntar sobre os livros que ela lê, ou algo
do tipo.
—Corta essa! Se depender de você eu
já chego roubando um beijo. —de fato, essa era a primeira ideia que vinha na mente
da minha pequena amiga. Mesmo que ela não quisesse assumir. — Não sei como me
aproximar sem parecer um idiota, e incrivelmente sempre que chego perto dela eu
me pareço um idiota. Esquece, ela não é o tipo de garota que se interessaria
por mim.
—Pessimista! —esbravejou Isis. A
garota continuava olhando a capa de um dos livros da estante. Pude ver o nome
logo quando ela o virou, um exemplar de “Guerra dos Mundos”.
—Pessimista não, realista! —respondi
enquanto observava a garota caminhar até uma das mesas próximas da janela, logo
que sentou foi abordada pela Yara, a nossa funcionária do mês. Baixa, gordinha,
pele escura, com óculos fundo de garrafa e um sorriso sarcástico. Sempre com o
cabelo preso em um coque. Ela era extremamente obsessiva em ser a melhor funcionária
dali, o que diminuía bastante o meu trabalho e da Isis.
—Realista? Ser pessimista e se
justificar dizendo ser realista é a típica desculpa dos perdedores covardes que
tem medo de serem otimistas. —sorriu Isis se aproximando do balcão para atender
uma idosa que acabara de escolher um livro de receitas. —Um pouco de coragem
não te mataria, Dan.
Odiava quando a Isis tinha razão. Eu
era corajoso em todas as outras áreas da minha vida, menos em relação a
relacionamentos. Ultimamente, depois da Isabelle eu tinha deixado a coragem de
lado em todo o resto também. Já não estaria na hora de mudar? De ter alguns
segundos de coragem insana?
Yara acabará de anotar o pedido da
garota da ficção e já seguia até o balcão reservado para a pequena cafeteria da
loja. Eu tinha uma chance, estava na hora de arriscar e tentar a sorte. Joguei
meu caderno sobre o balcão e caminhei até a Yara. Tudo pareceu se mover em
câmera lenta, Yara pegou um pequeno pires junto a uma xícara de café e se virou
para levar até a mesa onde a garota estava sentada, observando a rua pelo vidro
da loja. Acelerei os passos e consegui interceptá-la no meio do caminho.
—Yara! —chamei colocando a mão sobre
seu ombro. — A Carla está te chamando lá na gerência, parece ser importante!
—menti. Carla era a nossa simpática gerente, a qual Yara adorava puxar o saco.
—Pode deixar que eu levo o café até a mesa. —sorri gentilmente pegando a xícara
de café junto ao pires. — Não é bom deixá-la esperando, né?
—Obrigada por me avisar, Daniel.
—disse Yara com sua voz firme e um olhar desconfiado. —Mesa três, onde está a
menina com os fones brancos.
Sorri novamente e me virei para
seguir até a mesa enquanto Yara caminhava até a sala da gerente. Tudo correndo
bem, seria o meu dia de sorte? Me aproximei e a garota me encarou. Seus olhos
pareciam ver através de mim, senti um arrepio percorrer o meu corpo. Fiquei
alguns segundos estático e depois de piscar três vezes rapidamente consegui
voltar ao Planeta Terra e sorri educadamente.
—Bom dia. —disse colocando a xícara
de café sobre a mesa. Tentava me manter calmo, mas as palavras começavam a
sumir da minha cabeça.
—Bom dia. –ela respondeu retribuindo
o sorriso e pegando a xícara de café. Um sorriso singelo, mas que foi o
suficiente para me tirar o ar e me dar esperanças para continuar a falar.
—“Guerra dos Mundos” é um clássico.
—comentei enquanto ela soprava o liquido quente na xícara e bebia o primeiro
gole. Inevitavelmente meus olhos se voltaram para os lábios perfeitamente
desenhados tocando a xícara com uma suavidade encantadora. — Pena que o enredo
do filme é tão diferente do livro.
—Eu já assisti ao filme e gostei
muito. —comentou colocando a xícara de volta ao pires e olhando para mim. Seu
olhar parecia me analisar centímetro por centímetro, como se tentasse ler a
minha mente. —Mas prefiro o livro, principalmente pelo narrador ser descrito
como um autor de livros de cunho filosófico.
—O filme também é ótimo. —disse
desviando o olhar brevemente. Não conseguia manter o contato visual por muito
tempo sem ficar tímido. — Faz parte da minha pequena coleção de filmes.
—Interessante. —sua voz era suave e
cada palavra parecia fazer parte de uma sinfonia misteriosa e hipnótica. Ela
retirou um dos fones do ouvido e intercalava cada frase com pausas para beber
um pouco do café. — Foi um dos primeiros livros que li. Achei interessante a
capa da edição que vocês têm.
—É, A editora tem feito novas edições
com capas alternativas dos seus clássicos. —Meu Deus! A conversa estava fluindo
normalmente, ainda não gaguejei, não estou tremendo, não fiz nenhuma besteira.
Realmente é o meu dia de sorte. — Você é fã do gênero?
Mal havia terminado de falar e um
garoto loiro de aproximadamente oito anos passou correndo pela livraria
segurando um dinossauro de brinquedo. A mãe distraída falava ao celular
enquanto olhava alguns livros e o garoto corria disparado pela loja chamando a
atenção de todos. Por sorte consegui me desviar a tempo antes que o garoto se
chocasse na minha perna.
—Adoro ficção cientifica. —respondeu a
garota observando a criança correndo e desaparecendo entre as prateleiras. Essa
tinha sido por pouco. Quando o garoto saiu do campo de visão ela sorriu para
mim, que tinha me apoiado à mesa para me esquivar dele. — Crianças!
—Crianças. —repeti sorrindo. Realmente
era o meu dia de sorte. —Nossa, me desculpe, eu não disse o meu nome. Prazer,
me chamo Daniel.
—Prazer, Daniel. Me chamo Crystal!
—ela sorriu novamente.
Crystal. Um nome diferente e muito
bonito. Finalmente estava começando a descobrir algo sobre a garota misteriosa.
Ela me encarava parecendo esperar pelo meu próximo comentário. Seus olhos
castanhos pareciam uma grande e profunda imensidão. Por um momento me perdi
naquele olhar, fantasiando o que estaria escondido por trás daqueles olhos. De
alguma forma aquela imensidão me trazia uma sensação de vazio, como se eu
estivesse em queda livre dentro de um abismo sem fim. Um abismo repleto de
mistérios.
—Daniel! —uma voz feminina me
despertou dos meus pensamentos. Alguém me dava cutucões nas costas. Me virei e
vi Yara bufando logo atrás de mim. Seus olhos faiscavam. — Você está querendo
brincar comigo, garoto?
—Brincar? —eu odiava o fato dela me
chamar de garoto, ainda mais pela nossa diferença de idade ser de apenas três
anos. — Como assim, Yara?
—A Carla não estava querendo falar
comigo! —exclamou Yara aparentemente possessa por ter feito papel de boba
perante a sua amada gerente. —Aposto que é mais uma das brincadeiras que você e
a Isis ficam aprontando. Carla estava conversando com um editor sobre uma remessa
de livros que vem aqui para loja e você me fez atrapalhá-la!
Pronto! Agora a insuportável funcionária
do mês não conseguiria parar de falar. Ela realmente tinha ficado furiosa de
ter feito papel de boba. Começou então a falar da politica da loja sobre o bom
relacionamento entre os funcionários, que aquele tipo de brincadeira ia contra
as regras e blá blá blá. Por um momento eu via apenas os lábios dela se mexendo
sem sair som algum enquanto ela gesticulava ferozmente. Eu não conseguia nem
interrompê-la. Ela estava me fazendo perder tempo. Droga! Logo agora que minha
conversa com a Crystal estava indo tão bem.
Continuei fazendo cara de paisagem
enquanto Yara falava mais rápido que um narrador de futebol. Desviei o olhar e
tentei me virar discretamente para ver se Crystal estava prestando atenção
naquele show dado pela funcionária do mês. Acabei esquecendo a descrição e
virando um pouco o corpo para olhar para ela. Crystal havia recolado ambos os
fones nos ouvidos e bebia o restante de seu café olhando pela vidraça o
movimento do lado de fora da loja.
—Ah! Então você queria era paquerar a
cliente! —exclamou Yara num tom consideravelmente alto, chamando a minha
atenção. — É ainda pior do que eu imaginava, Daniel!
Agora ela havia chamado também a
atenção da Crystal.
—Yara, me desculpe. —interrompi o
discurso de forma educada. Tentando conter a minha vontade de matá-la. — Eu
juro que devo ter me confundido.
Nesse momento Isis se aproximava com
um copo duplo de suco de laranja apoiado em um outro pires de vidro.
—Ah, entendo, garoto. —disse Yara com
um tom sarcástico olhando para Isis que acabara de parar próximo a nós,
esperando para passar. Yara olhou para os lados e percebeu que seu showzinho
tinha chamado à atenção de alguns clientes e aquilo era péssimo para a sua boa
imagem. — Dessa vez vou deixar passar! —sorriu ela com falsidade. Como se ela
tivesse que deixar passar algo, ela nem era a gerente. Yara então tomou o copo
de suco da mão de Isis e estendeu o braço na minha direção. — Pode deixar,
Isis, o Daniel hoje está louco para atender as mesas, ele mesmo pode levar.
Yara virou as costas e saiu deixando o
copo na minha mão. Isis sorriu e balbuciou “Mesa seis”. Também se virando. Preparava-me
para virar quando novamente o garoto correu na minha direção. No instante em
que me virei não pude desviar e ele me atingiu me fazendo desequilibrar e
tombar para frente. O copo escorregou da minha mão e o liquido derramou em
alguém que até então estava logo atrás de mim. Me abaixei rapidamente para
impedir que o copo caísse e quando levantei os olhos meu corpo gelou quando vi
a Crystal com a blusa toda molhada de suco de laranja.
—Merda! — exclamou Crystal com os
olhos faiscando. —Você não olha por onde anda?
Aparentemente ela havia levantado para
ir pagar o café e ir embora. Sua voz não estava mais suave e sim bastante
irritada.
—Tenha mais cuidado, garoto! — ela xingou
olhando para a blusa.
—Me desculp...
—Mil desculpas, moça. —interveio Isis
se aproximando. — Foi um acidente.
—Ele me deu um banho de suco! —disse
Crystal completamente revoltada. Me perguntava onde estaria aquele belo sorriso
de antes.
—Me desculpe. — suspirei desviando o
olhar. Não conseguia olhar nos olhos dela. — Não precisa pagar o café, é por
conta da casa.
—É o mínimo que você poderia fazer,
garoto. — Ela então se virou e saiu da loja irritada. Iris deu leves tapas no
meu ombro tentando me consolar. O pirralho do dinossauro estava rindo escondido
entre uma das estantes. Me virei ainda em choque com o fiasco que havia se
tornado aquele momento e fui até o balcão pegar um pano para limpar o chão. Meu
olhar se cruzou com Yara que sorria descaradamente.
E eu achando que estava com sorte. A
minha única sorte seria não perder o meu emprego naquele dia.
Enquanto secava o chão eu via a
imagem daquele belo sorriso e conseguia ouvir perfeitamente a voz da Crystal em
minha mente, ainda quando conversávamos normalmente. Estava tudo indo muito bem,
mas eu havia conseguido estragar o que poderia ser o inicio de um ótimo
relacionamento. Poderia ser o inicio...

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