segunda-feira, 1 de setembro de 2014

[+18] ILUSION: Capitulo 02

Por Guilherme César


Destino?




            Nunca conhecemos alguém completamente, talvez, até depois de anos de convívio. Nem conhecemos a nós mesmos inteiramente. Passamos a vida toda buscando aprender mais sobre “quem somos”, para no fim da vida, naqueles últimos segundos, encontrarmos a verdade.
Por isso a primeira impressão que temos de alguém pode se mostrar tão superficial e errônea que acaba atrapalhando tudo o que podemos enxergar a seguir. Muitas vezes ficamos cegos pela primeira impressão, perdendo a chance de conhecer alguém especial, ou nos iludindo a respeito de alguém.
            Crystal, aos meus olhos, era um poço de mistérios intermináveis. Uma garota que no inicio me intrigava, instantes depois me encantou e subitamente conseguiu fazer a imagem que eu tinha dela se quebrar feito vidro. Antes achava que ela era um anjo, tão bela, tão sedutora, tão misteriosa. Em seguida pude conhecer sua face rude e não consegui entender como alguém que até então parecia ser tão calma podia ser tão estressada e mal educada.
            Porém, independente de todas essas interpretações –e me sento triste pela constatação a seguir- não consigo deixar de pensar nela. Depois de nossos dois “acidentes” e das palavras ditas por ela, no mínimo eu devia ter repulsa de sua presença, porém a falta de lógica naquelas atitudes me deixou ainda mais curioso sobre o que se passa naquela cabeça. E essa “curiosidade” apenas aumentava.
           
            Dois dias depois do acidente no corredor da universidade, cá estou eu completamente alucinado de ansiedade. Essa maldita ansiedade crônica que agora teima em me atormentar, por causa da minha ida a redação da revista. Suzane tinha me ligado mais cedo, durante o meu horário de almoço, para agendar a minha visita a Poetizar - a revista literária. Combinamos então que eu iria à tarde de quarta-feira, daqui a dois dias. Assim eu teria tempo de conversar com a Carla e pedir que ela me liberasse durante a tarde. Acabei não conseguindo falar com ela logo após o almoço, deixando então para conversarmos no dia seguinte.
            Havia acabado de chegar da universidade e estava me preparando para dormir quando me lembrei do pedido feito por Suzane ao telefone. Ela me pediu que levasse todos os meus poemas digitados e impressos no dia da visita, além de fazer questão que eu levasse o “Cores de Outono” para ser o primeiro poema a ser publicado no blog.  Decidi então separar todos os meus poemas para levá-los no dia seguinte para a livraria e durante os horários de folga iria digitá-los. Bem mais prático do que passar a noite toda no computador.
            —Não! –exclamei sozinho no quarto, quando percebi que um dos meus poemas havia sumido. E o pior, o mais importante deles. — Onde está o Cores de Outono?
            Droga! Agora sim eu estava fodido. O meu poema mais importante havia sumido e eu não conseguiria reescreve-los, não fazendo-o ficar idêntico ao outro. Isis sempre me disse para digitalizá-los e eu estava me amaldiçoando por não tê-lo feito antes. Saltei da cama em direção a minha escrivaninha e revirei todas as gavetas. Ele precisava estar em algum lugar ali. Precisava...

            —Então você não o encontrou? —indagou Isis com os olhos arregalados, na manhã seguinte.
            —Não, procurei por todo o apartamento, não estava em lugar algum. —havia passado a madrugada toda procurando o poema. Nem tinha conseguido dormir, imaginando o que Suzane diria ao saber que eu tinha perdido o poema.
            —Bom, seu apartamento é extremamente organizado. —Comentou Isis com a mão no queixo, pensativa. — Se você não encontrou, quer dizer que realmente não está lá!
            —Merda, Isis! Sua obrigação é me dar esperanças e não tirá-las. —protestei colocando as mãos sobre o rosto. — Eu estou fodido.
            —Calma, Dan! —pediu Isis segurando minhas mãos e tirando-as do meu rosto. —Você vai encontrar o poema. Fazemos assim, no nosso horário de almoço vamos até o seu apartamento e procuramos. E tem mais, talvez a Suzane entenda e você só vai precisar escrever outro. Fique calmo.
            —Eu não consigo replicar um poema, nunca ficará idêntico. —suspirei desanimado.
            —Ficará melhor, pode ter certeza. —disse Isis tentando me animar. — Agora melhora essa cara e vai lá conversar com a Carla antes que ela saia de novo. Não fique enrolando.
            —Sim, senhora. —sorri com ironia batendo continência para ela.
            Segui até a sala da gerência, que ficava no final do corredor, atrás dos balcões. Quando estava quase chegando dei de cara com Yara que saia sorridente da sala da a Carla. Logo quando me viu ela franziu cenho e virou o rosto com desdém. “Eii, isso é contra as regras de boa convivência entre funcionários!”. Cômico como ela usava aquelas regras ao seu favor.
            Cheguei à porta da sala que continha uma placa de metal escrito “Administração/ Gerência”, Bati duas vezes e pude ouvir a voz da Carla autorizando a entrada.
            —Oi, Carla, eu poderia trocar uma palavrinha com você. —disse colocando apenas metade do corpo dentro da sala, com a porta semiaberta.
            —Claro, Daniel. —sorriu Carla. Aquele largo sorriso de sempre.  Ela era sempre muito gentil e educada e sempre sorria com cordialidade para todos. Raras vezes a vi de mau humor.
Gerente da livraria desde antes da minha entrada, Carla tinha trinta e um anos e aparentava ser bem mais jovem. Seus longos cabelos loiros chegavam até a metade de suas costas, sua franja tampava completamente a testa e seu cabelo sempre permanecia liso. Tinha pouco mais de um metro e sessenta de altura, sendo mais alta apenas que a Isis - embora qualquer um fosse mais alto que a minha amiga otimista. Não era muito magra e tinha os quadris fartos e muito atrativos. Sua pele era branca e seu rosto fino, além dos olhos azuis que cintilavam refletindo a luz da sala.
—Espero que não seja algum problema. —sorriu olhando para mim, indicando então a cadeira à frente de sua mesa. — Pode se sentar.
—Não acho que seja um problema. —caminhei e me sentei.
A sala não era muito grande, mas era perfeitamente organizada. Possuía duas estantes de madeira, repletas de livros e arquivos, cada uma em um dos lados da sala. No centro havia a mesa onde residia o computador da gerente e as suas costas uma grande janela lhe concedia um pouco de iluminação. A porta ficava logo de frente para a mesa e ao lado da porta havia um pequeno sofá de dois lugares, para reuniões com mais de um fornecedor. Ainda a frente da mesa havia duas cadeiras de ferro, com acentos acolchoados de estampa verde musgo, me sentei em uma delas. Sobre a mesa estava uma pilha de papeis, uma lata decorada repleta de canetas e lápis, o computador e uma boneca de louça em forma de bailarina, uma paixão da educada gerente.
—Bom... —comecei meio sem jeito. Era realmente desconfortável fazer aquele tipo de pedido, mesmo já trabalhando ali há mais de um ano. – Não sei se já comentei com a senhora, mas eu escrevo poemas. E eu recebi um convite para escrever poemas e textos para uma revista, tanto em sua versão impressa, quanto online.
—Dan, por favor, não me chame de senhora. —piscou Carla sorrindo. — Você é sempre tão educado. Eu já vi mesmo você escrevendo em seus horários de folga, sempre fiquei curiosa. Mas escrever para uma revista, isso é incrível! Estão querendo roubar meu funcionário?
— Na verdade não. — sorri um pouco tímido. —Eu vou escrever para a revista, mas não precisarei sair da livraria. Poderei escrever nas minhas horas livres. Como um freelancer.
—Entendo. — murmurou Carla olhando nos meus olhos. — Então, você veio apenas me contar essa novidade?
—Não! É que eu fui convidado para conhecer a redação da revista e a minha visita foi marcada para amanhã à tarde. —expliquei. Agora vinha a parte mais tensa. — E eu queria lhe pedir a tarde de folga, para que eu pudesse conhecer o local e acertar tudo com a dona da revista.
—E qual é o nome da revista? —indagou a gerente, curiosa.
—Chama-se Poetizar.
—Ela abrange vários temas, ou apenas a literatura? —Não sabia se ela estava sendo curiosa ou se queria me enrolar.
—Pelo que percebi, tudo relacionado ao mundo da literatura.
—Interessante. —sorriu Carla ajeitando o cabelo atrás da orelha. — Amanhã, quando for lá, veja como funciona a revista, quem sabe a Palavras Livres não passa a anunciar lá? Seria uma ótima parceria.
—Claro, pode deixar comigo. —E não é que ela era visionária. — Então eu estou liberado amanhã?
—Claro. — respondeu Carla. —Espero que dê tudo certo e quem sabe no futuro você não escreva um livro? Seria um prazer tê-lo aqui nas nossas estantes.
Consenti e agradeci, realmente seria bem legal escrever um livro, mas era um projeto para um futuro distante. Agora que eu havia adentrado no mundo literário, ainda tinha muito o quê aprender. Carla ainda rendeu o papo por mais alguns minutos, querendo saber detalhes sobre como consegui ser chamado para a revista e querendo saber dos poemas. Depois de conversar com ela fui então liberado para voltar ao trabalho. Logo quando sai da sala fui abordado por Isis que estava completamente eufórica.
—Dan! —exclamou Isis muito agitada— Que demora! O que diabos você estava fazendo aí dentro? Eu quase arrombei essa porta para te buscar.
—Ei, baixinha. —disse segurando os braços da Isis para que ela parasse de balançá-los freneticamente. — Relaxa, o que aconteceu? Yara botou fogo em algum cliente?
—Pior! —respondeu Isis começando a me deixar assustado com o exagero que ela estava fazendo. — A Crystal está lá fora querendo falar com você!
— O quê? —indaguei sem acreditar. A Crystal, aqui? E ainda querendo falar comigo? Tinha como isso ficar mais estranho? —Onde ela está?
—Lá no balcão. Vamos depressa! —exclamou Isis puxando o meu braço pelo corredor.
Quando chegamos ao balcão lá estava a Crystal, vestindo uma blusa branca justa ao corpo, que valorizava os seus não volumosos seios. Seus cabelos estavam presos no típico rabo de cavalo, com as mechas vermelhas se destacando entre os fios castanhos claros. As cores do outono.
Me aproximei meio que sem saber o que dizer, logo quando me viu ela deu um singelo sorriso sem graça, e abaixou os olhos. Tímida? A cada dia ela me intrigava ainda mais. Isis passou pelo balão e foi atender um cliente na estante próxima dali, deixando-nos “a sós”.
—Oi. —disse de forma seca. —Em que posso ajuda-la?
—Oi, Daniel. —começou a dizer com uma voz suave. Então olhou diretamente nos meus olhos. Senti um arrepio percorrer o meu corpo. Como ela conseguia me desarmar com um simples olhar? —Eu... eu queria te pedir desculpas.
—Desculpas? —indaguei perplexo. – Pelo que exatamente? Por ter gritado comigo, ou por ter me deixando falando sozinho?
-Ei! —murmurou franzindo o cenho. Ela tentava ao máximo se controlar. — Eu não vim aqui para brigar. Fui estúpida com você naquele dia. Não estava muito bem e acabei descontando em ti.
—Tudo bem. —respondi de forma fria. — Mas o que te fez querer se desculpar? Se arrependeu tanto assim?
—Algo que vi mudou o minha visão sobre você. —era incrível como a voz dela soava de forma melodiosa.
—Algo que viu?
—Sim, acabei ficando com isso por engano. — respondeu me entregando uma folha. A peguei e observei o que estava escrito. Meu coração disparou ao ver.
Era a minha letra. Era o “Cores de Outono”. Como? Como justo aquele poema foi cair nas mãos dela? Aquilo parecia uma brincadeira do Universo. Ela leu o poema que escrevi sobre ela!
—No momento que peguei meu caderno e minhas folhas eu acabei pegando ele enganado, — continuou explicando enquanto eu estava petrificado imaginando qual teria sido a reação dela e em como o destino parecia brincar comigo. —Acabei lendo e achei lindo.
—Achou... lindo? —gaguejei. Não conseguia montar as frases. Em minha mente uma confusão de perguntas sem respostas parecia estar prestes a me fazer ter uma convulsão.
—Sim. Eu fiquei encantada com a forma com que você escreve. —ela desviou o olhar, ficando um pouco tímida. — Confesso que te achava um babaca desastrado. Mas o poema me fez perceber um outro lado seu, sensível. Vi muito de você nesse poema.
—Nossa. —preciso organizar meus pensamentos. Ela está mesmo me elogiando? — Obrigado pelo elogio e obrigado por me devolver esse poema. Estava procurando por ele.
—Bom, então é isso, só queria me desculpar mesmo. —ela se preparou para ir embora, mas antes de se virar me olhou nos olhos e sussurrou devagar de forma sedutora. — Até que você não é tão bobo, criança. Tchau!
Ela então se virou e começou a caminhar de forma sensual, atravessando a livraria. Fiquei meio em choque com aquela visão e não consegui reagir. Escutei alguém me chamando em sussurros. Me virei para o lado e vi Isis balançando os braços freneticamente e apontando para a Crystal.
—Vai lá a chamar para sair! Agora! —sussurrou, com um olhar de ameaça. Eu sabia que se não fizesse aquilo, ou a Isis me mataria, ou eu me mataria.
—Crystal! —chamei dando a volta no balcão. Ela parou na porta da livraria e se virou para mim. Atravessei a livraria em passos rápidos e me aproximei dela. —Eu acho que te devo um café, como pedido de desculpas pelo dia do suco.
—Um café não, mas quem sabe um sorvete. —ela sorriu. E finalmente aquele lindo sorriso estava de volta ao seu rosto.
—Seria ótimo. —retribui o sorriso. — Acho que seria uma boa forma de recomeçarmos, não é?
—É, acho que sim. —respondeu, ainda me encarando.
—Amanhã à tarde eu estarei livre, lá pelas três horas. Tudo bem para você?
—Sim! —respondeu ela pegando uma caneta que estava no bolso da minha blusa e tomando o poema que ainda estava na minha mão. Ela rapidamente rabiscou um número na parte em branco do poema e me entregou. — Me liga, para combinarmos o local.
— Ok. —consenti olhando o número no papel.
—Até mais, criança. —ela então se preparou para sair pela porta.
—Ei, até quando vai continuar me chamando de criança, hein? –indaguei um pouco revoltado.
—Até o dia que você me provar que não é uma criança. Tchauzinho.

Com um sorriso sedutor ela abriu a porta da loja e saiu. Fiquei ali por alguns segundos repassando tudo aquilo que acabara de acontecer. Por obra do acaso justo aquele poema havia caído em suas mãos e justamente ele mudara completamente a situação. Agora, nas minhas mãos eu tinha o poema desaparecido e o número de telefone da Crystal. Além de ter a chance de encontrá-la no dia seguinte e tentar descobrir mais sobre aquela garota que parecia esconder muito por trás daqueles olhos castanhos. Pela primeira vez senti como  se estivesse uma mão invisível me ajudando a corrigir as coisas. Seria aquilo o tão falado Destino? 

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