Nunca conhecemos alguém
completamente, talvez, até depois de anos de convívio. Nem conhecemos a nós
mesmos inteiramente. Passamos a vida toda buscando aprender mais sobre “quem
somos”, para no fim da vida, naqueles últimos segundos, encontrarmos a verdade.
Por isso a primeira impressão que temos de alguém pode se mostrar tão
superficial e errônea que acaba atrapalhando tudo o que podemos enxergar a
seguir. Muitas vezes ficamos cegos pela primeira impressão, perdendo a chance
de conhecer alguém especial, ou nos iludindo a respeito de alguém.
Crystal, aos meus olhos, era um poço
de mistérios intermináveis. Uma garota que no inicio me intrigava, instantes
depois me encantou e subitamente conseguiu fazer a imagem que eu tinha dela se
quebrar feito vidro. Antes achava que ela era um anjo, tão bela, tão sedutora,
tão misteriosa. Em seguida pude conhecer sua face rude e não consegui entender
como alguém que até então parecia ser tão calma podia ser tão estressada e mal
educada.
Porém, independente de todas essas
interpretações –e me sento triste pela constatação a seguir- não consigo deixar
de pensar nela. Depois de nossos dois “acidentes” e das palavras ditas por ela,
no mínimo eu devia ter repulsa de sua presença, porém a falta de lógica
naquelas atitudes me deixou ainda mais curioso sobre o que se passa naquela
cabeça. E essa “curiosidade” apenas aumentava.
Dois dias depois do acidente no
corredor da universidade, cá estou eu completamente alucinado de ansiedade.
Essa maldita ansiedade crônica que agora teima em me atormentar, por causa da
minha ida a redação da revista. Suzane tinha me ligado mais cedo, durante o meu
horário de almoço, para agendar a minha visita a Poetizar - a revista
literária. Combinamos então que eu iria à tarde de quarta-feira, daqui a dois
dias. Assim eu teria tempo de conversar com a Carla e pedir que ela me
liberasse durante a tarde. Acabei não conseguindo falar com ela logo após o
almoço, deixando então para conversarmos no dia seguinte.
Havia acabado de chegar da
universidade e estava me preparando para dormir quando me lembrei do pedido
feito por Suzane ao telefone. Ela me pediu que levasse todos os meus poemas
digitados e impressos no dia da visita, além de fazer questão que eu levasse o
“Cores de Outono” para ser o primeiro poema a ser publicado no blog. Decidi então separar todos os meus poemas
para levá-los no dia seguinte para a livraria e durante os horários de folga
iria digitá-los. Bem mais prático do que passar a noite toda no computador.
—Não! –exclamei sozinho no quarto,
quando percebi que um dos meus poemas havia sumido. E o pior, o mais importante
deles. — Onde está o Cores de Outono?
Droga! Agora sim eu estava fodido. O
meu poema mais importante havia sumido e eu não conseguiria reescreve-los, não
fazendo-o ficar idêntico ao outro. Isis sempre me disse para digitalizá-los e
eu estava me amaldiçoando por não tê-lo feito antes. Saltei da cama em direção
a minha escrivaninha e revirei todas as gavetas. Ele precisava estar em algum
lugar ali. Precisava...
—Então você não o encontrou?
—indagou Isis com os olhos arregalados, na manhã seguinte.
—Não, procurei por todo o
apartamento, não estava em lugar algum. —havia passado a madrugada toda
procurando o poema. Nem tinha conseguido dormir, imaginando o que Suzane diria
ao saber que eu tinha perdido o poema.
—Bom, seu apartamento é extremamente
organizado. —Comentou Isis com a mão no queixo, pensativa. — Se você não
encontrou, quer dizer que realmente não está lá!
—Merda, Isis! Sua obrigação é me dar
esperanças e não tirá-las. —protestei colocando as mãos sobre o rosto. — Eu
estou fodido.
—Calma, Dan! —pediu Isis segurando
minhas mãos e tirando-as do meu rosto. —Você vai encontrar o poema. Fazemos
assim, no nosso horário de almoço vamos até o seu apartamento e procuramos. E
tem mais, talvez a Suzane entenda e você só vai precisar escrever outro. Fique
calmo.
—Eu não consigo replicar um poema,
nunca ficará idêntico. —suspirei desanimado.
—Ficará melhor, pode ter certeza.
—disse Isis tentando me animar. — Agora melhora essa cara e vai lá conversar
com a Carla antes que ela saia de novo. Não fique enrolando.
—Sim, senhora. —sorri com ironia
batendo continência para ela.
Segui até a sala da gerência, que
ficava no final do corredor, atrás dos balcões. Quando estava quase chegando
dei de cara com Yara que saia sorridente da sala da a Carla. Logo quando me viu
ela franziu cenho e virou o rosto com desdém. “Eii, isso é contra as regras de
boa convivência entre funcionários!”. Cômico como ela usava aquelas regras ao
seu favor.
Cheguei à porta da sala que continha
uma placa de metal escrito “Administração/ Gerência”, Bati duas vezes e pude
ouvir a voz da Carla autorizando a entrada.
—Oi, Carla, eu poderia trocar uma
palavrinha com você. —disse colocando apenas metade do corpo dentro da sala,
com a porta semiaberta.
—Claro, Daniel. —sorriu Carla.
Aquele largo sorriso de sempre. Ela era
sempre muito gentil e educada e sempre sorria com cordialidade para todos.
Raras vezes a vi de mau humor.
Gerente da livraria desde antes da
minha entrada, Carla tinha trinta e um anos e aparentava ser bem mais jovem.
Seus longos cabelos loiros chegavam até a metade de suas costas, sua franja
tampava completamente a testa e seu cabelo sempre permanecia liso. Tinha pouco
mais de um metro e sessenta de altura, sendo mais alta apenas que a Isis -
embora qualquer um fosse mais alto que a minha amiga otimista. Não era muito
magra e tinha os quadris fartos e muito atrativos. Sua pele era branca e seu
rosto fino, além dos olhos azuis que cintilavam refletindo a luz da sala.
—Espero que não seja algum problema.
—sorriu olhando para mim, indicando então a cadeira à frente de sua mesa. —
Pode se sentar.
—Não acho que seja um problema.
—caminhei e me sentei.
A sala não era muito grande, mas era perfeitamente
organizada. Possuía duas estantes de madeira, repletas de livros e arquivos,
cada uma em um dos lados da sala. No centro havia a mesa onde residia o
computador da gerente e as suas costas uma grande janela lhe concedia um pouco
de iluminação. A porta ficava logo de frente para a mesa e ao lado da porta
havia um pequeno sofá de dois lugares, para reuniões com mais de um fornecedor.
Ainda a frente da mesa havia duas cadeiras de ferro, com acentos acolchoados de
estampa verde musgo, me sentei em uma delas. Sobre a mesa estava uma pilha de
papeis, uma lata decorada repleta de canetas e lápis, o computador e uma boneca
de louça em forma de bailarina, uma paixão da educada gerente.
—Bom... —comecei meio sem jeito. Era
realmente desconfortável fazer aquele tipo de pedido, mesmo já trabalhando ali
há mais de um ano. – Não sei se já comentei com a senhora, mas eu escrevo
poemas. E eu recebi um convite para escrever poemas e textos para uma revista,
tanto em sua versão impressa, quanto online.
—Dan, por favor, não me chame de
senhora. —piscou Carla sorrindo. — Você é sempre tão educado. Eu já vi mesmo
você escrevendo em seus horários de folga, sempre fiquei curiosa. Mas escrever
para uma revista, isso é incrível! Estão querendo roubar meu funcionário?
— Na verdade não. — sorri um pouco
tímido. —Eu vou escrever para a revista, mas não precisarei sair da livraria.
Poderei escrever nas minhas horas livres. Como um freelancer.
—Entendo. — murmurou Carla olhando nos
meus olhos. — Então, você veio apenas me contar essa novidade?
—Não! É que eu fui convidado para
conhecer a redação da revista e a minha visita foi marcada para amanhã à tarde.
—expliquei. Agora vinha a parte mais tensa. — E eu queria lhe pedir a tarde de
folga, para que eu pudesse conhecer o local e acertar tudo com a dona da
revista.
—E qual é o nome da revista? —indagou
a gerente, curiosa.
—Chama-se Poetizar.
—Ela abrange vários temas, ou apenas a
literatura? —Não sabia se ela estava sendo curiosa ou se queria me enrolar.
—Pelo que percebi, tudo relacionado ao
mundo da literatura.
—Interessante. —sorriu Carla ajeitando
o cabelo atrás da orelha. — Amanhã, quando for lá, veja como funciona a
revista, quem sabe a Palavras Livres não passa a anunciar lá? Seria uma ótima
parceria.
—Claro, pode deixar comigo. —E não é
que ela era visionária. — Então eu estou liberado amanhã?
—Claro. — respondeu Carla. —Espero que
dê tudo certo e quem sabe no futuro você não escreva um livro? Seria um prazer
tê-lo aqui nas nossas estantes.
Consenti e agradeci, realmente seria
bem legal escrever um livro, mas era um projeto para um futuro distante. Agora
que eu havia adentrado no mundo literário, ainda tinha muito o quê aprender.
Carla ainda rendeu o papo por mais alguns minutos, querendo saber detalhes
sobre como consegui ser chamado para a revista e querendo saber dos poemas.
Depois de conversar com ela fui então liberado para voltar ao trabalho. Logo
quando sai da sala fui abordado por Isis que estava completamente eufórica.
—Dan! —exclamou Isis muito agitada—
Que demora! O que diabos você estava fazendo aí dentro? Eu quase arrombei essa
porta para te buscar.
—Ei, baixinha. —disse segurando os
braços da Isis para que ela parasse de balançá-los freneticamente. — Relaxa, o
que aconteceu? Yara botou fogo em algum cliente?
—Pior! —respondeu Isis começando a me
deixar assustado com o exagero que ela estava fazendo. — A Crystal está lá fora
querendo falar com você!
— O quê? —indaguei sem acreditar. A
Crystal, aqui? E ainda querendo falar comigo? Tinha como isso ficar mais
estranho? —Onde ela está?
—Lá no balcão. Vamos depressa!
—exclamou Isis puxando o meu braço pelo corredor.
Quando chegamos ao balcão lá estava a
Crystal, vestindo uma blusa branca justa ao corpo, que valorizava os seus não
volumosos seios. Seus cabelos estavam presos no típico rabo de cavalo, com as
mechas vermelhas se destacando entre os fios castanhos claros. As cores do
outono.
Me aproximei meio que sem saber o que
dizer, logo quando me viu ela deu um singelo sorriso sem graça, e abaixou os
olhos. Tímida? A cada dia ela me intrigava ainda mais. Isis passou pelo balão e
foi atender um cliente na estante próxima dali, deixando-nos “a sós”.
—Oi. —disse de forma seca. —Em que
posso ajuda-la?
—Oi, Daniel. —começou a dizer com uma
voz suave. Então olhou diretamente nos meus olhos. Senti um arrepio percorrer o
meu corpo. Como ela conseguia me desarmar com um simples olhar? —Eu... eu
queria te pedir desculpas.
—Desculpas? —indaguei perplexo. – Pelo
que exatamente? Por ter gritado comigo, ou por ter me deixando falando sozinho?
-Ei! —murmurou franzindo o cenho. Ela
tentava ao máximo se controlar. — Eu não vim aqui para brigar. Fui estúpida com
você naquele dia. Não estava muito bem e acabei descontando em ti.
—Tudo bem. —respondi de forma fria. —
Mas o que te fez querer se desculpar? Se arrependeu tanto assim?
—Algo que vi mudou o minha visão sobre
você. —era incrível como a voz dela soava de forma melodiosa.
—Algo que viu?
—Sim, acabei ficando com isso por
engano. — respondeu me entregando uma folha. A peguei e observei o que estava
escrito. Meu coração disparou ao ver.
Era a minha letra. Era o “Cores de
Outono”. Como? Como justo aquele poema foi cair nas mãos dela? Aquilo parecia
uma brincadeira do Universo. Ela leu o poema que escrevi sobre ela!
—No momento que peguei meu caderno e
minhas folhas eu acabei pegando ele enganado, — continuou explicando enquanto
eu estava petrificado imaginando qual teria sido a reação dela e em como o
destino parecia brincar comigo. —Acabei lendo e achei lindo.
—Achou... lindo? —gaguejei. Não
conseguia montar as frases. Em minha mente uma confusão de perguntas sem
respostas parecia estar prestes a me fazer ter uma convulsão.
—Sim. Eu fiquei encantada com a forma
com que você escreve. —ela desviou o olhar, ficando um pouco tímida. — Confesso
que te achava um babaca desastrado. Mas o poema me fez perceber um outro lado
seu, sensível. Vi muito de você nesse poema.
—Nossa. —preciso organizar meus
pensamentos. Ela está mesmo me elogiando? — Obrigado pelo elogio e obrigado por
me devolver esse poema. Estava procurando por ele.
—Bom, então é isso, só queria me
desculpar mesmo. —ela se preparou para ir embora, mas antes de se virar me
olhou nos olhos e sussurrou devagar de forma sedutora. — Até que você não é tão
bobo, criança. Tchau!
Ela então se virou e começou a
caminhar de forma sensual, atravessando a livraria. Fiquei meio em choque com
aquela visão e não consegui reagir. Escutei alguém me chamando em sussurros. Me
virei para o lado e vi Isis balançando os braços freneticamente e apontando
para a Crystal.
—Vai lá a chamar para sair! Agora!
—sussurrou, com um olhar de ameaça. Eu sabia que se não fizesse aquilo, ou a
Isis me mataria, ou eu me mataria.
—Crystal! —chamei dando a volta no
balcão. Ela parou na porta da livraria e se virou para mim. Atravessei a
livraria em passos rápidos e me aproximei dela. —Eu acho que te devo um café,
como pedido de desculpas pelo dia do suco.
—Um café não, mas quem sabe um
sorvete. —ela sorriu. E finalmente aquele lindo sorriso estava de volta ao seu
rosto.
—Seria ótimo. —retribui o sorriso. —
Acho que seria uma boa forma de recomeçarmos, não é?
—É, acho que sim. —respondeu, ainda me
encarando.
—Amanhã à tarde eu estarei livre, lá
pelas três horas. Tudo bem para você?
—Sim! —respondeu ela pegando uma
caneta que estava no bolso da minha blusa e tomando o poema que ainda estava na
minha mão. Ela rapidamente rabiscou um número na parte em branco do poema e me
entregou. — Me liga, para combinarmos o local.
— Ok. —consenti olhando o número no
papel.
—Até mais, criança. —ela então se
preparou para sair pela porta.
—Ei, até quando vai continuar me
chamando de criança, hein? –indaguei um pouco revoltado.
—Até o dia que você me provar que não
é uma criança. Tchauzinho.
Com um sorriso sedutor ela abriu a
porta da loja e saiu. Fiquei ali por alguns segundos repassando tudo aquilo que
acabara de acontecer. Por obra do acaso justo aquele poema havia caído em suas
mãos e justamente ele mudara completamente a situação. Agora, nas minhas mãos
eu tinha o poema desaparecido e o número de telefone da Crystal. Além de ter a
chance de encontrá-la no dia seguinte e tentar descobrir mais sobre aquela
garota que parecia esconder muito por trás daqueles olhos castanhos. Pela
primeira vez senti como se estivesse uma
mão invisível me ajudando a corrigir as coisas. Seria aquilo o tão falado
Destino?

Nenhum comentário:
Postar um comentário